20.1.09

Falácia



Neste último conflito a «auto-defesa» imerge como a maior verdade conceptual de todas e como sinal dos tempos. É certo que, na génese do Estado de Israel e na psique dos seus fundadores, na sua grande maioria sobreviventes do extermínio nazi, estava uma arreigada convicção de que viviam sob permanente ameaça, ou não fossem eles e elas testemunhas vivas da barbárie humana em todo o seu horror levada a cabo por Hitler e seus sequazes.

No estertor da solução final e na libertação da Europa do jugo nazi, quando estas massas de judeus que haviam sobrevivido ao Holocausto começaram a afluir à Palestina, finalmente tornando realidade a tese sionista do regresso à terra santa, a tese que desde o século XIX pregava a necessidade do estabelecimento dum Estado Judaico a constituir algures na Galileia, elas precisaram de terra e de água para se estabelecer e sobreviver.

A princípio, tudo corria bem, compravam essa terra e organizavam-se em kibutzses mas, com o passar do tempo e o afluir de cada vez mais judeus à região, foi preciso «adquirir» mais terra e mais água, bens escassos na zona, sobretudo a água.

Os que lá estavam não viram com bons olhos as técnicas cada vez mais perturbantes da «aquisição» de terras e tornaram-se violentos. Israel defendeu-se com as tácticas pouco ortodoxas do Haganah («Defesa») e do Irgun («Defesa B», claro) e prevaleceu.

Enquanto isso, diversas nações árabes, no contexto da Guerra Fria e com o apoio militar da União Soviética e seus satélites, tentam varrer Israel do mapa e são sucessivamente derrotas pelas IDF (Forças de Defesa de Israel, pois claro), assistidas pelos EUA, em guerras relâmpago que entusiasmam o Ocidente e, paradoxalmente, seduzem as Esquerdas europeias, embaladas na mensagem poética do conceito de kibutz, para a causa Israelita.

Com as importações de mais judeus da Rússia e da Etiópia foi preciso cada vez mais terra e mais água e Israel continuou a defender-se dos locais, os árabes que viviam na Palestina e que se viam confinados à terra menos fértil e a condições de vida inferiores às dos vizinhos.

A situação foi-se degradando com a criação de colonatos judaicos e com a expansão do Estado de Israel; as sucessivas guerras defensivas encetadas para proteger essa expansão ao arrepio do Direito Internacional haviam empurrado os autóctones para o mar, onde a maioria vivia em campos de refugiados. Este povo, apátrida na sua própria terra, desenvolvera um sentimento nacional que cristalizara na criação da OLP.

A OLP iria levar a guerra ao coração emocional do inimigo, por vezes de forma infame como no atentado Olímpico de Munique em 1972, outras de maneira heróica, como na Primeira Intifada (Guerra das Pedras), mas de qualquer forma longe dos padrões de guerra subversiva que viriam a ser estabelecidos pelo 11 de Setembro de 2001.

Por fim, em 1993 Yasser Arafat e Yitzhak Rabin, dois líderes notáveis, baixam a guarda e assinam os Acordos de Oslo. No entanto, o assassinato de Rabin às mãos dum radical judeu fere de morte o processo de paz e a situação degrada-se ainda mais, com a criação de cada vez mais colonatos em zonas nominalmente e de facto palestinianas.

Recorrendo à política dividir para reinar, Israel defende-se da Autoridade Palestiniana entretanto criada e que perdia o controlo sobre os próprios militantes mais radicais, instigando, ironicamente, a criação do Hamas, com o intuito de minar definitivamente a base de poder de Arafat. Com a sua autoridade a esvair-se Arafat morre, finalmente, um homem só.

No vazio de poder provocado pela morte de Arafat o Hamas, apoiado pelo Irão e com a cumplicidade da Síria e do Egipto, estabelece uma eficaz rede de segurança social gratuita e rapidamente se afirma como liderança alternativa aos olhos do povo palestiniano nos territórios do sul.

Enquanto isso se desenrola, Ariel Sharon retira de Gaza, a grande custo, os oito mil colonos que para lá se tinham começado a instalar e inicia a construção dum muro, de facto estabelecendo o limite fronteiriço de Israel, ou pelo menos assim o julgaria, antes de sofrer uma trombose em 2005.

A ascensão ao poder do Hamas na Autoridade Palestiniana é confirmada em eleições livres realizadas em Janeiro de 2006. Essa ascensão não é reconhecida nem por Israel nem pelo Ocidente, assustados com o radicalismo religioso do movimento, bem como pela sua declaração de princípio que nega a existência do Estado de Israel e lançam-se as bases dum embargo militar e económico internacional.

Segue-se uma guerra civil nos territórios palestinianos, entre os radicais recém-eleitos e a Fatah de Mahmoud Abbas. Em Gaza, os radicais assumem efectivamente o poder e começam uma campanha de lançamento de mísseis para lá do muro; estes quase ninguém matam mas, potenciado pelos media israelitas, o efeito psicológico das sirenes e da corrida para os abrigos é tremendo.

Em 2006 dá-se a II Guerra do Líbano, uma expedição defensiva a norte de fins limitados, ao contrário da I Guerra do Líbano, com o intuito de neutralizar outro movimento extremista, o Hezhbolah, que rapidamente se transforma num aparente desastre de relações públicas, embora pareça ter atingido os seus fins operacionais (desde então o Hezhbolah, salvo raras excepções, absteu-se de lançar mísseis sobre a fronteira norte de Israel).

Então, Israel vira as suas atenções para o flanco sul. À medida que as Forças de Defesa Israelita se treinam em maquetas de aglomerados urbanos similares aos de Gaza e se aperta o bloqueio, sucedem-se os incidentes fronteiriços.

Finalmente, munido dum casus belli coerente i.e., «o direito à auto-defesa», aproveitando o calendário da transição de poder nos EUA e com o apoio popular da generalidade da nação judaica, Israel inicia uma brutal expedição defensiva em Gaza, mais uma vez de fins limitados, mas desta feita empregando, ao contrário do que sucedera na II Guerra do Líbano, recursos militares aparentemente adequados à tarefa.

Contudo, parafraseando os defensores da causa israelita contra si próprios, «será que o direito à existência de uma nação [a palestiniana do Hamas, de acordo com as mesmas fontes] implica o aniquilamento de outra? [a israelita, presume-se, vítima do princípio de intenções do Hamas]».

Depende, digo eu. depende dos objectivos daquilo que se pretende, o sonho da Grande Israel? Ou por outra, até onde vai o direito à «auto-defesa» quando temos o terceiro ou quarto exército mais eficaz e mortal do mundo e o podemos utilizar sempre que ajuizámos acertado sem que ninguém se atreva a meter connosco?

17.1.09

Ariel - XV


A casa ardia no andar de cima, a loira e o sabugo que espancara Ariel precipitaram-se para dentro da porta e logo a seguir ouvi tiros, uma fuzilaria tremenda, era o inferno de Dante a dobrar, aqueles doidos estavam a matar-se uns aos outros lá dentro e no andar de cima só chamas, chamas já no telhado. Levantei-me e gemendo enfiei o indicador no botão da bagageira. Não estava trancada e levantou-se, abrindo-se sem esforço. Agora era preciso método, rápido, puxar o tapete, puxar o tapete, lá estavam os documentos, lá estava o telemóvel! Desligado, pois claro, ligar o telemóvel, é preciso método, não sentia o braço, amarrar o braço ao corpo com uma toalha que tinha na bagageira, ai, já está, método, ligar o telemóvel, merda, não tem bateria!
Que fazer agora? As chamas alastravam rapidamente, todo o andar de cima ardia. Tão rápido como começara o tiroteio parara, só se ouviam as chamas a crepitar e de repente um, dois homens saíram disparados a correr da casa, caramba, o da frente era o barman do 23, era o matulão do 23 que vira a falar com a puta da Telma, o de trás não sabia, os dois corriam na minha direcção e mergulhei outra vez no chão, foda-se, estava a tornar-se um hábito, ai o braço, a tempo de os ver pelo canto do olho espavoridos a entrarem no carro estacionado à frente do R6, um chiar de pneus, o portão a abrir-se, o carro deles, grande, feio, a derrapar e a desaparecer, o portão a fechar-se na traseira do carro, era automático, só podia, o fumo por toda a parte, só se ouvia o crepitar das chamas e sem saber como corri para a frente, aterrei junto da moça, à porta da casa, não se ouvia mais nada, só o fogo, e ela abriu os olhos a custo, as pálpebras todas amachucadas…
Lúcio?.. O Lúcio veio?.. Desculpe, desculpe Lúcio… Calma miúda, calma, vou safar-te daqui, vou safar-te daqui, disse-lhe com uma doçura que até a mim me espantou, afaguei-lhe o rosto pisado, céus, que estupidez, como era lindo o cabelo dela, sustive a sua cabeça no meu colo, que quadro ridículo o nosso, ela toda partida, eu com o braço amarrado com uma toalha ao corpo, a acariciar-lhe o cabelo com a mão livre e ela desculpe Lúcio, desculpe e eu chiu bebé, chiu, tem calma, o tio Lúcio vai safar-te, vais ver, um sorriso triste no seu rosto e então fechou os olhos e desmaiou.
Encostei o ouvido ao seu nariz e senti que a miúda ainda respirava, Ariel ou Maria, coitada, estava em muito mau estado e ainda assim a pedir desculpas! Mas ia sobreviver, tinha de sobreviver. Levei a mão ao bolso do casaco, saquei da garrafa de uísque que trouxera do R7, desarrolhei-a, abri-lhe a boca, tapei-lhe o nariz e despejei uma boa porção, certificando-me de que engolia, engasgou-se e tossiu com a bebida, mas conseguira trazê-la de volta. Lúcio, o Lúcio veio… Calma bebé, calma, aguentas-te?.. Sim, aguento… O microfilme, ainda tem o microfilme? Despi o casaco e com este improvisei um travesseiro. Chiu miúda, chiu, aguenta mais um pouco, o tio Lúcio já vem, vais para o hospital querida, espera.
O microfilme, o microfilme que pus na sua mala, ainda o tem?.. Pisquei o olho e sorri-lhe, não fazia patavina do que ela estava a dizer. Sim, tenho, descansa, e ela sorriu-me de volta e fechou os olhos, gemendo. Ergui-me. Eram só labaredas dentro da casa, estava mesmo à porta, tinha que a tirar dali mas, antes, tinha de ir até dentro da casa, ver o que se passava naquele inferno, ver ser ainda podia salvar o Hel e apesar dum súbito arrepio de medo avancei na mesma, o Hel de certeza que estava ali e tinha de o encontrar, com fogo ou sem fogo. Decidi-me, entrei para dentro da casa, tropecei e caí mais uma vez, porra, mesmo em cima do braço! Esqueci o braço porque caíra para cima de Telma, estava de olhos abertos, esbugalhados, só que tinha um buraquinho na cabeça e dele escorria um fio de sangue, parecia espantada, estava espantada pela morte, pois é, o pesadelo nunca mais acabava, era só fumo, tossi, puxei a ponta da toalha a tapar a boca e o nariz, ergui-me, fumo por toda a parte, caminhei às cegas e dei comigo enrodilhado num par de pernas, era o gajo, o porco que quase matara a Ariel-Maria, cheio de sangue, a balbuciar salve-me, salve-me, cabrão. Não pensei duas vez e despejei-lhe pontapés no rosto ate se calar, tossia por todos os lados estive quase para desistir, os pulmões ardiam-me virei costas e aí ouvi uma voz fraca e débil, a chamar, uma voz que conhecia bem, Lúcio, Lúcio, aqui, Lúcio! Virei-me e lá estava ele, deitado no chão e avancei mais um passo, dois, três, era o Hel.
Não consigo mexer-me Lúcio, tossiu, fumo, cada vez mais fumo, não consigo, vou puxar-te pá, tem calma, anda, sobe para as minhas costas, anda, vá, tossimos os dois, anda, vamos, merda, anda, anda e ele sobe para as minhas costas, o meu braço está arder, vou contornando o inferno de corpos e fugindo das chamas com o Hel às minhas costas até cair junto de corpo de Ariel com os pulmões desesperados a sugar pelo ar fresco da manhã.
Rolei para o lado, puxei-o para mim e perguntei-lhe, tossindo, ofegante: Hel, estás bem? Hel? E el tossia também, desesperado por ar puro. O calor aproximava-se, um calor infernal, ainda não estamos safos, não isto vai tudo desabar, ainda não estamos safos.
A minha perna Lúcio, a minha perna… Calma, levanto-me de novo, arrasto-o para a frente, para longe das chamas e ele a gritar. Já volto, calma! Regresso, puxo por Ariel, deposito-a junto do Hel e caio de joelhos. Ela está bem, Lúcio?.. Calma miúdo, sim, vamos a ver essa perna primeiro. Tem uma mancha de sangue na perna esquerda, junto ao joelho. Foderam-te a rótula pá, mas estás com sorte, se fosse na artéria femoral… Ele ri e tosse, também está num lindo estado e então, por sua vez, desmaia. Num estrépito tremendo sinto a casa ruir por completo, pasto das chamas e do fumo e ao longe ouço sirenes, sim, sirenes, já não era sem tempo.
Respiro fundo, saco da garrafa e deito-a abaixo numa só golada. O fogo está a extinguir-se por si próprio, estamos safos. Os meus meninos dormem, um ao lado do outro, nem sei o que parecem. Estou preocupado com o Hel, a mancha de sangue alastra no joelho da calça. As sirenes estão cada vez mais perto até que sinto carros e vozes do lado de lá do portão. Eles arrombam o portão, vou até lá, certifica-me de que é mesmo a cavalaria. De repente o portão cai e um bombeiro acerca-se de de mim, o senhor está bem, está bem? Digo que sim e aponto com a mão livre para os corpos da ruiva e do Hel, peço por uma ambulância, trouxeram ambulância? Quase que a adivinhar o meu pensamento um carro do INEM entra no pátio a alta velocidade seguido duma viatura da polícia. Ora até que enfim que chegaram, grito para o bófia que corre para mim, Quem é o senhor, como é que isto aconteceu, está ferido? Chamo-me Lúcio Ferro, senhor agente, bato a pala com a mão livre, sou do gabinete da secretária de Estado da Administração Interna, o que os demorou? E ele desconcertado, chama por um médico, preciso de um médico aqui, este está a delirar. Entra mais um carro dos bombeiros e mais uma ambulância. O Hel e a ruiva estão a ser enfiados em macas, pergunto para a médica que se ocupa do meu braço se vão safar-se, ela diz-me para ter calma (que piada), diz-me que tem de pôr um colar cervical e eu desato à gargalhada até mais não e então a médica começa a esbater-se, sinto-me liberto, tenho uma médica do INEM bem gostosa toda de volta de mim, apetece-me apalpá-la mas já não tenho mais forças, acabou-se, deixo que me deitem numa maca e resvalo por meu turno para o reino da inconsciência.

Ariel- Parte XIV


Era agora! Ariel estava morta, estava morta e não havia nada que pudesse fazer quanto a isso, para a salvar… Refiz-me do choque. Transpirando por todos os poros, decidi que ia dobrar a esquina, apontar a arma e mater aqueles dois canalhas. P’ró diabo se me ouvissem! Tomariam do mesmo remédio. Segurei a coronha da arma até os nós dos dedos ficarem brancos. Que fazia eu com uma arma na mão!? Eu!, que nem tropa fizera! Não passava de um tipo pacato, para quem as armas nem sentido faziam. Fechei os olhos com força e voltei a abri-los. Concentrei-me. Podia ser pacato, mas isso não fazia de mim otário. Era eu ou eles, matar ou morrer. Vi o filme todo correr na minha cabeça, uma, duas, três vezes, contei até três, respirei fundo e...! «FOGO! Chefe, a casa está a arder!» Pelas minhas costas, vindos da outra divisão, dois dos outros gorilas vinham em direcção ao corredor, alarmados. Pedro e a loira, surpreendidos pelo aviso do capanga, começaram a avançar em passo estugado na minha direcção. Se não tomasse depressa uma decisão, estava lixado. Seria encurralado!

Ariel - Parte XIII


- Não me torres a paciência! Se preciso de ti, é porque me serves muito bem como amante do ministro. Mas não penses que és insubstituível. Arranjo uma vadia capaz de fazer o mesmo trabalho que tu, num piscar de olhos. – Sorriu, maldoso, e aproximou o seu rosto do meu. Senti o seu hálito acre e senti o seu rosto suado. – Se calhar, até melhor. – disse, cáustico, forçando os seus lábios contra os meus.

Largou-me e caí, desamparada, a seus pés, procurando sorver a máxima quantidade de ar que me fosse possível enquanto tossia descontroladamente. O estupor quase me sufocava. Ajeitou o colarinho da gabardina e continuou a falar:

- E mais: esqueces-te de que ela já tinha estado com o Lúcio quando a encontrámos? Às tantas, o microfilme já está na posse dele. Além disso, há ainda o rapaz, no quarto. Mesmo que esta cabra não lhe tenha dito nada sobre o microfilme, ele há-de saber onde pára o Lúcio. Acabarei por lhe arrancar alguma coisa.

Suspirou fundo, tirou um cigarro do bolso de dentro da gabardina, acendeu um fósforo e deu uma longa passa, soltando o fumo lentamente e com o olhar absorto.

- Seja como for, tenho de recuperar o microfilme. Aquela merda contém fotos comprometedoras, documentos, registos de conversas. Tudo obra desta espiazinha nojenta! - cuspiu para o chão. - Era ela que ia fazer chegar o material ao ministro, através do Lúcio, sem este sequer o saber.
- Como? – perguntei, perplexa, levantando-me do chão. Compus o vestido e massajei o pescoço. Já começava a habituar-me aos seus acessos violentos.
- O microfilme seria entregue num envelope contendo um relatório de rotina do Ministério. A minha vida «pessoal» ficaria a descoberto. Seria o meu fim. Cadeia até ao fim dos meus dias. Depois, arranjariam forma de me matar na choldra e enterrar-me-iam juntamente com todos os podres que sei sobre muito peixe graúdo.
- E o miúdo? Onde se encaixa nisto tudo?
- Não se encaixa. Não percebes!? – exclamou, dando toques na testa com o indicador. - É o elemento «imprevisto». Foi apanhado numa história que nada tem a ver com ele. Mas, agora, está enterrado nesta merda até ao pescoço. Não o posso libertar. Se o fizer, vai feder para os lados errados. Depois do interrogatório, livramo-nos dele e do corpo dela. – apontou, desdenhoso, para o corpo inerte da mulher espancada. – Diz ao Torres para trazer o puto.
- E quanto ao Lúcio? Se dizes que nem ele sabe da existência do microfilme, o que te leva a crer que, mesmo que o apanhemos, saberá alguma coisa útil?
- Não sei. – respirou fundo. Passou uma mão pelo cabelo preto, que já revelava alguns fios brancos. – Mas não tenho mais opções. As portas fecham-se, o cerco aperta-se e o carregamento chega dentro de dois dias.

«FOGO! Chefe, a casa está a arder!»

Pedro e eu olhámo-nos nos olhos e, sem trocar uma palavra, avançámos, apressados, em direcção à voz.

Ariel - Parte XII


A corrida desenfreada começara. Aos meus pés, jazia o corpo do homem, inanimado. Atrás de mim, as chamas crepitavam violentamente, consumindo a madeira velha do quarto, onde ainda há instantes estivera cativo com ela, e o fumo insinuava-se, insidioso. Observei por uma fracção de segundo o terrível espectáculo que provocara e comecei a duvidar do meu bom senso. Porém, não era o momento certo. Já estava feito. Agora, era preciso agir, sem demora, já. Agir! Em breve, dariam pelo fogo. Era imperativo encontrar um meio de fuga. Se, pelo menos, conseguisse chegar ao carro... Ok, pensa... Ariel! Tinha de a encontrar antes de fugir. Não podia abandoná-la à sua sorte. Resoluto, comecei a avançar, em passo rápido, por um corredor ladeado por várias portas, sempre atento ao som de vozes ou ao ruído de passos. Não se avistava vivalma. Segurando a coronha da arma com uma força esmagadora, como se esta pudesse, muito simplesmente, fugir, avancei mais uns passos, rompendo o silêncio, e dei com as escadas. Com o coração a agredir-me o peito num ritmo frenético, descompassado, desci os degraus um a um, muito devagar, um… dois… três… sempre os meus passo seguidos pelo típico ranger de madeira velha da casa. Sem dúvida, seria apenas um instante até o fogo reclamar para si a habitação e pôr todos a fugir. Acelerei o passo. Já no rés-do-chão da vivenda, ouvi, vindas de uma porta, à direita, vozes de homem conversando animadamente e rindo. Só podiam ser os outros gorilas, ainda inconscientes do fogo que se alastrava, inexorável, pela casa. À minha frente, o hall de entrada e a porta principal. A saída! Dei um passo em frente, parei, voltei a avançar para a porta, coloquei a mão na maçaneta e estaquei; contive-me e reprimi a minha cobardia. Se fugisse sem sequer procurar por Ariel... Não era nenhum herói, mas... À minha esquerda, havia um corredor, não muito longo, que terminava numa esquina. Lá de cima, da janela do quarto, conseguira ver um pátio de pedra, as traseiras da casa. Este corredor só podia ir lá dar e parecia ser a única parte da casa que faltava investigar. Avancei pelo corredor, na esperança de, no fim, encontrar Ariel, mas detive-me antes de dobrar a esquina, imobilizado pelo som de violentos gritos aterradores e gemidos de dor. «Fala puta, fala! Onde está o porco do Lúcio? Quem é este pirralho com quem te caçámos? Como te chamas, vaca? Fala, despeja tudo antes que dê cabo de ti!» Arrisquei-me a colocar a cabeça de fora. A poucos passos de distância, o sujeito mal-encarado, a quem Ariel chamara Pedro, acabara de transpor a porta das traseiras, que dava para o pátio de pedra, e estava de novo no interior; suava em bica e respirava ofegante, os olhos cintilando num misto de ódio e prazer. A seu lado, encostada à ombreira da porta, de braços cruzados, uma mulher loira observava o triste espectáculo. Reconheci-a! Era a loira com ar aputalhado que se fizera ao Lúcio, no 23, ainda esta noite, que parecia ter já sido há uma eternidade, talvez mais. As coincidências seguiam-se umas às outras. Se estas duas se tinham aproximado de mim e do Lúcio, tal não era apenas pelos nossos lindos olhos e charme pessoal. Era óbvio que queriam algo que eu ou o Lúcio tínhamos. Mas, o quê? Talvez alguma informação? Mas, de novo, o que poderia ser? Eu não passava de um estudantezeco universitário e o Lúcio, apesar do emprego que tinha e das informações com que lidava, bem, esse sempre me dissera que quanto menos soubesse, melhor para ele. Meti ordem no meu raciocínio e abri os ouvidos. Estavam a conversar (o que é um eufemismo). As suas vozes alteradas ressoavam pelo corredor. Só o meu coração e respiração frenéticos se faziam ouvir, ao ponto de temer que isso me denunciasse.

- Mataste-a? – perguntou a loira, estarrecida. - Nem descobriste quem a enviou.
- Hmph! – rosnou Pedro. – Não falou, a puta. – Galgou a entrada num passo e desferiu outro violento pontapé. Voltou a entrar.
- Como planeias recuperar o microfilme? Não a devias ter matado! Devias ter-te controlado e…

Nesse momento, a mão de Pedro rasgou o ar e os seus dedos grossos fecharam-se em torno do pescoço da mulher, apertando lenta, mas implacavelmente, silenciando a interlocutora cujos olhos medrosos e implorantes o encaravam, aterrorizados...

16.1.09

Ariel - XI


«Cala-te puta, cala-te sua puta de merda!» E a Ariel, era a Ariel, a miúda que engraçara com o Hel, novinha, tão novinha para andar metida no ataque, a Ariel de rojo pelo chão, convulsiva, cheia de medo, sentia o medo dela e sentia a força descomunal do gorila a arrastá-la, eu conhecia aquele gajo, tinha a certeza de que o conhecia, não me lembrava era de onde, mas tinha a certeza de que o conhecia, espera, já sabia, aquele gajo topara-o por mais duma vez no Ministério, a entrar e a sair do gabinete da Secção 10 – operações especiais, contra-terrorismo, pentotal de sódio, chantagem, tortura e outros negócios escusos, aquele manfio era bófia, bófia da pesada, sussurrava-se no Ministério à boca pequena das atrocidades da Secção 10 e quase fui abaixo do cipreste só do espanto mas, meio a saltar e meio a escorregar aterrei do lado de lá da vedação, num baque surdo, a uns trinta metros deles, com um dos braços ao contrário, crack, ai, estava, ai, estava, merda, cala-te cabrão, cala-te Lúcio, estes porcos matam-te se te sonham aqui e é se não fizerem pior, estes suínos são da Secção 10, são maus, cuidado, ai, a dor, ai, silêncio Lúcio, ai, tenho o braço partido, de certeza, ai, fecha os olhos rapaz, pensa na tua mãe e cala-te meu grande filho da puta, cala-te e aguenta, ai, aguenta!
Fechei os olhos e aguentei. A dor era lancinante, pavorosa, tive de fazer um esforço sobre-humano para não gritar, para não gemer, enrolei-me todo e de repente não senti mais nada no braço, só um calor do outro mundo. Nem sequer já doía, mas estava a ferver, a ferver como se me tivessem largado fogo ao braço e o calor espalhava-se por todo o corpo. Puxei por todas as energias que me restavam, a adrenalina saltou-me da pele como se uma bomba de hidrogénio e num segundo as pernas semi-ergueram-se e pus-me de cócoras a afagar o meu braço latejante, que inchava, inchava cada vez mais.
«Fala puta, fala! Onde está o porco do Lúcio? Quem é este pirralho com quem te caçámos? Como te chamas, vaca? Fala, despeja tudo antes que dê cabo de ti! Mata-me, mata-me, sou a Ariel, a Ariel de nome profissional, Maria de baptismo e quero lá saber, Lúcio não sei quem é e o outro de quem tu falas é muito mais homem do que tu alguma vez serás, sacana!»
Uma bofetada a zunir no ar. Um grito. Outra bofetada à mão cheia e mais outra e mais outra ainda e pontapés no estômago e gemidos e sangue a escorrer dos lábios para as pedras do chão de granito. Dor, medo, dor.
Eu parado, anestesiado, como num filme negro, só que agora já não era noite e a neblina dissipava-se. Os primeiros raios de sol inundavam o pátio de pedras, de pedras de granito, eu junto à vedação, em cima de pedras de granito, também eu com medo, medo por mim, medo pelo Hel, onde estava o Hel? E medo daquele pulha que estava a dar cabo da ruiva, estava a dar cabo dela, o cobarde, e eu com o braço partido, sem ser capaz de fazer nada, que merda, que merda horrível esta em que me tinha metido.
Tentei fundir-me com o chão. Não ia ser caçado, pelo menos ainda não, tinha de fazer-me invisível, tinha de… Tinha de fugir, tinha de fugir, tinha de fugir para o meu R6, lá estava o R6, claro que o R6 estava mesmo ali, a um minuto, dois minutos a gatinhar, não mais do que isso, tinha de ir até ao R6, tinha de ir ao telefone que estava escondido junto com os documentos, o meu telemóvel estava por baixo do tapete da bagageira do R6, eu a e a minha paranóia do secretismo, louvei-me nesse momento por causa disso, lembrei-me do meu chefe no Ministério, «Lúcio, agora que é quase Natal, deixe-me dizer-lhe que, na nossa profissão, ser engenheiro agrónomo tem mais a ver com esconder coisas do que com plantar couves.» Merda para o Ministério e para o meu chefe, eu e a mania de esconder as coisas que aqueles cabrões do Ministério me haviam ensinado, era só nisso que pensava, no telemóvel escondido junto com os documentos dentro da bagageira do R6 e a dor que se instalara outra vez, mas tinha de ser, tinha de ser, tinha de gatinhar até ao R6 e meti-me ao caminho sem pensar mais no assunto, para grandes males grandes remédios, tinha de ser.
Olhei para trás. A Ariel, a jovem aspirante a puta, estava deitada numa poça de sangue, ao que parecia inconsciente. Era corajosa a miúda. Que enxerto de porrada levava, mas não falara, se bem que pouco tivesse para dizer, pelo menos a meu respeito, não me conhecia de parte alguma. A nuca do cobarde suava, enquanto ele lhe continuava a arrear uns últimos pontapés extraviados, Deus, como suava a nuca do gajo, brilhava contra os primeiros raios de sol da manhã, o cobarde brilhava como se fosse um anjo vingador!
Cheguei ao R6. Parei, exausto, cheio de dores, completamente fodido, não ia conseguir, nada feito, estou morto, chamo-me Lúcio, Lúcio Ferro, sou engenheiro agrónomo de formação, sou um fracassado a todos os níveis, nem sequer consegui casar, fiz-me um bêbado dado a mulheres fáceis e apenas graças aos bons ofícios do meu pai é que arranjei um tacho no Ministério da Administração Interna, oficial de ligação entre o gabinete do secretário de Estado e o do director do SIS, Serviço de Informações de Segurança.
O meu pai é milionário, eu só penso em divertir-me ou fingi-lo e só lido com material altamente classificado para o qual me estou a borrifar, coisas de que ninguém sabe, as tais coisas que assustariam os bons pais de família e fariam urinar os professores se delas alguma vez soubessem, coisas que meteriam medo ao vulgo todo em geral mas que a mim me aborrecem, me aborrecem talvez por ser filho de quem sou e por isso me estou nas tintas para o Ministério e para o meu chefe e mais ainda para as couves e ainda mais para as sementeiras.
Estou a ir-me embora. Estou a ir-me embora. Estou num campo lavrado, estou a deitar sementes à terra. Geometria, gramática, tão bonito, a gramática das plantas.
Mas aquela miúda ruiva ali está a morrer e estou com dores no braço. Merda, ela está a morrer, aquele porco que me cumprimentou, toda borboleta, uma vez, lembro-me disso, até fiquei maldisposto, todo borboleta, todo panasca, de passagem no corredor do Ministério que dá para a Secção 10, o sabugo delicodoce está a matá-la, e acho que é por causa de mim, é por causa de mim sim, não posso morrer, tenho de a salvar, tenho de salvar o Hel, o Hel, o que lhe estarão a fazer nem quero pensar, tenho de mexer-me, tenho de mexer-me, tenho de trazer ajuda.
Estou junto do R6. Escondido atrás dele. Não sinto o braço. Faz-me lembrar quando era miúdo e o fracturei a jogar à bola. Quem é aquela gaja que apareceu à porta? É a puta do 23. Pois, é tal da Telma, a vaca que me queria bater uma punheta. Que faz ali? Está feita com o outro, só pode ser. Nada a fazer da minha parte, só com uma mão não consigo abrir a bagageira. Não consigo, mas tenho de conseguir, vou conseguir, vou conseguir e vou chamar a cavalaria, o porco da Secção 10 puxou pela Telma para dentro da casa, estão na beirada da porta e discutem, parecem alterados, irritados, há uma luz diferente e saltam para a rua espavoridos, fogo, há fogo na casa! O R6, tenho de abrir a bagageira, tem de ser!

15.1.09

Ariel - Parte X


Trancada! Merda! Por mais que rodasse a maçaneta, a porta permanecia inamovível. Dei-lhe um murro para, em seguida, me arrepender, sentido as articulações dos dedos doridas. Impaciente, pus-me a andar às voltas no quarto, tentando congeminar uma saída desta enrascada, com passos de frustração fazendo ranger a madeira do quarto do segundo andar. A minha cabeça atingia picos de dor lancinantes, para, em seguida, cair numa dormência tranquilizadora. Que puta de mania a minha de tentar acompanhar o Lúcio quando saíamos juntos, à noite. Nunca aguentei muito o álcool, sobretudo no estômago. Deixei-me cair, pesadão, sobre o colchão velho e bafiento, escutando a queixa das molas quebrar o silêncio pesado. Tentei limpar a cabeça, pensar numa solução, elaborar um plano. Era preciso chegar à polícia, evadir-me, descobrir em que paragens parava a ruiva… Ana, Anita, A… não me lembrava. Encontrar o Lúcio. Tudo acções essenciais, não necessariamente por esta ordem. Suspirei. Por onde andaria o Lúcio? Provavelmente, estava agora a acordar, a cabeça a rebentar, na minha casa. Sorri. O mais certo é que tivesse tido um encontro imediato com a minha prima, que partilhava a casa comigo. Pus-me a pensar nele. Apesar de muito diferentes e dos anos que nos separavam, sempre o vira como a personificação de algo que poderia vir a ser; tinha, pelo menos, várias características que admirava: era desenrascado, eloquente, extrovertido. Enfim, um complemento destes traços em mim atrofiados. Partilháramos muito nestes últimos anos, o bom e o mau. Tinha defeitos, mas um sentido de lealdade e de rectidão para com os amigos compensava quem o conhecia bem. Orgulhava-me de ser uma dessas pessoas. Levantei-me da cama, antes de cair na tentação de me deitar e fechar os olhos, nem que fosse por um instante. Em três passos rápidos, dirigi-me até à janela, afastei o farrapo que servia de cortina e deixei o sol matinal inundar a divisão, queimando-me as retinas. Nada melhor para acordar. Ok, e, agora, método. Primeiro passo: fugir. Espreitei pela janela uma vez mais. Lá estava ele, o carro, para lá da vedação que se elevava, circundando a velha vivenda. E era o meu carro, tinha a certeza. Sem a chuva a toldar-me a vista, avistava-o claramente. No andar de baixo, os sacanas não o deviam conseguir ver. E só uma pessoa tinha a chave: o meu caro Lúcio. Se ele estava lá fora, não me deixaria ficar mal. Ganhando novo alento, e ainda observando o exterior, com a testa sobre o braço encostado ao vidro da janela, franzi a fronte num esforço supremo de sobrepor o raciocínio à demência alcoólica da noite passada. Levei a mão ao bolso para ver do que me podia servir: trocos, um isqueiro, um recibo do bar, um cigarro... Hm, e porque não? De vez em quando... Levei o cigarro à boca e acendi o isqueiro. Nada. Voltei a tentar repetidas vezes, apenas para apanhar o fulgor da faísca. Estava gasto. Não… Espera… Ei-la! Acendi o cigarro e deixei-me hipnotizar, por breves segundos, pela chama bruxuleante. Dei duas longas passas quentes. Tossi ruidosamente. Decididamente, era um vício que não entendia. De repente, fez-se luz! Já sabia como escapar. Ou, pelo menos, assim pensava. Encostei o ouvido à porta e escutei. Estaria alguém do lado de lá? Estaria algum dos gorilas de guarda ao quarto? Bati ao de leve. Escutei. Nada. Bati com mais força e, então, o som característico de uma cadeira a ser arrastada, um ranger de madeira sob passos desajeitados e pesados e uma voz rouca e agressiva. «Pouco barulho aí dentro!» Voltei a bater. A porta abriu-se de rompante e quase me desequilibrei para a frente. Recuei um passo. «O que é que foi? Não gostas da suite? Queres que te dê o tratamento especial da casa?» Estalou as articulações dos dedos e riu ruidosamente, mas não se moveu do umbral da porta na minha direcção. «Não se come nada neste tasco?» Perguntei com o tom de voz mais natural do mundo, com uma calma que nem eu conhecia em mim. «Não se come nada nes…?» Retorquiu o outro, mirando-me com as sobrancelhas erguidas, voltando a rir longa, roucamente. «O príncipe quer comer? Ah! Ah! Ah! Descaramento não te falta, puto. A tua sorte é que o chefe ainda te quer dar uma palavrinha ou duas». Cuspiu as palavras, de repente, com uma expressão de pedra. Sem outra palavra, e soltando ainda gargalhadas estridentes para o ar, saiu e bateu a porta. O som da chave a rodar ecoou, pesado, pelo quarto. Fiquei especado um momento. Hm... portanto, se eu batesse, alguém me ouviria. O meu plano era arrojado, contudo, simples. Perigoso, ainda assim, com possibilidades de êxito. Ia incendiar o quarto e bater como um louco na porta. O que disse o outro?: «o chefe precisa de te dar uma palavrinha» ou algo do género? Ou seja, precisam de mim vivo, pelo menos, por enquanto, para quê?, não sei, mas não planeava ficar por estas bandas por muito tempo para descobrir, provavelmente, da pior maneira possível. Peguei em tudo o que pudesse servir para atear uma bela fogueira: fronha, lençol, almofada… Deixa ver, um cobertor bafiento… Que se dane, também o colchão. Isto deve animar as coisas. Acendi o isqueiro e rezei para que se aguentasse só mais um pouco. Depois de muita paciência e esforço, lá consegui, coloquei alguns dos farrapos, que começavam agora a arder, junto da porta, para o fumo sair pela pequena fresta, deixei o resto num canto, começando a atear e, sorrindo, previa já o caos. Então, comecei a gritar e a bater na porta. Nada. Fiz mais estardalhaço. Comecei a tossir. Passos! Apressados, pesados, nervosos. Era o gajo que estava de atalaia à minha porta! «Que raio!?» Ouvi do outro lado a voz estupefacta. «Abre a merda da porta, depressa!» Gritei, num pânico que começava a tornar-se real. A porta escancarou-se e vi o vulto por entre o fumo. Era agora! Peguei numa das pontas do lençol, que ainda não tinha sido devorada pelas labaredas, e atirei-o para a cara do brutamontes, que se começou a debater num pânico frenético e a perder o equilíbrio. Corri em direcção a ele e, com uma placagem magistral, derrubei-o. Atravessei o umbral. Livrou-se dos farrapos em chamas, levantou-se, ainda atordoado, e eu, aproveitando o momento de confusão, empregando todas as minhas forças no punho direito, terminei a nossa conversa com um gancho, que o derrubou de vez. Instintivamente, baixei-me e tirei-lhe a arma do coldre. De repente, estaquei, com os olhos esbugalhados. Do bolso de dentro do casaco, caíra um objecto, metálico, brilhante, reluzente. Um distintivo! Peguei nele. PJ! Agora é que não percebia nada. Voltei a mim, as labaredas começavam a consumir todo o quarto. Olhei em volta num frenesi, os olhos correndo de cá para lá nas órbitas, procurando um caminho, uma porta, uma saída. Estava livre, estava armado e a lidar, pelos vistos, com agentes da autoridade. Ora, foda-se! A ruiva! Ana, Anita, A… Ariel! Era isso! Onde estava ela?, tinha de a encontrar. Não podia abandoná-la numa casa em chamas. Merda de escrúpulos! Num esforço hercúleo, ergui-me. As pernas tremiam-me, mas era preciso recuperar o sangue frio, custasse o que custasse. Sentia que a minha fuga só agora começara e que a parte difícil ainda estava para vir.o menos, por ernquantoecida deilidades de ueonhecia em miojorçadoarro , cigarro...o bs ao vidro da janela, caçntena minhamo

14.1.09

Ariel - IX


Acordei estremunhado, com um bafo de largar fogo, as unhas cheias de terra, a cara toda porca, com uma mistela irreconhecível colada ao cabelo, lama, os olhos vermelho fogo no espelho retrovisor e uma dor lancinante, terrível, dançando-me no cérebro, do hemisfério esquerdo para o outro, e de regresso e outra vez para lá, sentado, ao menos, a tentar ver para além da névoa que se instalara, já era dia, era dia e não estava nada bem, nada bem. Então arrotei.

Liguei a luz. Não era o meu carro, era o R7 do Hel.
Sim, já me recordava de tudo. Lentamente, é certo, mas já me recordava de tudo, até porque, como de costume, o que havia para recordar era só asneira, asneira atrás de asneira e mais ainda, como sempre.
Respirei fundo.
Levei a mão ao bolso do casaco e encontrei um maço de cigarros sem filtro tão amarrotado que poucos sobravam fumestíveis. Levei um aos lábios, só que não encontrava lume e, impaciente, reflecti, enquanto tossicava, que estava todo fodido, tinha os pulmões lixados, tinha frio no corpo e a minha cabeça era uma chispalhada alcoólica sem fim à vista e a continuar a fumar era para morrer; por isso, poisei o cigarro no lugar do morto ao meu lado, espreguicei-me, com uma indolência forçada e deu-me vontade de foder, mas não havia gaja alguma por perto, era quase dia, estava um frio enregelante, um nevoeiro dos diabos, essa é que era essa, recordava todo o tempo uma mulher ruiva, cabelo de fogo, seios de mísseis, pernas de bailarina, olhos verdes de tentação lânguida, vozinha atrevida, como quem quer festa e julga que está a falar com lategos e os lategos a embebedá-la sem ela dar fé. Linda, bonita, conversadora, otária.
Ao pensar em bebida deu-me náuseas e num vómito aliviei-me num só jorro para o chão do lugar do morto. Foi aí que me apercebi das minhas redondezas. O R7 cheirava a veneno de ratos, abri a janela, o ar frio e cortante da madrugada fez-me fungar, espirrei, meti a cabeça toda para fora da janela, numa agonia suprema, mas que até acabava por ser um alívio.

Reconfigurei muito docemente o cérebro e sai do carro para ir cair de borco a rasar a raiz duma árvore. Deixei-me estar deitado, molhado até aos ossos. Que se fodesse. Deixei-me estar, deixei-me estar até tocarem mais campainhas de alarme, ainda indistintas, mas campainhas de alarme, para logo me erguer, cheio de frio, cheio de medo e me apoiar numa árvore ao lado a avaliar das minhas redondezas, da minha circunstância, de reflectir sobre a vida.

Bem, era quase de madrugada, tinha coisas para fazer, montes de coisas para fazer, contas para pagar, não sabia quanto dinheiro gastara na véspera (em pânico levei a mão ao bolso das calças só para me certificar de que tinha guita, encontrei 300 euros espalhados nos vários bolsos, um livro de cheques e uma conta por pagar do 23, os porcos do 23). Um pouco mais aliviado, pus-me a observar-me, a avaliar-me.
Ali estava o senhor, o senhor engenheiro Lúcio Ferro. Estava todo porco, filhinho do papá, engenheiro agrónomo por especial favor, filhinho duma das maiores fortunas do país, morador num dos bairros mais chiques de Lisboa, a cheirar mal e a destilar ressaca, celibatário e putanheiro endinheirado, por todos os poros, ao lado dum R7 a cair aos pedaços, ao lado do carro do Hel, o meu único amigo, o único que nunca se tentara servir, nem de mim, nem do dinheiro do meu pai, nem dos contactos fáceis da minha vida ainda mais fácil e obscena, no meio do mato, encostado a um cipreste qualquer, na borda dum R7 ferrugento, a vomitar a bílis, o Hel era um gajo que me respeitava.

Acabei, limpei a boca ao casaco, caí outra vez ao chão e reconfigurei. Reconfigurei tudo.

Conhecera-o nos bancos da Faculdade de Agronomia, céus como eu demorara a finalmente concluir a licenciatura, e logo entre nós se gerara uma estranha cumplicidade, até porque mais diferente do que eu e do Hel não havia. Tinha quase idade para ser seu pai, ele era um aluno aplicado, cumpridor, tinha cabeça e nunca perdia a calma. É certo que gostava de miúdas como eu, mas não as levava para a cama por dá cá esta palha, apreciava músicos que tivessem algo para dizer, para cantar, coisa que eu nunca percebera, apreciava livros de mistério, a gramática da linguagem e também acreditava, parvoíce, na lealdade e na boa vontade entre os seres humanos.

Se calhar fora por causa dos livros de mistério, eu também gostava disso. Talvez um pouco também pela sua coolness de atitude, ou por ser um pouco a personificação daquilo que eu próprio poderia ter sido mas que nunca fora. Na volta era só por causa da gramática da linguagem. Todos os engenheiros agrónomos que conheço gostam de gramática, tem a ver com a linguagem das plantas a crescer, do alinhamento das sementeiras e das hortas em flor. Por outro lado, ele não era egoísta e não se importava se os outros o maldiziam por se dar com pessoas como eu.

Seja como fosse, tratava-se dum tipo honesto. Sorri, abri os olhos e olhei em volta. Fazia névoa. Cerrada.

Pigarreei e escarrei satisfeito, estava cerrado o ar, cortei com a mão a névoa, não havia problemas, mais tarde ou mais cedo alguém tinha de morrer e aquela não era o dia em que eu morreria, na cama ou acompanhado, estava acordado, maldisposto, imundo, sujo, mas vivo.

Devagar, ergui-me e dei a volta ao R7, abri a porta do lugar do morto, saquei do tapete vomitado e atirei-o fora, a ver se via mais coisas minhas a esvoaçar, mas não, os meus outros papéis não estavam ali, é verdade, recordei com um nó no estômago, tinha-os deixado no meu R6. O meu R6 novinho em folha que o Hel levara e que se sumira no portão mais à frente. Trocara de carros com o Hel, pois era, isso era algo que se me afigurava complexo sentei-me a matutar no assunto.
Então, finalmente, acendi um cigarro. O fumo, a névoa, os pinheiros, a noite ainda, a madrugada a chegar, a sensação de que tinha algo de importante a fazer, atrofiavam-me o pensamento e foi assim que reconfigurei. Reconfigurei, se calhar precisava mesmo de o fazer e então reconfigurei outra vez.

Noite de 20 de Dezembro de 2007.

És tu Hel? Bora beber um copo, mate? No clube 23, Lúcio? Yup, Hel. Boa, fixe, no 23 às 10 da noite, sim? Sim.

No 23 já eu estava ao ligar-lhe. Com uma loira. Reconfigurei. Uma boazona. Puta até aos olhos. Gaja difícil, a vaca. Nem depois de dois copos de champanhe. Nisto, o Hel aparecera. Quatro ou cinco copos depois, reconfigurei ao acender mais um paivante, como vai a vida no ministério, senhor engenheiro? Óptima e tu, no departamento, quando é que te fazem professor doutor a tempo inteiro? Uma risada, mais uma passa, um esgar no rosto do Hel, conheço-o bem, mais um sorriso meu uma outra passa, e então a ruiva.

Pois, a ruiva. Muito gira a gaja. Pestanuda. Comprida. Alta, quero dizer. Dão-me lume? inquiriu. E O Hel que não fuma. Não tenho, disse ele. Eu, quieto, a loira a sugar-me a tesão toda, sentada no balcão do 23 de minissaia e meias pretas onde a deixara mesmo antes do Hel chegar.
Não faz mal, diz ela, magra mas curvilínea, botas vermelhas de salto alto, resolvi deixar de fumar, cuspiu e, sem mais, vira-se para o Hel, toda fêmea, no pique da música do 23, mete-lhe a boca no ouvido.
Mau, percebi o que se passava e deitei abaixo a minha aguardente velha dum só trago. Então ela, outra vez à carga, o decote na cara do meu amigo, não te importas que me sente? Eu fodido e a loira, a tal da Telma, fria, malhas pretas boa como o milho mas nem para criada chegava ao pé da ruiva, ciumenta, deixou-se ficar, a conspirar com o barman, um monstro de dois metros de altura. Pareciam dois macaquitos a armar alguma, só que não liguei, de fascinado que estava com o filme que se desenrolava à minha frente.

Entretanto, o Hel, com a ruiva a insistir, olhava para mim, na dúvida. Na verdade, não era preciso duvidar, ela sentou-se na mesma, no meio dos dois, roçando-me a coxa ao fazer-lhe uma festa no resto e ao dizer-lhe que ele era um rapaz bonito, mesmo a provocar, rapariga nova nas lides do ataque, tinha sorte em dar comigo e com ele, visto que o Hel de aventureiras não sabia de nada e eu de tipas destas sabia até demais.

Reconfigurei. A ida para Cascais. A casa do Hel. O quarto do Hel. Mais umas cervejas que comprara na ida, conduzia então o meu carro, o artilhado R6. O asfalto, a noite, a bebida, a rolar cada vez mais rápido, e o Hel seguro de mim, raios, o Hel confiava em mim.

Eu. no banco da frente, o Hel no lugar do morto e a ruiva lá atrás a fazer um strip para o espelho retrovisor. O Hel a passar-se, ela totalmente marada, eu com os olhos, eu todo olhos, um carro atrás de nós e eu tentado transmitir-lhe a ela a calma necessária para o bacanal que já começava a antecipar.

Reconfigurei. A casa do Hel. O Hel no quarto com a ruiva. Eu cá fora a fumar um cigarro. As chaves do meu carro nas mãos do Hel. Uma troca de chaves, como se fosse de sangue, eu a poisar as chaves do Hel na secretária. Gemidos vindos do quarto do Hel. Eu a fumar um cigarro. As luzes dum carro grande e feio. Um Volkswagen Miura.

A loira à minha frente a desligar o Volkswagen. Um sorriso tão mentiroso quanto sexy, encaminhar a loira para um dos anexos da quinta da família do Hel. Deitá-la e não sentir vontade de foder. Ela a perguntar: queres que te bata uma punheta? Eu que não, que não queria.

Fugir. Entregar a Telma à sua sorte, que se desinmerdasse. Que tinha eu a ver com isso? Fugir.
Entrar no quarto do Hel à má fila. Olá, estão bons? Eles a rirem, completamente vestidos e o que é pior os dois de pé, como amigos, e o Hel a dizer que iam dar uma volta.


A televisão ligada. Minto, era um plasma, a televisão ligada e o computador também. A cair. A ruiva linda a suster-me e depois o fim, a cama, o sono.

No relógio eram 20 para as seis. Acendi mais outro cigarro. Estava mesmo muito frio e não havia maneira da neblina levantar. Sim. Liguei a rádio por descargo de consciência. Ironia. Tocava «i can see clearly now». Foda-se, não podia ver nada «clearly». Estava frio. 20 para as seis, certo? Bom, tinha mais o que fazer. Pois, onde estão os meus documentos? Caralho, estavam no R6 que o porco do Hel levara.

Escorreguei, aninhando-me no banco do R7. Um grilo dava os bons dias à natureza. Já era quase dia. Havia um cheiro a vómito dentro do carro que começava a irritar-me. Que fazia eu ali? Merda de carro e merda de cheiro. «I can see clearly now the night is gone, it's gonna be a bright, bright sunshiny day» ou pelo menos assim rezava a porra do rádio.
Reconfigurei.
A ruiva e o Hel, que par; faziam um par bonito, mas porque raio os seguira? Porque diabo estava parado no meio do campo perto duma vedação alta ainda à noite e sem visibilidade quase nenhuma?

Pois. Reconfigurei. O Hel. A ruiva. A loira. Dois carros. O convento de Mafra. Uma casa isolada no meio dos ciprestes. Dois homens. Uma pistola. Agressão física. Um rapto. Que podia eu fazer? Era duvidoso. Ergui-me. Abri o porta-luvas. Encontrei uma garrafa de whisky de meio litro, provavelmente era a mesma que oferecera ao Hel quando regressara da minha última visita à Escócia. Bendito Hel, não a bebera. Desarrolhei, dei um longo gole. Explosão no estômago. Força, poder, genica.

Reanimado, resolvi que tinha de fazer alguma coisa e, devagarinho, muito devagar, abandonei o R7 e trepei a uma árvore que dava para a vedação. Ao subir, ouvi um grito feminino que quase me fez cair, mas não me desbanquei; estava no topo duma árvore e conseguia vê-la. A ruiva era puxada selvaticamente por um dos braços. Era ela sim, já me recordava.
Reconfigurei. Ariel, dizia chamar-se Ariel, era isso mesmo.

13.1.09

Ariel – Parte VIII

Caiu um silêncio pesado no pequeno quarto. De súbito, o sorriso escarninho deu lugar a uma expressão de ferro, os seus olhos vivos e negros cravaram- se na mulher, levantou um dedo longo e, seco e ríspido, regougou: «Tu! Anda cá! Vem comigo.» A ruiva ficou imóvel, presa num torpor de indecisão entre o acatar a ordem e o medo das consequências se não o fizesse. Com uma velocidade e agilidade surpreendentes para um homem tão encorpado, Pedro trilhou com violência sobre a madeira velha do quarto, fechou os dedos gordos e ásperos sobre o braço dela e começou a arrastá-la, afastando-me com um violento soco no estômago quando o tentei impedir. «Contigo falo mais tarde, porco!» Antes de bater com a porta e me trancar de novo, vislumbrei uns cabelos loiros e ouvi uma voz feminina: «Era ele? Apanhaste o Lú…?» «Cala-te!» silvou Pedro, interrompendo-a. Os passos afastaram-se, batendo na madeira seca e apodrecida do chão, a passada larga e constante do Pedro marcando o compasso para o toque rápido e sonoro dos saltos da mulher desconhecida. A ruiva parecia segui-los sem resistência.

Silêncio.

Ergo-me com grande esforço, tossindo, o ar a voltar a encher os pulmões. Dirijo-me para a janela e espreito por detrás da cortina verde, manchada pela humidade. A chuva intensa fustiga as janelas com a força de um chicote e apenas vislumbro os carros dos meus captores e o chão de pedra do exterior da casa. Mas…? Observo com mais atenção por entre a chuva que escorre a jorros pela janela. Para lá da vedação, julguei ver um outro carro,
escondido por alguma vegetação, ali, tão perto. Parecia... Poderia ser? O meu carro...? Desisti, a tempestade não me permite distinguir quase nada. Fosse como fosse, o mais importante era descobrir uma forma de me evadir e depressa, antes que o brutamontes decida vir «falar» comigo. O sol começava a romper por entre a cortina esfarrapada.

Olha lá...



Era, não era? Era, agora era mesmo.


Duas horas até ao fecho

Às seis da manhã as palavras fluem com mais certeza do que se fossem de abacate apimentadas de enxofre de mel e de alcatrão, às seis da manhã as palavras são como um abraço tal que não há palavras nem cigarros nem vinho para as escrever a direito numa linha hexagonal, às seis da manhã são palavras e não se fala mais nisso, são palavras ditadas de madrugada, são parque de estacionamento, são projecto de trabalho, são ânsia de paixão, são medos e são escritas de tesão e são palavras e diabo que as leve a correr sem parar até que o verbo se canse de as ditar.

São palavras. De madrugada, a correr para a música e para a neve e para o frio e para o ensino. São as palavras a metro, as palavras a linha e as palavras a comboio e as palavras a rolar pela autoestrada da vida e são as palavras das quais sinto algum orgulho ao escrever, as palavras da noite e e as palavras do dia e as do amor e e as da luxúria e as da moda e as do tempo falado atrás também.
São as palavras que não digo e as letras que não soletro, quanto mais palavroso maior mentiroso já se escreveu em nenhures e são palavras vadias mas quiçá são palavras amigas, são o dia que nasce e o dia que morre e são vontade de ser veneno sem desejarem ser paz, são palavras perdidas, palavras registadas, palavras mordidas e alambazadas - com método e desumano querer -, são só palavras.

E se não forem nem eu as escrevi nem elas foram lidas, as minhas palavras não são para todos os leitores, não são palavras na verdade substantiva da palavra em si, são ideias e pistas e inquietações, palavras tontas escritas ao sabor da água que me escorre pelos beiços, sim, eu bebo da água doce que brota da nascente de mais palavras bonitas que me escorrem da fala embora duma beleza descrente da dicção e nelas encontro mais palavras que não se dizem assim e palavras destas que não passam de gritos impressos no vento da manhã que me gela a glote e outras palavras que falam de coisas fenomenais e faltam só duas horas para fecho e enfim, palavras! Viva a Vida!

Porque sim



- Porque é que és mau?

– Porque gosto de ser mau.

– E tu és mau com toda a gente? Gostas de ser mau para todos, até para com os bichinhos ou as plantas que nunca te fizeram mal algum?

– Não. Eu só gosto de ser mau para com as pesssoas de quem gosto. Quanto mais gosto de uma pessoa mais vontade tenho de ser mau para ela.

– E tu gostas de mim?

– Claro que gosto de ti. Se não gostasse tanto de ti não seria tão maldoso contigo como sou.

– Mas eu não sou má para ti. Nunca fui, antes pelo contrário, sempre te tratei bem.

– Pois. Só que tu não gostas de mim, e eu gosto de ti. Se tu gostasses de mim, também serias má para mim.

– Estás enganado: eu até gosto de ti, se eu não gostasse de ti nunca mais te falava e deixava-te aqui a seres mau sozinho.

– Tu gostas de mim?..

– Claro que eu gosto de ti, tonto, se eu não gostasse de ti achas que continuava a aturar as tuas maldades?

– Pois... Gostas mesmo de mim de verdade? Não me estás a enganar só para eu deixar de ser mau para ti?

– ...E se eu também resolvesse ser má para ti? Gostavas?

– ...Não, ficava muito triste, eu fico sempre muito triste quando tu és má para mim.

Por causa de algo que não me lembro

Estou acordado às cinco da manhã.

Fase 3



A fase 3 consiste na tomada de posse do território por parte duma força invasora radicalmente inferior em número, embora armada até aos dentes.

A fase três antecede a fase 1, a blitzkrieg áerea, e a fase dois, a destruição sistemática dos pontos de apoio do inimigo, com a ajuda da artilharia de campo, acompanhada dum bombardeamento incessante sobre as infraestruturas económicas, a água, a luz, o gás, de modo a forçar uma decisão, porque - dizem - é duma decisão que se trata, antes do preto tomar posse à séria, não que não seja tudo folclore ou o cão d'água - já agora - para o livrar de mais enxovalhos aquáticos, preto estúpido.

Está nos livros. É só ler Clausewitz.

Só com sanções



Cadetes da marinha israelita em formação.

Gittana



No photos in red and no mistakes in downy misty shades allowed. I'm gonna clean up my act and play the part we was destined to play, playground closed, i'm your's but mine, all bets are of and this is the talk of those who are not scared.

12.1.09

Ariel - VII


Rolei uns 10 minutos, passei por duas rotundas onde virei sempre à esquerda e dei por mim a 130 quilómetros horários numa estrada secundária em direcção ao Guincho. Para o Guincho, sabia que o Hel sempre levava as suas conquistas para o Guincho. A recta era longa e, se bem que um pouco perigosa, de certo modo convidava a reflectir.

Ao canto esquerdo da minha visão periférica o Palácio da Pena proporcionava-me coordenadas conflituantes; abri a janela, cheirei o ar e senti um vago aroma a maresia, é curioso como o regresso duma esmagadora bebedeira me aguçava temporariamente os sentidos, todo eu estava alerta e pisei mais no acelerador, sem saber muito bem ao que ia, pois do Hel e da ruiva nem sombra.

Na curva, ao fim da recta, no último segundo, travei e a desacelerar meti por um caminho de terra batida, chamem-lhe instinto, mesmo a tempo de não dar de frente de carro com eles. Lá à frente, lá à frente estava o meu carro, o R6 amolgado na porta de trás estacionado na berma da curva da estrada de asfalto que abandonara mesmo a tempo.

Congratulei-me ao ralenti e deixei-me deslizar, na certa estavam os dois na marmelada, sorri, desliguei as luzes, agachei-me, sem perder todavia o campo de visão por completo. A verdade é que ainda guiava e com os olhos no retrovisor estacionei cinquenta metros mais ao lado, na perpendicular, à sombra dum muro que ladeava um terreno baldio e onde não batia a Lua, sorte minha.

Olhei para esquerda, completamente seguro e enfático da minha resolução, vi as luzes do R6 e vi uns quantos vultos na semi-penumbra com que a Lua os banhava. Dois, quatro vultos?.. Fechei e abri os olhos a confirmar se não fora vítima de um pós-choque alcoólico, coisa que se tinha vindo a tornar mais frequente nos últimos tempos, embora o escondesse de mim próprio, mas não, eram mesmo quatro vultos e atirei-me ao chão, a névoa da madrugada cheirava a esturro, o meu sentido aranha não enganava, nunca me tinha enganado e, rastejando, fui-me aproximando-me deles, que se lixassem as calças e os sapatos novos, se na pior das hipóteses fosse um bacanal, se fosse um bacanal, sacudi lama da mão, é verdade, estaquei, um bacanal, não era um bacanal, não de certeza, sacudi lama das pestanas e quase disse em voz alta: Onde está a Loira?

Acalmei-me, julguei o meu estado geral promissor, entre bebedeiras e cheio de lama a espiar um bacanal em que entrava o Hel, gargolojei e, discreto, deixei-me ficar, a ver.

A loira. A gaja do clube 23 onde combinara encontrar-me com o Hel na noite anterior, just a night out to kill time and drink with whores, assim lhe tinha asseverado A loiraque nos seguira no seu Wolksvagen Miura, sim, recordava, eu tinha-lhe dado a bisca para fazer isso, a gaja tinha-me dado os sinais, mesmo depois de termos engatado a ruiva, e ela seguira-nos, Telma, chamava-se Telma. Chegara antes do Hel ao 23. Bem boa. Loira mas falsa. Uma falsa loira.

Lembrava-me de a ter encontrado quando fora vomitar à romana e fumar à budista, já nem me lembrava dela, enquanto rastejava todo sujo de lama, de a reencontrar, essa é que era a palavra, logo após chegarmos a casa do Hel, de dar com ela à entrada da quinta, os dois limpinhos, embora eu estivesse embriagado, de conduzi-la a um anexo, de rodar a maçaneta da porta e de deitá-la numa cama. Agora ali estava eu, a rastejar outra vez, mas desta talvez que fosse por uma boa causa.

Em definitivo, não era a loira ali em frente, abri os olhos, era o Hel e a ruiva e dois tipos grandes, amacacados. A Lua brilhou na pêra imberbe do Hel e então vi a pistola na mão do gorila. O outro símio, entretanto, calcava a ruiva para dentro do porta-bagagem.

Hum... Muito estranho mesmo. De repente, chicoteando o ar, a coronha da pistola abateu-se sobre a nuca do Hel e ele caiu dobrado como se fosse ravioli para dentro da bagageira.

Um raio de luz fez-me reconhecer um dos tipos. Não me lembrava de onde mas também não estava nem aí, rastejei de volta, vomitei o bagaço que me restava e alcandorei-me para dentro do R7, enojado. No espelho retrovisor o R6 avançava para longe em primeira. Sentei-me, rodei a chave, fiz inversão de marcha e entrei na estrada.

Segui-os durante uns bons 20 quilómetros, até virarem à direita e rumarem, ao que parecia, à vila de Loures. Muito rapidamente me desenganei, ao passarmos o convento de Mafra, na direcção oposta que atribuíra ao R6 e a um outro carro, grande feio, no qual não reparara inicialmente porque estava escondido atrás da curva do rapto, sim, não podia ser um bacanal, era violência a mais, o que significava que tinha pela frente no mínimo três símios hostis, bem como o Hel e a ruiva, mas já não estava preocupado, há muito tempo que não o estava.

Não fosse a curiosidade e um certo laço de companheirismo que me prendia ao Hel, há muito teria rumado a casa, talvez a esconder-me atrás da minha namorada num sítio ainda mais desconhecido de todos e quaisquer que me desejassem mal do que seguir um R6 atulhado de hostis e com o Hel e uma ruiva qualquer na bagageira.
O problema era que aquele era o «meu» R6. Certo, ganhava na barganha, pois ficava com o R7 do Hel, mas não tinha os documentos do carro e, ao mesmo tempo, recordei amargado, os meus próprios papéis estavam debaixo do fundo falso da bagajeira do R6, eu e a minha paranóia do secretismo, sempre a esconder as coisas. Diabo, sacudi a cabeça e fiquei sóbrio, todo adrenalina O Hel e a gaja estavam desmaídos por baixo do meu número de segurança social, carta de condução, número de contribuinte, cartão de eleitor, seguro, título e registo. Senti a garganta seca.

Reduzi a marcha e quase fui tentado a virar no desvio da A8. Os outros avançavam ainda em comboio para costa, direcção Ericeira; sentia-me preso atrás do R6 e do carro grande que o precedia. Havia demasiada estória, problemas, laços envolvidos por entre lacetes para me afastar e deixei-me estar em velocidade de cruzeiro até os outros passarem um portão eléctrico e desaparecerem para lá da vedação. Reparei que havia uma vivenda perto, girei o volante do R7 e estacionei, pensando em dormitar pelo menos uma hora, até ser de manhã, até procurar um café e quem sabe decidir que tudo não passava dum sonho. Então, quase a fechar os olhos, pensei que pena a loira, a Telma, não estar comigo. Que seria feito dela?