31.5.06

Oração Luciferiana



Hail to thee: Lucifer! The Light of Illumination. For it is by thine
Eye doth my own mind take sight. Thy kingdom come, thy
Will be done so Below as it is so Above. Thou art the Sovereignty
of the Heavens, and the King of the Earth, the Lord of Light and
the Prince of Darkness. Hallowed be thy name.

Oh Great Light of unspeakable Presence, heighten the fury

of my fire and burn away the dross of my being that I may
radiate the Light. Release me from my past and set me free from
my boundaries. Fill me with your Presence and Light, that I be
consumed by the Immortal Fire that is my Strength.

Transmute me into an incorruptable Column of Light upon the

world, and emanate liken a star upon the crown of majesty.
Thou art the Immortal Fire and the Light of Illumination; to thee
do I honor and exalt above all.

Para verdadeiros crentes no ser-humano.

28.5.06

Ânimo...





Para ti, seu maluco. Ânimo! Estás vivo...

27.5.06

Nada a perder



Vou contar-vos um pequeno segredo. Não suporto Proust. Abomino a Recherche e tenho menos do que paciência para os devaneios maneiristas de Marcel. É um pouco como a vaga de calor que se abate sobre o nosso país: também a não suporto.

Ainda agora estava pendurado na soleira da janela a fumar uma broca e a recordar o meu passado de criança. Sabem, é como a madalena e o chá do Proust. O cheiro do vento quente combinava-se na perfeição com o aroma do haxe quando, subitamente, me vi rapaz, na mesma soleira da mesma janela a fumar o mesmo xarro e no entanto a pensar que tinha toda a vida à minha frente e que me iria vir a ser um médico de sucesso, tal e qual o foi o meu avô, herói e modelo de sempre. Tinha-me treze anos e via o meu primo Jorge que me partilhava da ganza e dos sonhos, embora no caso dele sempre tivesse sido sonho das letras via jornalismo.

De repente acordei. Foi uma rajada mais forte ou teria sido um travo a mais a óleo. Fiz-me médico e o meu primo jornalista e mandei foder a medicina e ele o jornalismo. Acho que se fez feliz, com ou sem jornalismo, mas nada sei dele há uns dez anos. Quanto a mim, não me fiz nada. Fiz um tipo deitado numa cama a sorver dos lençois o cheiro a lavanda e a inocência da minha meninice.

Fui sintonizar o ar condicionado, preparar um martini, ligar o portátil, sentar-me à vossa frente e contar-vos tudo de segredos que já não comovem a ninguém. Em que é que falhei? Pouco interessa agora para o caso, o fim está próximo e não é a altura de me pôr com cogitações metafísicas. Nem sequer a mim me interessam e posso falar-vos delas na terceira pessoa, como se fossem o retrato imaginário de um qualquer tipo mais ou menos lunático. E não ateu ou sequer agnóstico.

No outro dia, um gajo qualquer cujo nome não me recorda teve a distinta lata de me ameaçar com tolices que para ele serão importantes mas que para mim não passam disso mesmo: tolices. Dizia o gajo que tinha, e passo a citar, "uma espada de dâmocles" suspensa sobre a minha cabeça. Com isso, julgava porventura que me intimidava. Daqui lhe digo que antes assim fosse. Era bom sinal. Sinal de que estava falar para alguém que ainda tivesse algo a perder.

23.5.06

Racionalismo Satânico


Em breve, aqui iremos postar os princípios do Racionalismo Satânico. Iremos colaborar activamente na pesquisa, (Vanessa), desenvolvimento (Picasso), redacção (Helel) e corolário (Lobo). Entretanto, vamos beber umas bejecas, dar umas fodas (desculpa Vanessa) e escutar a linda da Xana a dizer umas merdas acerca de tradução.

14.5.06

Estamos com...


A caminho de mais uma edição do Campeonato Mundial de Futebol, O Lado Negro da Lua decidiu, após cuidadosa ponderação por parte de todos os seus colaboradores e por decisão unânime, apoiar, total e incondicionalmente, a Selecção Nacional Inglesa. No nosso entendimento, e mesmo sem Rooney, A equipa inglesa é (à excepção talvez da esquadra anfitriã) a única selecção europeia capaz de travar o Brasil e restituir à Europa o tão cobiçado troféu.
May God save the Queen, Beckham, Owen e todos os outros, avante Bretanha!

13.5.06

Adivinha...


Adivinha lá o que estes gajos se preparam para fazer...

8.5.06

Delta Lima - Internet Down


Ponte de Lima, terra de papas de sarrabulho e bom vinho verde tinto, é também o feudo pessoal do queijo podre e único bastião autárquico do partido da Catherine Deneuve, aka P.P., aka, "Nossa Senhora de Fátima salvou-nos do Prestige".

Por isso, não admira que lá se tenha mandado fechar um estabelecimento que disponibiliza acesso à internet. A Câmara local considera que esses estabelecimentos são antros de vício e devassidão. Tudo porque o dito estabelecimento fica perto de uma escola e, aparentemente, os meninos acedem aí à internet, não para realizarem pesquisas escolares ou tão pouco escreverem blogues saudáveis como este, mas antes para brincarem aos soldadinhos virtuais (ai que saudades de Delta Force - Black Hawk Down).

Concordo totalmente com esta medida camarária e proponho desde já que a autarquia limiana investigue e apreenda todos os telemóveis, consolas e derivados que disponibilizem jogos aos putos do concelho. Como toda a gente sabe, os jogos e afins são obras do Demo e, num concelho católico e respeitador da Moral e bons Costumes como o de Ponte de Lima, o Demo deve ser travado a todo o custo, mesmo que isso implique fechar lojas de internet, coisa que pouco ou nenhuma utilidade apresenta ao desenvolvimento cultural do país.

30.4.06

Editorial

Há gajos no nosso mísero quarteirão da blogosfera de quem não gostamos. Poucos, mas bons e de quem não gostamos nem um bocadinho. Um desses gajos é o Esmoriz. O Esmoriz é um tipo relativamente culto e inteligente, quase sensível, mas com dois grandes defeitos: é frustrado pra caralho e sentido de humor foi algo que nunca teve. Explicamos: o Esmoriz é um vencido da vida, um melro que tem de si próprio uma ideia deturpada, um cretino que sempre pensou que fosse mais do que os outros até que a vida se encarregou de o desenganar.

De certo modo, lamentamos o Esmoriz. O coitado até era um fulano com potencial, um homem que poderia ter ido longe, só que, lá está, não foi. Lamentamos o Esmoriz porque sabemos o quão difícil é neste país estar à frente dos outros. Nós aqui temos ouvidos para José Mário Branco e não esquecemos aquele "e atiras a culpa para os da frente" com que ele qualificava a generalidade do povo português. Lamentamos o Esmoriz, mas só até certo ponto. O que é certo é que se o Esmoriz não vingou a culpa é acima de tudo dele próprio: se era mais do que os outros teria de o ter provado e não o fez.

Quando surgiram os blogs, o Esmoriz foi dos primeiros a envolver-se na coisa: era chegada a hora da vingança; a hora de mostrar a todos os filhos da puta que lhe tinham fodido a vida quem o Esmoriz era de verdade: um português dos quatro costados, desses que fazem remontar a linhagem a Gonçalo Mendes da Maia; desses que não têm medo de nada e que sabem de tudo muito mais do que todos os sacanas que no passado o haviam lixado.

No entanto, as coisas não se passaram como o Esmoriz pensara: não só ninguém o lia, como os poucos que o liam ou não percebiam patavina, ou se percebiam era porque eram gajos vividos o suficente para achar interessante, mas não genial. E, lentamente, o Esmoriz azedou, azedou, azedou.

Posto isto, O Lado Negro da Lua, frontalmente, tem duas coisas a dizer-lhe:

a) - Aqui, Salazar é, foi e será um grandessíssimo filho da puta.

b) - Não percas tempo e dá atenção à tua família que só eles é que (por enquanto) te vão aturando.

29.4.06

Lúcifer, manager do ano


Entrevistador: Diga-me, qual a sensação de vencer a Liga Angélica?
Lúcifer: Bem, não lhe vou mentir, é uma sensação muito boa! Afinal, o último campeonato que vencemos foi há mais de 2000 anos.
E: Em grande parte, essa vitória deveu-se à lesão da estrela da altura, Jesus. Não concorda?
L: De maneira nenhuma! Jesus era bom e ainda tentei contratá-lo à última da hora. Mas, se quer a minha opinião, não passava de um pirralho mimado que só tinha a importância que tinha por ser filho do Presidente do clube. Estava lesionado, estava lesionado... mas três dias depois já estava de pé! Cá pra mim, não há lugar para manhas na Liga.
E: Pensa que teria vencido mesmo com Jesus na equipa adversária?
L: Sem dúvida, sem dúvida! É verdade que Jesus era uma peça fundamental, mas nós também tinhamos bons jogadores na época: Astaroth, Leviathan, Adramelech, Beelzebub. E, claro, Judas foi uma mais valia de última hora. Mas não falemos mais do passado!
E: Mais de 20 séculos passados, o que pensa que o levou à vitória?
L: Muito trabalho e espírito de equipa. No século XX contratámos grandes estrelas: a dupla de centrais Hitler e Mussolini provou ser invencível. Com Milošević ao ataque e os corredores feitos por fenómenos como Mao e Salazar, era impossível perder.
E: No entanto, é impossível negar o valor do seu adversário directo.
L: É assim: claro que o nosso adversário tinha uma equipa sólida. Mas, sejamos sinceros, não quer, certamente, comparar uma Lúcia ou um João Paulo à exímia técnica de um Franco ou de um Mobutu, pois não?
E: E planos para o futuro?
L: Espero continuar a gerir a equipa como tenho feito até hoje. Tenho uma relação muito especial e muito forte com os jogadores e com os adeptos, e desejo levar este grupo a mais vitórias. No entanto, se surgir uma proposta de um clube como o Chelsea ou o Salgueiros, será caso para pensar no assunto.
E: Muito obrigado pelo seu tempo e boa sorte para o futuro.
L: O prazer foi todo meu! Volte sempre que quiser.

27.4.06

Pensamento da noite


And God said, "Let there be light!"
Chuck Norris said, "Say please."

26.4.06

O compromisso


O, aquele gajo, o, ai como é que o gajo se chama? O... Olha, o Cacilva Vácuo anunciou ontem a sua intenção de estabelecer um compromisso no combate às desigualdades sociais. Ele diz que a malta toda, governo, autarquias, sociadade civil, se tem de empenhar nesse compromisso. Eu acho bem. (Por falar nisso, tenho de ligar à Maria Joana a ver se ainda está de pé o jantarinho romântico de logo à noite, afinal é ela que paga). Mas voltando ao compromisso do Vácuo, onde é que se assina essa cena?
É que por acaso recebi umas massas da herança da minha bisa e sou gajo para alinhar. Outra coisa, o que é que acontece a quem não alinhar? Onde é que estão os termos do compromisso? Ao certo, ao que é que a malta se compromete? É que essa merda de combater as desigualdades sociais até parece bonito, mas gostava de saber, preto no branco, em que é que me estou a meter. Ou é só 31 de boca? Onde está a merda do compromisso? Bem, de qualque forma, não há dúvida de que o Cacilva nos surpreendeu com esta bonita ideia. Nunca o Vácuo surgira tão consistente...

24.4.06

Porque sim

Aos três f's do Fascismo (Fado, Fátima e Futebol) o 25 de Abril traz a promessa dos três D's:




Democracia, Descolonização e Desenvolvimento.


Cumpriu-se a Descolonização, Fez-se a Democracia e adiou-se o Desenvolvimento, o que teve como consequência a Democracia de cartão que vivemos. Não há problema: Nossa senhora de fátima ainda há de fazer de portugal campeão mundial de futebol. E, então, cumprir-se-á o nosso fado.



Ah, sim. E já me esquecia. Que o
filho da puta não tenha paz no Inferno.

21.4.06

Murmansk


Acordo às sete da manhã com o nariz inchado e a vista toldada dos lisos de ontem. Com uma fuça de meter medo e de cuecas lilás preparo um vodka branco, calço meias amarelo-canário, enfio-me no carro preto e arranco para Coimbra. Vamos à Clínica.
Sempre a abrir, sinto logo a falta dum liso e carrego ainda mais no acelerador. Ela, no banco de trás, descansa, alheia a tudo isso. Estação de serviço de Aveiras. Ao invés do liso, vou por um café e dois galões achocolatados. No banco de trás um vestido rosa-escarlate faz clap, clap, clap. É o vento do turbo a dar-lhe gás. No retrovisor o seu cabelo loiro espraia-se, inocente, nos bancos de couro castanho.

11h25. Estamos em Coimbra. Verde. Azul de Verão e de Vida borbulhante. Ciumenta de alguém que me dá direcções, passa, ciosa do que é seu, rápida, para o banco da frente. A mão aninha-se na minha e sou sacudido por um espasmo violento. O contacto, assim brusco, inesperado, tolda-me por momentos os reflexos e quase bato no carro da frente. Ufa!..

Coimbra, há que séculos que não vinha por estas bandas. A cidade está mudada. Não, não é isso: está só com uma maquilhagem diferente. Deixo-a encarregue a si mesma sem me atrever a beijá-la e parto em busca de uma caneca e das memórias de outros tempos: hotéis, tertúlias, sessões de caça, quintetos de gemidos e suspiros de deboche. Está-se bem. Paro o carro ao pé do Avenida e abanco, descontraído, na esplanada da Praça da República. É a Coimbra da Primavera tal e qual a recordava. De manhã. No Choupal. Na Sereia. No Moçambique. No Trianom.

A casa dos avós do Jorge Silva. A casa dos meus tios. O liceu José Falcão. As serenatas à Cruz de Chelas. Os arcos e a estátua de Camões. Como nos divertíramos nesse tempo, o Jorge e eu... Eramos jovens e íamos mudar o mundo. Na vertigem duma caneta, no grito duma viola e na composição dum livro da demência. Inocentes, os nossos projectos fervilhavam pelas avenidas da mente, espraivam-se no delta dos sentidos e desembocavam na grande praça da razão do Absurdo (sic).

Enfim, o passado a Deus pertence e só a ele. Tem uma grande vantagem e um grande defeito, podemos sempre pintá-lo à medida das nossas conveniências mas é sempre uma cópia e nunca o original. No presente, emborco mais uma caneca e outra ainda. Não é um liso mas sabe bem e faz companhia às codornizes que marinam na chispalhada d’absinto em que se converteu o meu cérebro. Coisa gira, este presente. É algo que está aqui mas já foi e ainda há de vir.

O presente não é algo de que se possa falar. Simplesmente, acontece. Como agora. A olhar as mães que passam na rua e os carrinhos de bebé. A emborcar mais uma caneca e a fumar paivante atrás de paivante. Enfim turvo e liberto de tudo. Dela, do seu vestido rosa e do passado. Quanto ao futuro, bem, esse que se lixe. Invariavelmente, vai ser pintado com os pastiches da incerteza.

“Manuel! Manuel!”
“Sim, olá, como correu, então?”

Senta-se e rapa do telefone só para mexer em alguma coisa e disfarçar o nervosismo. Uma lágrima no canto do olho. Uma lágrima nunca vem só. (As lágrimas adquirem uma tonalidade estranha quando reflectidas num balde de cerveja, agora reparo.) Uma lágrima, duas... Enchuga-se e começa a desbobinar. Às tantas, pelo tom da voz e amálgama de palavras, fico preocupado. Não era caso para menos. Mas, para já, não quero chatices e deixo correr o marfim com uma cara de pedante colada no rosto. Não é burra e repara no meu ar indolente. Então, só para chatear, desembucha tudo de uma vez. Está grávida. Quatro meses e a contar. Enrolo um paivante. Deito-o fora, enfadado, e acendo antes um Lucky Strike. A menina do bar troca comigo um olhar cúmplice. A grande estúpida.

Dou um longa, longa passa. Voluptuosa, saborosa e um tudo ou nada fingida.

“Diz-me, sabes quem é o pai?”
“Não és tu.”

Que simpático da sua parte, como se eu não o soubesse já.

“Então, quem?”
“O Jorge... O Jorge Silva...”

Levanto-me, polidamente, com vontade de lhe apertar o seu lindo pescoço de ninfa.

“Senhor, Senhor!”
“Diga, por favor?...”
“A sua conta...”

Vou pagar e aproveito para me demorar contemplando o rosto ao espelho. A empregada sorri e penso para comigo que tudo seria muito mais simples se estivesse apaixonado pela empregada e não por ela. É bonita sem ser vistosa e alegre sem ser viciosa. Podiamos ser felizes. Sinto a promessa na forma como sorri e no toque dos seus dedos quando me entrega o troco. Mas não. Não vai dar.

Quando regresso ela chora ao telefone com um outro tipo do lado de lá que não era o Jorge e que não era eu e que provavelmente também já fora para a cama com ela. Um dos seus múltiplos “amigos”, dos quais era tão ciosa, e que a mim me exasperavam ao ponto da loucura. Ao ponto de lhe querer bater. Desfigurá-la. Sem compromisso. Arder na fogueira do seu corpo e lambuzar-me todo na chama dos seus olhos, deitar-me com ela e apertar-lhe o pescoço e ver a cor a fugir das suas faces, e o medo – sim o medo – o medo finalmente estampado na sua cara de vaca. Puta!

Pensando melhor, o tipo do telefone não passava dum imbecil. Um imbecil que, tal e qual como eu, não tivera a arte ou o engenho de a prender definitivamente – fazendo-lhe um filho. Saco da carteira e remexo nas notas, como que a certificar-me do meu poder, da minha superioridade. Preciso dum liso. Um whisky. Não, um bagaço. Por muito que deteste beber. Agora. Já!

Saímos. Ainda soluça. Obrigo-a a calar-se com um lenço azul de Caxemira. Recupera rápida e tem ainda tempo para um comentário depreciativo ao perfume do lenço, o que me alegra. Ela não o sabe mas é o perfume de Paula. A Paula dos seios aveludadados; a Paula do riso brejeiro e do sexo fácil. A Paula que levo para cama ou me leva ela quando a embriaguez é de tal modo que não me recordo de quem sou nem de por quem sofro.

Vamos ao almoço. Como está sexy. Atraente. Fascinante. Toda ela mulher. Flerta com os clientes e estes com ela. É como se eu não existisse. É como se a bebé não existisse. Não estou satisfeito. Resolvo trocar galhardetes. Acuso-a de tudo e tudo o que digo é a verdade crua e nua. A falsidade. As traições. A maneira de me tratar como se fosse a sua marionete. O calculismo. O despudor.


Ela não gosta. A briga é feia. Pesada. Trata-me desdonhosamente. Grita comigo, que nunca mais me quer ver, que nunca me pediu nada, que nunca me mentiu sobre os seus “amigos”. Que se não goste que me mude. Esta também é a verdade. Cinzenta, cinzentona e comezinha, mas esta é também uma das faces da “nossa” verdade. Não quero saber. Estou possesso e insulto-a, só para ver a reacção. Resolve ignorar-me. Não diz nada. Veste uma cara fria, gelada, e já a minha determinação se esvai e ela é de novo a minha princesa das mil e uma noites, a minha vida, o meu encanto, a minha graça e a minha vontade.

À tarde. Peço desculpas. Procuro desajeitadamente a sua mão, mas foge-me. Renego tudo o que disse. Renego a verdade, tão convictamente a renego. Mas também, o que renego eu? O amarelo-canário das minhas peúgas ou o rosa escarlate do seu vestido? A verdade? Que se lixe.

Finalmente, perdoa-me e fazemos as pazes. Regressamos a Lisboa. A auto-estrada corre por baixo de nós, enrolada numa tagarelice toda molenga e sorna. Ela é só mimos. Afaga-me o pescoço, vitoriosa. Resolvo sair num atalho qualquer e estaciono num miradouro. Quase louco já as minhas mãos se perdem na floresta dos seus cabelos. Trémulo, beijo-a e é uma explosão de sentidos por todo o meu corpo. Ela sabe-o e encosta-se mais a mim, enpurra os meus lábios para os seus seios. Chupo-os avidamente e aperto-lhe os bicos, fazendo-a gemer. A intensidade do nosso amplexo não tem limites. Agora sei tudo. Estou perdido, não há nada a fazer. Afasto-a com brusquidão, com uma certa violência, até, mas não diz nada. Como é sábia. Dá-me um beijinho...

Recomponho-me e ela puxa as alças do vestido, devagar, provocante, fazendo-me engolir em seco. Mesmo depois do Amor continuo consumido pela ânsia da posse. Viro-me para o lado e detenho-me a contemplar a paisagem. Que bonito que isto é. Como se chamará? E o que é que isso interessa? Que interessa como se chamam as coisas? O que interessa é que é bonito e isso devia bastar. Mas não. Nunca basta.

Telefona o Jorge Silva. Que continua bem. Algures no Mar Báltico. Arranjou uma namorada russa. Óptimo, penso eu. Ao meu lado a respiração dela está alterada. Faço de conta que nem noto. Estou-me nas tintas.

“Então e depois Jorge, para onde partes?”
“Para Murmansk, para Murmansk Manuel. E tu, diz-me, como estás?”
“Olha, eu....”

Ela acende um cigarro, nervosamente, muda a estação da rádio.
“Eu – cá estou – grávido.”
“Hum... parece realmente grave. Pois... Fica bem Manuel, não abuses dos lisos e assim que puderes vem ter comigo a Murmansk!”
“A Murmansk, Jorge!!!”
“A Murmansk, Manuel!!!” E desligámos.
......................................................................
Nunca fui ter com o Jorge a Murmansk. O que foi uma pena, pois por lá tudo é branco, branquíssimo a perder da vista. Mas agora já não interessa. Ele nunca soube da Inês, a filha deles que nasceu quase há 10 anos num dia sete de Dezembro.

Poucos dias depois, parti para bem longe e nunca mais a vi, ela não me que queria ver e eu não as queria ver a elas. Mas ao escrever estas linhas sinto que nunca a vou esquecer. Por muito que faça, por muitos sítios onde ainda vá, por muito que ainda viva. Naquele dia sete um pedaço de mim morreu.


Lisboa, 28 de Abril de 2004

PS-Esta é uma história de ficção qualquer semelhança com eventos ou pessoas reais é pura coincidência

Pensamento da lua


Hoje em dia, nos momentos lúcidos, o simples facto de abrir a porta do minha casa e começar a descer as escadas implica um esforço terrível. O que me vale é que me são raríssimos os momentos de lucidez.
....

20.4.06

Amanhecer


Agora quando o gato comeu o rato e o cão fugiu assustado e ferido com o rabo entre as pernas; agora quando nada mais há a fazer e quase tudo ficou por dizer nas palavras que se partiram e cortaram a meio de um suspiro, de uma emoção abrasadora; agora, agora é tempo de despertar, passar pelo rosto um pano perfumado e agarrar com gosto o escasso futuro que resta. É tempo de regressar e de acreditar que um novo amanhecer ainda é possí­vel. É tempo de voltar a sonhar. Agora.

Luz Verde


Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-nos, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba,
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!


Cesário Verde, in O Sentimento dum Ocidental


Cesário Verde é um poeta que marca uma profunda reaccão contra formas linguísticas e de conteúdo da poesia portuguesa do sec XIX. Cesário surge na contra corrente do Romantismo, ultra lírico nos conteúdos e artificialista na linguagem.

Em Cesário Verde a linguagem vai plastificar-se e o conteúdo concretizar-se. Assim, Cesário será por um lado poeta-pintor, impressionista, por outro poeta do quotidiano, do real. Será na realidade concreta que se oferece a seus olhos e nao em míticos paraísos poéticos ideais onde Cesário irá encontrar a inspiração para a sua obra.

É um poeta cuja linguagem se desenvolve sobre sensações, impressões que a realidade lhe provoca. No entanto, se Cesário se aproxima do Sensacionismo e do Impressionismo, tal não quer dizer que aí se esgote, já que, lado a lado com os novos usos linguísticos está um rigor “alexandrino” e, sobretudo, uma atenção abrangente ao concreto da realidade e a denúncia das desigualdades sociais que pode ser lida como percursora do Neo-realismo.

Essa denúncia insere-se numa temática mais vasta em que a oposição cidade-campo desempenha um papel central. Pessoa de Cesário dirá que era “um camponês preso na cidade”.
A oposição campo-cidade remete para a oposição entre mulher sã, mulher fatal e finalmente para oposição vida-morte.

Cesário Verde representou uma ruptura radical com a tradição e valores estilísticos do seu tempo e irá influenciar decisivamente a Literatura nacional do séc.XX, podendo ser apresen-tado como percursor de movimentos tao díspares como o Modernismo ou o Neo-realismo.

A poesia de Cesário Verde tem uma frescura de intensidades quente e uma limpidez de sensibilidades humanista. Trata-se de um grande poeta, infelizmente tão pouco lido hoje. E felizes os que se vão, amén.

19.4.06

Bizarrias










Ora aqui partilho convosco imagens que me alegram e me restauram o espírito. E até depois do 25. Tenho uma festinha algures na Tasmânia que reclama por mim.

Thanks Donald


Obrigado Pato. Neste Mundo absurdo em que vivemos já me safaste de muitas situações filhas da puta. "Vi! Vi! Vi as múmias sentadas em seus ataúdes comendo sanduiches!"

18.4.06

Pecado, disse ela


Como sabem, aqui somos tudo menos católicos, o que não quer dizer que não tenhamos interesses do foro religioso. Nem sempre, é certo, mas por vezes me interrogo sobre essas matérias da criação, de Deus e sobretudo de Nossa Senhora. Talvez por ser mulher e uma das mais famosas de sempre.
Posso dizer-vos, sem que caiam os parentes na lama, que sou um pouco inculta em relação à Igreja Católica, aos Mistérios de Cristo e tudo o mais. Também, quem tem paciência para ler a Bíblia de uma ponta à outra? Por isso, vos deixo duas perguntas, duas dúvidas, quem sabe me possam elucidar.
Algures no Livro, penso eu, se diz que Jesus foi concebido sem pecado. Ora, que quer isso dizer? Os escritores estão afirmando que o sexo é um pecado? Ou é outra coisa?
A segunda pergunta tem que ver com José. Se José não é pai de Jesus, isso quer dizer que ele é corno? Ele já era casado com Maria aquando da imaculada concepção, ou só casou depois, não sendo assim corno mas antes padrasto? Duas dúvidas que não me atormentam mas que gostaria de ver resolvidas...

Chispalhada d'Absinto


O meu cérebro está feito em postas de carne de porco congelada com um travo a absinto gelado e uma suave fragância a cravo da Índia. Como podem ver, na ressaca da Páscoa, não há mesmo qualquer hipótese de me tornar violento. Nenhuma.

Fotografia de Nik Ainley