2.7.08

A Madalena...

Finalmente, acredito em Proust. Sim, também eu, como Marcel, comi a Madalena, sim, também eu, eu também, traguei a Madalena até ao tutano, até à última migalha.
Só que, no meu caso, foi quando fui mijar ao quarto de banho e o meu olhar recaiu sobre o criado-mudo. Tantas coisas de que me lembrei quando o vi.
Recordei o dia em que chegaste a esta casa, o dia em que me levaste ao IKEA e eu não gostei desse outro-criado-mudo que por lá vimos, quase como se fosse uma Madalena defeituosa e to neguei, peremptório, argumentando que era um criado-mudo «foleiro».
Depois, pegaste em mim num dia de ressaca, arrastaste-me a um centro comercial e ele lá estava - o nosso criado-mudo que agora ornamenta a casa de banho, servindo à descrição aos passantes e aos da casa toalhas de mão, outras de banho e rolos de papel ao Francis.
Senti-a, a Madalena ou o criado-mudo, agora mesmo ao despejar o autoclismo, a sensação de que ele, para além de pertencer ao espaço onde se encontra, pertence a ti e a mim e a nós os dois - faz parte da nossa história em comum; é como a madalena de Marcel, mexe comigo não porque me faça pensar numa tia distante, mas sim porque me recorda de ti. Bem haja para nós e continuemos.
Quanto aos putativos leitores, embrulhem, vão ao corpus, que lá encontrarão, sem margem para dúvidas a definição: naõ só de madalena como também e acima de tudo a de criado-mudo.