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3.3.09

A morte de Miguel



Quando o Marco chegou à terra tudo se transformou radicalmente e julgo agora que teria sido, por muito que o desejássemos, impossível voltar atrás.

O Marco era madeirense, havia sido guarda-redes de andebol do Marítimo, sabia vestir, tinha estilo, e, acima de tudo, sabia falar com as miúdas, todo ele era relações públicas.

Foi nessa altura que conhecemos a Tininha, a São, a Luísa, a Susana Mamalhuda, a outra Susana, a do Ruca e, com o Ruca, conhecemos também o Gonçalo, o Gonçalo filho do médico e o Miguel, o filho do engenheiro milionário.

Naqueles anos loucos, a Isabel Alpendre passara a ser uma «caveira» do passado (mal sabiamos nós quão profético se revelaria essa alcunha), a Manuela que o Tosh desencantara no 7º B tinha pêlos a mais nos sovacos, ela própria se descrevia «muito peludinha», e nós, porque achávamos tudo isso vagamente idiota, continuávamos a gostar de fazer corridas de bicicleta, até Setúbal e de volta, embora já gostássemos de miúdas e nas descidas posássemos para a fotogradia imaginária que nunca nenhum de nós se lembrou de realmente registar.

Era o verão de 1982 e fomos «penetrar» discotecas, claro, à má fila e como quem não quer a coisa, de gravata do pai roubada no pescoço e blazer a mais escondido nas meias das calças, lá conseguíamos entrar, uma vez por outra. Ao mesmo tempo, o campeonato mundial de futebol desenrolava-se em Espanha, eu tinha televisão, o Tosh também e o Vanela acompanhava conosco. Era verão e entre o futebol e as férias, tínhamos muito, muito em que pensar.

Elas eram todas giras. A Susana mamalhuda era vizinha do Vanela, morava por cima, em frente ao imbecil do Tó Zé, o parvo que namorava com a miúda mais linda desse, deste e doutro mundo qualquer, a Marina. A selvagem e bela Marina. Por isso, como ele também andava ocupado com as suas preocupações de rapaz de 18 anos, não havia azar, o Tó Zé também tinha mais com que se entreter.

Já a Susana Mamalhuda, a líder delas, era alta, bem mais alta do que eu, só o Ruca media tanto como ela, mas ninguém se intimidava com elas todas juntas, A Susana do Ruca era bela, a Tininha não tinha mamas e a São queria deitar-se; para nós e acho que para elas, tudo era simples, repleto de mistério: a idade da descoberta.

A morte de Miguel



Com o tempo a Isabel passou a fazer parte do quotidiano. Como os pneus furados da bicla do Tosh. E a música do irmão dele. Como o São João e as fogueiras e as corridas pela terra do Pão que hoje é um deserto de caixotes de betão e ferro. Dávamos longos passeios de bicicleta, saindo da quinta dos meus velhos, via volta da pedra, pinhal novo, até Setúbal e de volta a Palmela pela estrada da cobra, chegar à praça central e derrapar a fingir que era para os velhos com a perna na gravilha rasgar a carne, mesmo que a bicla fosse com os porcos, só para a impressionar, era só ela, não gemer quando os amigos chegavam ou se os velhos se levantavam, arrancar de novo e ir para casa dormir e sonhar com ela. Até hoje, juro, nunca mais consegui controlar os meus sonhos como os controlava nessa época.

27.2.09

A morte de Miguel



Erámos inseparáveis. Do primeiro ano do ciclo até ao décimo segundo, ninguém fazia farinha conosco.Em primeiros, havia o Tosh, pitecantropo para os íntimos, macaco para os outros, que um dia caiu no poço dum elevador em construção e quase morrera. Mas safara-se e fazia parte do núcleo duro.

Em segundos, O Vanela, assim apelidado por ter nascido na venezuela e porque entre nito e vanela era mais fácil ser amigo. Em terceiros, eu mesmo, puto, curioso, otário, nascido em Moçambique.

Foi um encontro de mentes. Erámos todos bons alunos. O Tosh tratava a matemática por tu, o Vanela era craque em línguas e eu dava uns toques em educação musical e trabalhos manuais. Vivemos a adolescencia em grande. Fomos dos primeiros a brincar com a linguagem basic e os jogos do zx spectrum.

Então apareceu a Isabel. Acho ainda hoje que todos os da turma estavam apaixonados pela Isabel e nós os três ainda mais, embora fingíssemos, ao som dos dire straits do irmão mais velho do Tosh, nada disso nos dizer respeito, até porque nessa altura as miúdas não nos interessavam.

O pai do Tosh trouxera para casa um Sinclair 1000, um dos primeiros modelos de computador pessoal a surgir no país e, pouco depois, todos nós nos tínhamos vidrado na tecnologia moderna.