7.12.06

Memórias dum emigrante - II

"Querida Maria

Fez ontem sete meses que trocámos à minha chegada ao aeroporto de Pedras Rubras as nossas últimas palavras e ontem como hoje elas ecoam na minha cabeça de uma forma que me assusta e ao mesmo tempo me deixa perplexo com a minha própria estupidez.

Estou a escrever-te não com o propósito de te magoar, de fazer com que te afastes ainda mais de mim, mas apenas porque tenho de te dizer o quanto estou arrependido do que fiz, das coisas que disse, das decisões idiotas, sem tino, sem qualquer nexo, que tomei em relação a nós os dois. E se não queres acreditar o melhor é fingires que não me viste que sou gajo para me passar de vez e dar-te uma lição que nunca mais iremos esquecer.

É-me difícil descrever-te como estou e a falta terrível que sinto de ti. Passo os dias a lutar com esse sentimento, oscilo entre momentos de claridade, outros de trevas, como este, outros ainda de normalidade, em que consigo fazer alguma coisa de útil, e outros em que não sinto qualquer interesse pelo que me possa suceder, pela vida que nos rodeia, por mim próprio.

No bar onde encontrei emprego e onde todos me acarinham, nem sei bem porquê, comentam que sou estranho, que há algo em mim que não bate certo, apesar de dizerem também que sou um dos melhores barmen que alguma vez ali viram trabalhar. Sei que o fazem quando estou de costas e julgam que não os estou a ouvir, mas, como sabes, os anos de tarimba que levo atrás de mim tornaram-me extremamente susceptível às bocas de colegas.

O que dizem é e não é verdade.

Ao princípio, tudo parecia lógico e fazer todo o sentido. Mas agora não. Não faz sentido algum e embora veja claramente o erro que cometi, não o consigo perceber, nem explicá-lo.

Como fui capaz de desprezar o teu amor, o teu carinho, a tua amizade, não o percebo. Como fui capaz de te magoar da forma como o fiz, também não. Não sei o que se passou.

Ao olhar para trás, parece que os últimos tempos antes do meu regresso do estrangeiro nada mais foram do que um estágio, uma espécie de uma preparação de um tipo que quer cometer o suicídio sem saber que o deseja e agora se arrepende de o ter planeado de uma forma tão exaustiva e racional.

O Robert é que tinha razão: "Robino, you got to keep your cool. Right now you're boiling and if you keep going like that you're gonna blow. Keep you're cool don't forget there are loads of women but just enough cash". Escutei o Robert e ainda o escuto e penso que o Robert tendo sido o melhor chefe que tive durante todos estes anos era também o mais imbecil.

Não posso imaginar o que passaste só em Portugal, mas não podes imaginar igualmente o que passei lá, sobretudo neste último Inverno de frio, nevoeiro, neve, chuva. Agora, tenho a certeza disso, cometi um dos maiores erros da minha vida, senão mesmo o maior.

A única coisa que desejo é ter-te nos braços, beijar o teu sorriso, aninhada no meu peito de tigre, como costumavas dizer, juntos, em harmonia. Dar-te beijos. Muitos beijos, fazer-te brilhar de novo, brincarmos juntos como dois preguiças.

Não sei bem o que possa fazer para te conquistar outra vez. Por um lado, tudo parece perdido, mas a dor que sinto impele-me a tentar e tentar de novo. Quero-te e tu dizes que já não me queres.

Os momentos que passámos juntos, revejo-os com maior nitidez do que nunca. Passo horas a fio a olhar para fotografias tuas, a estudar cada gesto teu, cada trejeito, cada momice, cada sorriso. Não te consigo esquecer Maria.

Estou arrependido. Não imaginas como estou arrependido. Sinto a tua falta como se me faltasse parte de mim. Sinto-me amputado, sinto-me incompleto, destruído. Sinto uma dor quase física ao não te ter por perto e ao sentir que não te voltarei a ter. Quero abraçar-te, Quero ter-te comigo, quero ficar contigo para sempre.

Quero dizer-te coisas lindas, quero consertar a asneira que fiz, quero que me voltes a amar, quero fazer com que sejamos felizes. Já te esqueceste do nosso sonho?

Peço-te só uma oportunidade. Juro-te que sou sincero. Preciso de ti ao meu lado. Sem ti as economias que fiz e que ainda continuo a fazer nada mais são do que papéis desvalorizados e sem qualquer sentido.

Dá-me só mais uma hipótese, imploro-te. Por favor, diz-me qualquer coisa, o que for, dá-me um sinal de que ainda posso sonhar, de que ainda posso ter esperança, de que há ainda a possibilidade de um futuro para nós.

Júlio."

Aqui, Memórias dum Emigrante - I.