26.2.09

Ariel - Parte VIII (revisão)


Sentei-me ao volante do R6, recostei-me no assento, confortável, quente, e regozijei-me com a peculiar sensação que estar ao volante de um carro novinho em folha transmite. À minha volta, tudo brilhava e reluzia e a panóplia de botões luminosos, cujo desígnio não compreendia, quase me ofuscava. Lancei um olhar fugaz para o banco de trás, para a ruiva, pelo espelho retrovisor. Ela lá estava, sentada direita, a perna cruzada, e com um ar aborrecido, preocupado, não sei, era difícil ler-lhe as linhas do rosto, porém, ao mesmo tempo, absorta nos seus próprios pensamentos. O que poderia absorver daquele modo a atenção dela? Ao meu lado, lá fora, o R6 tossia e rangia; ouvi a voz do Lúcio: «Como é, vamos?»

Tentei pôr os pensamentos em ordem e a injecção de adrenalina que o meu corpo me administrou, por estar agora a preparar-me para me fazer à estrada, ainda por cima num carro que não era meu, ainda por cima num carro que não podia lixar, ainda por cima o carro novo do Lúcio, prenda do papá, tratou de simplificar o processo, embora não o resolvesse na totalidade, deixando-me num estado
sébrio. Olhei para o rosto do Lúcio, que denotava uma certa ansiedade, pus o pisca e pisei o acelerador com jeitinho, arrancando lenta, suavemente, não sem uma ponta de apreensão. Atrás de mim, o R7 arrastava-se, tonitruante, pesado, sobre o asfalto negro e duro, frio de orvalho. O R6 deslizava firme e seguro pela A5, rumo a Cascais, e eu ia atrás do volante, apertando-o com os dedos, conduzindo com uma atenção redobrada, mas inflacionada pelo álcool, quando senti uma mão cair, num toque suave e delicado, no meu ombro. «Pareces nervoso, querido, não gostas de conduzir?» Era a primeira vez que ouvia a voz dela sem ser no bar, entre o delírio do álcool e a promessa de dinheiro e diversão. Os meus músculos contraíram-se. Ela sentiu-o. «Não, não é isso, apenas... já tive más experiências a conduzir com os copos. Não que não esteja em condições, mas… prefiro evitar surpresas.» Olhei pelo retrovisor e os nossos olhos cruzaram-se no espelho. Ela sorria, mas era um sorriso imperscrutável, que não reflectia o que lhe ia pela cabeça, não da forma como o retrovisor reflectia o verde dos olhos dela, que ela encobriu rapidamente com um lento cerrar de pálpebras, enclausurando-se numa estranha compenetração. Continuámos a viagem, eu e ela em silêncio, um pesado incómodo parecia preencher todo o espaço do carro, espraiando-se até aos recantos mais inacessíveis. Resolvi ligar o rádio e pressionei o botão, o ar condicionado começou a gelar ainda mais o ambiente, desliguei-o e carreguei noutra luzinha que, dessa feita, ligou os estofos, desliguei-os, quando, sem aviso, a mão branca dela cortou o ar e, com um dedo seguro e certeiro, ligou o rádio, «é este», o seu corpo chegado à frente, entre os bancos, a face dela agora colada à minha. Apanhado de surpresa, deixei o volante fugir, mas recuperei o controlo com destreza, os pneus deixando escapar apenas um breve silvo. Olhei pelo retrovisor, apenas para me certificar de que o Lúcio ainda aí vinha. Os faróis do carro de trás continuavam fixos em nós, lançando uma luz inquisitiva. Ela voltou a aproximar-se, sussurrante e magnética, «sabes, não tens de estar tão tenso, eu não mordo.» Recriminei-me pelo meu comportamento imberbe. Lembrava aqueles cães que correm atrás das bicicletas: agora que tinha apanhado uma, não sabia o que fazer com ela. «Não sou bem o que esperavas, é?» A pergunta dela quebrou o silêncio cujo único oponente era o rumorejar das vozes do rádio (sr. Ministro, que tem a dizer quanto aos boatos sobre uma eventual fuga de informação na PJ?), mas percebi que era mais uma provocação, que não esperava obter uma resposta. «Não sei, esperava algo, mas não sei bem o quê.» «Deu para perceber, no bar, que não estás habituado a lidar com putas.» Retorquiu, sem perder tempo, cortante. Não houve qualquer pausa no discurso dela, nem mesmo na menção da palavra «puta», título que se conferiu. Tinha razão, é verdade, mas não deixou de me surpreender o à-vontade da admissão dela. Não parecia existir vergonha, nem tão pouco auto-recriminação. Para alguém tão jovem, sensivelmente da minha idade, falar com tanta facilidade da sua condição, quando era óbvio, até para mim, que ela não andava nestas lides assim há tanto tempo como isso... (Posso asseverar-lhe que não existe qualquer fuga de…) «Tens razão, não estou», respondi num traquejo mecânico, recuperando o sangue frio, «mas a esperar algo, tu não eras, de certeza.» Ela abriu muito os olhos para o retrovisor, permitindo que o verde transbordasse para o meu olhar. Parecia espantada com o comentário, mas logo a expressão se tornou inescrutável. Continuei. «Não te pareces encaixar.» Não argumentou. «Nem com o bar, nem com a tua roupa, dás a sensação de que estás tão habituada como eu a lidar com putas.» «Sabes, não sei se essa é a conversa certa para me levares para a cama.» Ri com agrado e surpresa face à prontidão da resposta dela, que não vinha sem uma pitada de humor ácido. Mirei-a pelo retrovisor e, pela primeira vez, vi desenhar-se-lhe no rosto um sorriso descontraído e sincero, decorado por dentes brancos e perfeitos. «Foi por isso que gostei de ti.» «Porque não sei conversar?» «Porque não me trataste à cabeça como uma puta, como o teu amigo.» «Percebo…» Retorqui, secamente. Era uma mulher estranha, parecia não ter pruridos em falar de si como puta, mas revelava-se ofendida pela forma como o Lúcio a tratara. Voltou a soerguer-se do banco de trás e a colar o rosto ao meu, espiei-a pelo rabo do olho, enquanto me sussurrava ao ouvido. «Achas que a tua namorada vai gostar de saber que andas com mulheres como eu no banco de trás?» Senti a pele do pescoço arrepiar-se ao sentir a voz quente penetrar-me o ouvido e o perfume doce insinuar-se pelas minhas narinas, o que só acentuava o delírio alcoólico em que ambos nos encontrávamos. Virei o pescoço para encará-la de frente. «Bem, no que me diz respeito, ainda não aconteceu nada merecedor de reprovação, pois não?» Retorqui no mesmo tom cáustico que ela empregara. Os nossos rostos estavam quase colados um no outro e mergulhei nas profundezas daquele verde que me atraía para um poço sem fundo, para o qual ia voluntariamente, sem desejo de resistir. Ela envolvia-me num olhar de lábios imóveis, lábios que pressentia suaves e dos quais me aproximava, lentamente, quase sem dar por isso. Os seus lábios roçaram os meus e então…

«Hel?» «Sim?» «É melhor voltares a pôr os olhos na estrada.» Voltei a mim e ouvi o som característico dos pneus a pisar a berma da auto-estrada. Quebrando o encanto, voltei à tarefa de conduzir. Mais um pouco e teria de explicar ao Lúcio porque motivo tinha lançado o seu precioso R6 contra os rails. Ela voltou a recostar-se no banco de trás. No rádio, o ministro continuava a esquivar-se das estocadas da jornalista. «Por que não a convidaste? Seria muito mais divertido a quatro!» Riu com vontade e no seu riso transparecia a quantidade de álcool que ingerira. Ri com ela. Parecia empenhada
em provocar-me. Deixei-me levar na onda. «Hm, não sei se esta será a ideia dela de um tempo bem passado. A propósito, posso saber como te chamas?» «E porque queres saber como me chamo? O mais provável é que, amanhã, não te lembres.» «Bem, amanhã, não sei, mas posso prometer-te que, pelo menos, até ao fim de hoje, saberei como te tratar.» «E tu? Porquê Hel?» «E porque não?»

Atrás de mim, o Lúcio fazia sinais de luzes e tinha o pisca ligado. Parecia querer parar na estação de serviço que se aproximava. Fiz-lhe sinal com a mão de que entendera a mensagem e pus também o pisca. Entrei na estação de serviço e estacionei. «Ariel.» Respondeu, por fim.