19.3.08

Maybe... southeast Asia?



"Whenever I find myself growing grim about the mouth; whenever it is a damp, drizzly November in my soul; whenever I find myself involuntarily pausing before coffin warehouses, and bringing up the rear of every funeral I meet; and especially whenever my hypos get such an upper hand of me, that it requires a strong moral principle to prevent me from deliberately stepping into the street, and methodically knocking people's hats off - then, I account it high time to get to sea as soon as I can."

Herman Melville, in Moby Dick.


13.3.08

As trains go by...



... and snow drips from the sky
i remember a white winter dove
and the cold that warmed her love

It fitted us both as if a silk glove
It turned us weary as if we were a lie
but with a kiss, as trains went by - I knew -
we had time.


9.3.08

Histórias da Linguística (I)

George J. Adler (1821-1868) foi um reconhecido filólogo e linguista. De origem alemã e chegado aos Estados Unidos em 1833, Adler viria a formar-se na Universidade de Nova Iorque, sendo-lhe conferido o título académico valedictorian, o aluno com as notas mais elevadas. Foi responsável pela compilação do Dictionary of German and English Languages, cuja publicação granjeou Adler com a reputação de um dos maiores linguistas do seu tempo. Uns anos mais tarde, terminou o seu último trabalho e, também, um dos mais importantes: A Practical Grammar of the Latin Language. Embora esquecida após a publicação, a obra de Adler tornou-se uma das fontes principais para o estudo de latim falado no século XXI.

George Adler foi diagnosticado como louco, a razão sendo a tensão resultante de todo o processo de elaboração e publicação do Dicionário. Em 1853, foi internado no asilo de Bloomingdale, onde esceveu Letters of a Lunatic, um pequeno texto sobre a sua vida universitária durante os anos de 1853-54, e, mesmo depois de sair, continuou como paciente em regime semi-permanente, até à morte, em 1868. No decurso da sua vida, travou amizado com Melville, julgando-se que este baseia em Adler o personagem Bartleby, do conto Bartleby The Scrivener: A Story of Wall Street. Melville seria um dos poucos amigos de Adler presentes no funeral deste.

Sobre Alder, Melville escreveu: «é cheio de metafísicas alemãs e discursos de Kant, Swedenbourg, etc. O autor de um léxico formidável (Alemão e Inglês), na compilação do qual quase destruiu a saúde. Era quase louco, dizia-me, durante uma altura.» (…) «reconhece as Escrituras como divinas, porém, mantém-se livre para inquirir a natureza. Não aceita que a Bíblia seja absolutamente infalível e que tudo o que existe na Ciência que se lhe oponha esteja errado. Acredita que existem coisas fora de Deus e independentes Dele – coisas que teriam existido, mesmo que Deus não existisse – tal como dois mais dois serem quatro; pois tal não acontece porque Deus assim o decretou matematicamente, mas porque na natureza das coisas é esse o facto.»

8.3.08

Histórias da Matemática (II)

Se na Matemática existisse um prémio para matemáticos famosos pelos seus falhanços e não pelas suas descobertas, John R. Stallings seria um sério candidato. Isto não quer dizer que Stallings seja um matemático de somenos importância (bem pelo contrário), mas sim que dificilmente ele poderia ombrear, em termos qualitativos, com outros matemáticos importantes do século XX, como Steve Smale (mais dele numa próxima «história»), ou RH Bing, só para mencionar dois compatriotas de Stallings. No entanto, uma coisa é o desempenho matemático e outra é o carácter humano. Stallings é uma pessoa com um sentido das proporções e de humor fora do vulgar, como o atesta a seguinte história:

Contava-se que Stallings tinha sempre uma reserva de álcool no seu gabinete na universidade. Acrescentava-se que precisava dela para embebedar oradores convidados antes das palestras destes últimos. Habitualmente, isso contribuia para animar as palestras, sustentava Stallings com o ar mais sério do mundo, visto que era um bom antídoto para ataques do ‘síndroma do excesso de atenção’ por parte da audiência, uma condição clínica que descreve o acto dos ouvintes simularem estarem atentos, mesmo quando estão completamente entediados...

Stallings passou grande parte da sua carreira a tentar resolver um dos mais importantes problemas matemáticos de sempre, a Conjectura de Poincaré, sem nunca ter sido bem sucedido. Isso levou a que um dia escrevesse:

«Quando eu morrer, planeio renascer num universo com leis físicas completamente diferentes. Renascerei como um contra-exemplo da Conjectura de Poincaré. Os meus colegas, amigos e compinchas serão todos contra-exemplos da conjectura de Poincaré. Quando dois desses contra-exemplos se tocarem, algo de belo acontecerá, algo muito mais complexo do que uma mera soma conexa, para produzir um outro contra-exemplo completamente diferente da Conjectura de Poincaré. Mas também isto se tornará enfadonho após algum tempo. E então, finalmente, demonstrarei a Conjectura de Poincaré e destruirei o universo!»


Sítios: J. STALLINGS; GEOMETRIC G. THEORY; POINCARITIS.

6.3.08

Histórias da Matemática (I)

RH Bing era um matemático de corpo e alma. Vivia para os problemas matemáticos e, embora não fosse um eremita, quando reflectia sobre as minudências da sua paixão facilmente se esquecia de tudo o resto. Exemplo disso é um tributo da Universidade do Texas em sua memória e que relata a seguinte história:

"Numa noite negra e tempestuosa, Bing ofereceu-se para transportar de regresso a Chicago alguns matemáticos cujo avião o mau tempo impedira de levantar voo do aeroporto de Madison. A chuva fria descia torrencialmente sobre o pára-brisas do carro de Bing e gelava a estrada à medida que Bing conduzia – profundamente concentrado num teorema matemático que tentava explicar aos outros. Depressa o pára-brisas ficou embaciado com a sua energética explicação. Os passageiros também escorriam água, mas o seu suor era produto do medo. À medida que a descrição matemática se tornava mais clara, a visibilidade no automóvel diminuia. Por fim, os passageiros suspiraram de alívio quando Bing se inclinou para a frente - aparentementre com o intuito de desembaciar o vidro. Mas o alívio transformou-se em terror quando, ao invés de limpar o pára-brisas da humidade que o cobria, Bing desenhou nele uma figura com o dedo e continuou a sua demonstração – embelezando-a com setas e outros símbolos que lhe pareciam pertinentes, sem afrouxar a velocidade."




4.3.08

Lá vai

Lá vai o Avô Casal,
de sobrolho carregado
e esqueleto pequeno,
os lábios finos,
a barba rala.

Lá vai o Avô Casal,
de língua afiada
e vigilante ouvido,
na luta a mirada fixa,
não vai cansado.

Lá vai o Avô Casal,
de olhos cerrados
e semblante sério,
p’la bandeira coberto,
vai deitado.

Lá vai o Avô Casal,
após a longa batalha,
descansando os velhos ossos,
vai vencedor
e sem remorsos.

Por liberdade vai a clamar,
vai em paz, junto ao cravo,
“olha o marquês”, lá vai!,
ouço-o cantar:

viva o descanso,
viva o Menezes,
viva o descanso toda a vida
e mais seis meses.

Lá vai o Avô Casal…

Quod erat demonstrandum



Bom. Isto vai, porque tem de ir, porque eu quero e porque quando lá chegar nada será como dantes. Qual variedade tridimensional de espaço homeomórfico fechado, qual número de Betti de grau zero, qual lacete unidimensional de toro duplo. Isto vai, e não há deformação de esfera homológica que o detenha. Até porque, quando isto lá chegar, daqui a uns vinte dias, na tetradimensão em que Gregory Perelman me pôs a cabeça, não há conjectura de Poincaré, Teorema de Dehn ou invariante topológico que me detenha. E nada será como dantes. Nada. Tenho dito. QED.


1.3.08

Inferno

Algumas raparigas gostam a ferver. É dessas que eu gosto. Boa noite. É sábado.

25.2.08

O Estado a que isto chegou



Ir para a rua gritar “Fascismo nunca mais” é não só importante como de bom tom e nunca é demais repetir. Ir para a rua gritar que temos um “governo fascista”, não só não é importante como é revelador de uma total ignorância da História ou, o que seria pior, de deliberada manipulação desta última.

Não se faz, muito menos considerando-se quem o faz. Isto é uma democracia, convençam-se disso, corja de professores confortavelmente instalados e devidamente promovidos ao nível máximo do vosso Princípio de Peter. Por ser um democracia é que podeis ir para a rua chamar-lhe nomes, cretinos, assim aviltando e contribuindo para a degradação do debate público, burros, ao mesmo tempo que nos dão a todos a justa medida das vossas competências pedagógicas, bando de demagogos patéticos.


23.2.08

Shall I kill him?


A história que vos vou contar tem início há muito, muito tempo, ainda a Europa não era Europa, e muito menos Portugal era Portugal, mas antes um pedaço de terra parte do império sob jugo muçulmano. Era o tempo em que os cristãos lutavam pelo seu lugar no berço do Ocidente, lugar esse que viriam a ocupar, a seu tempo. É a história dos Ben Shahar que eu, Francisco Ben Shahar, quero, finalmente, revelar e convosco partilhar o fardo.

Embora de longa ascendência, a história dos Ben Shahar ganha verdadeiro interesse algures no dealbar do século XIX, numa aldeola que dá, ainda hoje, pelo nome de Alguidares de Baixo, consta que fundada pelo famoso Duque de Alguidares de Baixo e de São Pedro, soldado de D. Pedro durante a guerra civil.

A história dos Ben Shahar é bem menos honrosa. Caído em disgraça, o general Ben Shahar – seu nome perdido nas páginas do tempo -, principal general das forças muçulmanas de defesa contra os primeiros ataques dos Cruzados, caíra em desgraça junto do seu senhor, um Xeque que não teve força suficiente para ver o seu nome merecer um lugar entre os grandes da História. Os cristãos venciam batalha atrás de batalha, coleccionando vitórias, territórios preciosos perdiam-se para as mãos ganaciosas dos infiéis, as rotas de comércio caiam irremediavelmente sob o controlo dos jovens reinos ocidentais e, ano após ano, década após década, os muçulmanos recuavam, incapazes de para sempre susterem os ataques dos Cruzados. Corria o século XI.

Retirada a sua honra, destituído das suas funções e, por fim, definhando em vergonha, obrigado ao exílio, o antigo herói do império foge para o norte, para terras europeias, só, em busca de uma vida votada à solidão e ao perpétuo ostracismo.

Porém, o desenrolar foi outro.

O velho general não tardou a estabelecer-se algures numa terreola sem nome, seca, inóspita, onde sempre o céu parecia plúmbeo, e por Alá desfavorecida. Ali, com as próprias mãos, construiu a sua casa e ali acabaria por conhecer a mulher que daria continuidade à descendência dos Ben Shahar. Era o local ideal, uma terra desconhecida de todos, um território que ainda lutava e ambicionava chegar a país, para o velho general estabelecer a sua ignota rota de comércio… de ópio. Desonrado e com as poucas riquezas que conseguira trazer consigo do recuante império, o antigo general não sentia dever nada a ninguém, nem ao império ao qual já não pertencia. Aproveitando-se dos conhecimentos adquiridos enquanto ao serviço do império, estabelecera uma das principais portas de entrada de ópio para a virgem Europa.

Os séculos correriam céleres e prósperos pelos Ben Shahar, naquele cantinho que, poucos anos depois, um tal de Afonso Henriques fundaria como Portugal, e no canto desse canto, o qual um tal de Duque de Alguidares de Baixo e de São Pedro baptizaria, decorridas gerações, já o velho general se fizera pó, Alguidares de Baixo.

Lentamente, a fortuna dos Ben Shahar crescera e esta, ao tráfico de ópio, começara a ser aplicada pelos vários descendentes do general a outros negócios, legítimos, desde agricultura a vários investimentos bem sucedidos nas colónias, embora as antíquissimas rotas do ópio se mantivessem activas e, com a passagem do tempo, se tivessem desenvolvido.

Porém, a verdadeira história começa com o meu bisavô, um simples mas modestamente abastado comerciante e produtor de vinho sintético, Miguel Ahmadinejad Ben Shahar, ainda Portugal recuperava da guerra civil e vivia os primeiros e tímidos passos do liberalismo. De muçulmano, Miguel já nada tinha, se não o nome. Embora não fosse de estirpe nobre e nem sequer lusa, o pai de Miguel pagara a alguns dos melhores colégios europeus para garantir a educação do filho. Após a morte do pai, Miguel herdou um negócio de séculos de idade: o tráfico de ópio. O seu pai aplicara o dinheiro em negócios mais tradicionais e trouxera ao nome da família respeito e boa reputação, principalmente, pelas suas férteis vinhas, que deram origem à produção de vinho sintético daquela região. Ainda um jovem boémio, apesar de responsável pela gestão da pequena fortuna e negócios da família, Miguel esforçava-se por conciliar a sua vida, muitas vezes sem sucesso, entre as responsabilidades e a noite boémia. Apesar de alguns desafortunados negócios perdidos á mesa das cartas, era um homem capaz e próspero e, no seu território, ímpar.

Pelo menos, até à chegada dos Solitário, aqui, terra a qual um recém-chegado duque, que se encontrava nas boas graças do liberal D. Pedro, acabou por baptizar Alguidares de Baixo, terra cujo nome original foi imediatamente apagado da memória de todos após a chegada dos Solitário, terra onde ainda me encontro e de onde relato esta história.

Estávamos em plena Regeneração, os franceses lá se tinham ido de armas e bagagens, o Rotativismo ensaiava os primeiros passos e no Casino um tal de Eça fazia furor. Tudo no ar augurava mudança. Nada seria como dantes. Mas, como a história se encarregaria de provar, os Ben Shahar estavam em Alguidares de Baixo para ficar.




«Shall I kill him?» talvez não continue, mas fica aqui um desafio.

21.2.08

Axiomático, sinto-me axiomático



Ours is not the business of corresponding to people’s moral-aesthetical codes, established behavioural patterns or even to meet people’s expectations. Neither is to pass judgment on those principles, attempt to exert control over them, or in anyway alter their superstructural continuation. Rather, our business is the one of perpetually thwarting people’s expectations, subverting their perceptions on the infrastructural level and thus somewhat piercing their superstructure, but without really puncturing it, at least apparently. The higher the degree of subvertion on the basic infrastructural level, that of pure perception, the better will we go about our business, properly speaking.

No matter how readers arrive, they must leave somewhat baffled and captive of a certain perplexity. It must be an enduring one for our business purpose, otherwise they will not come back, and our business will have been of no consequence. The more they come back and get hooked on being thus troubled, the more will our business prosper.

If our business is to be successful, however, we must also depend upon conventional, non-innovative, style tools. These have been laid out a long time ago, and seem to be more or less universal; meaning that without them no text shall ever serve any purpose whatsoever, much less will its impact on consumers be of any significance.

Cohesion, of course, is extremely important. And so is rhythm.

Nonetheless, our business must always be keen on I&D developments, experiments, seizures, ruptures and the kind. It’s been proven possible to express cohesion without proper grammatical cohesive mechanisms. The same holds for rhythm. Both notions can and have been endlessly manipulated in a way that they succeed in causing damage on the infrastructural level. And this process went into full gear in most fields of knowledge as early as the nineteen century. Of course, this also led the way to increasingly nihilistic approaches on businesses such as ours, who would culminate more or less after World War II in a flood of relativistic modern abstract artistic movements.

So, the goals of our business should be and sometimes are a combination of the art of bewildering with the probably most appropriated stylistic tools available to express it. This is not to say thar we are in the business of causing pain, but rather that ours is the business of disrupting the reader’s perspective, through the inducement of perplexity. The higher the degree of perplexity we instil on readers, the higher will we succeed in the prosecution of our business goals.


19.2.08

Coisas que odeio... hoje


1 – Professores franceses.
2 – Professores energúmenos (passe a redundância).
3 – Rede de transportes públicos da vila de C.
4 – Telemóveis com bom sistema de som em locais públicos com decibéis a mais a tocar kizomba.
5 – Proprietários dos referidos telemóveis.
6 – Lamaçal à porta de casa.
7 – TMN.
8 – «Bónus»
9 – Telenovelas
10 – Não ter um décimo factor para odiar, mas, também a noite até foi modestamente…fixe. Pronto… migalhas na cama.

Estas são apenas algumas das coisas que tornaram o meu dia tão especial. Hoje, odeio este conjunto de coisas e, certamente, amanhã continuarei a odiá-lo, sendo sempre uma lista em crescendo. O ódio não é como o amor. O amor é daquelas coisas que vai e vem, uma memória querida, um presente agradável ou uma ânsia que chegue. Já o ódio entranha-se em nós como o fedor nos ténis depois de um jogo de futebol. Por exemplo, odeio o ponto 1 e, por consequência, o ponto 2. Se sempre os odiei? Não, pois nem sempre existiram. No entanto, desde que me apercebi da sua existência que os odeio profundamente e tenho a certeza de que continuarei a odiá-los enquanto existirem. Assim, os ódios não vão nem vêm, antes acumulam-se e multiplicam-se como coelhos na época do cio, todos os dias, durante toda a vida. Penso, até, começar a elaborar um pequeno diário do que odeio, consultá-lo mais tarde com os netos e recordar-me desses ódios de juventude, constatando, não sem uma ponta de ironia, como continuam a ser actuais.

E vocês? O que torna o vosso dia tão especial quanto o meu?

17.2.08


Multiply it by infinity, and take it to the depth of forever, and you will still have barely a glimpse of what I'm talking about.

14.2.08

12.2.08

Pensamento da noite

I have an important message to deliver to all the cute people all over the world. If you're out there and you're cute, maybe you're beautiful. I just want to tell you somethin' — there's more of us UGLY MOTHERFUCKERS than you are, so watch out!
Frank Zappa

6.2.08

Shall I kill him?



Tenho uma confissão a fazer. É a medo que a faço. Não é fácil vir aqui e do nada revelar a minha mais mesquinha verdade. Mas ela não deixa de ser verdadeira e, se assim o é, mais vale que confesse tudo já - agora - do que continuar silencioso, vivendo na angústia que este segredo me provoca.

Eu, sim, eu, o Luís Lobo Solitário, moi méme, aqui o je, eu - eu vivo no campo. Não vivo em Bruxelas, nem em Marrocos, nem em Londres ou Paris, nem sequer em Lisboa ou no Porto, mas sim no campo - aqui - em Alguidares de Baixo.

E, o que é pior, apesar de ser um tipo viajado, um moço que já foi a França e à Rússia, é em Alguidares de Baixo, nesta quintarola lúgubre que os meus pais me legaram, que me sinto melhor, é para aqui que eu volto, ainda e sempre quando desejo sentir-me em casa.

Alguidares de Baixo é um terra bonita, onde se faz bom vinho sintético e onde as pessoas conseguem ser ainda menos simpáticas do que no metro de Lisboa em hora de ponta. São todos uns brutinhos em Alguidares de Baixo, mas nem sempre assim o foram.

A minha história, a história dos meus, começa no dealbar do século XIX, longe de Alguidares de Baixo, começa algures numa praia do Norte que ainda hoje ostenta o nome de Mindelo.

Esta história, a história da minha confissão, e a história de Alguidares de Baixo, começa lá atrás, ainda Alguidares de Baixo não se chamava assim; ainda Alguidares de Baixo era apenas uma terreola sem nome, até que, vindo das profundezas da minha árvore genealógica, surgiu o meu trisavô paterno: um soldado que subiu a pulso nas fileiras do exército de D. Pedro, um guerreiro que se bateu pela Pátria e que foi meu trisavô e, antes disso, Duque de Alguidares de Baixo e de São Pedro - o título que o Rei lhe conferiu, logo após os partidários do seu irmão Miguel terem sido vencidos e definitivamente enviados para o caixote de lixo da história. Uma chatice, mas não é dessa história que vos vou contar.

Tudo começou aí. O meu trisavô, um homem rude, um camponês feito soldado, general e por fim Duque, e de quem, reza a lenda, se dizia que até aos noventa anos, quando morreu, bebia cinco litros de vinho por dia e deitava duas minhotas por noite. Enfim, reza a lenda e eu, sei lá o porquê, acredito.


Foi ele o homem que pôs Alguidares de Baixo no mapa e é, em parte, por causa dele que aqui me encontro, ainda em Alguidares de Baixo, a escrever estas linhas, quase 200 anos depois.

O meu trisavô, se o julgarmos pelos parâmetros de hoje, era um homem mau. Para terem uma ideia de como ele via os seus semelhantes e o seu mundo, quando quis casar, foi ao Porto e comprou lá a sua mulher, a um nobre falido, pelo preço de cinquenta barricas de tinto, quatro juntas de bois e dois porcos: um macho pronto a cortar e uma fêmea prenha de quatro leitões cujo destino não ficou registado nos anais da história dos Solitário.

Dessa mulher, Dona Maria Vicentina, uma senhora austera mas justa, pia mas não beata, teve nada menos do que catorze filhos - treze raparigas e um rapaz, Dom Júlio Solitário, que mais tarde viria a ser meu bisavô.

O meu bisavô tinha noções esquisitas para o seu tempo. Fora mandado pelo pai estudar em Paris e de lá viera com ideias demasiado liberais para a época. Ao que consta, tinha gostos estranhos na escolha das suas amantes, dizem as más línguas que não escolhia amantes, mas antes os amantes e, apesar de herdeiro único da fortuna que seu pai amealhara, quase fora deserdado, ou não fosse meu trisavô um homem de sólidos princípios morais.


Estávamos em plena Regeneração, os franceses lá se tinham ido de armas e bagagens, o Rotativismo ensaiava os primeiros passos e no Casino um tal de Eça fazia furor. Tudo no ar augurava mudança. Nada seria como dantes. Mas, como a história se encarregaria de provar, os Solitário estavam em Alguidares de Baixo para ficar; para ficar até hoje, altura em que, finalmente, o último descendente dos Solitário, eu próprio, registo neste blogue a saga da família e em simultâneo o seu segredo e a minha confissão.


«Shall I kill him?» continua (talvez) amanhã.


5.2.08

Respect



I don't know what notions you guys have on respect, but I’m sure they're about to change. Respect is personal. Besides, within each person, notions differ with time. Even if they are big fat words such as respect, even if they don't change that much with time within the individual beings themselves, them being so stupid and so eager to conform, one thing I'm sure: they differ from person to person.

My notion of respect is different from yours and vice a versa and if that be so there's no fuckin' respect to start with and I hate that, I might even track you down and incarcerate your useless blog, hide it from site, hide it from you - just for starters. Got the picture? Either you respect these fuckin’ words or I’ll kill you. Is that understood?

Does this mean you cannot define respect? Maybe it does, but nonetheless I got a good definition for respect, if you take it as a verb: to respect someone or something is not to mess with it or her/him.

What does this mean? For instance, I take a cruise into some whorehouse (banal stuff for yours truly) and light up a cigarette just as I approach the bar, looking mean (whores dig that, come to think of it, not only whores but a whole bunch of women dig the man fatale routine). Now, the bartender, a nice guy fresh out Alguidares de Baixo, politely asks me to put it down.

The cigarette, not the act or whatever else might be straight unbending and up by then.

He says «it's not allowed to smoke» in the joint. Politely, I reply I will not put it out. Not 'cause it's giving me cancer, not 'cause I’m fed up with smokes, just cause the Alguidares de Baixo vigilante mentality does not suit my mood. I say to him that whores like my smoking act and since it works all the time I’ll not oblige by his request. Am I being unrespectful?

Remember, it's a whorehouse. It's not legit to start with. So the guy calls security (two ex-cons) and before I can have a final drag, there I go, out of the whorehouse for good - «And never come back, you unrespectable son of a... er... son of a respectable woman.»

Now, was that respectfully of him? Having me throw out, just like that, in front of everybody?

Sure it was. The guy was more than respectful, hell, he was a friend, come Xmas I might even buy him a pack of Marlboro’s!

You see, this schmuck just saved me at least 50 euros, (50 euros I couldn’t afford to spend on a lousy whore that could even give me AIDS) and, moreover, in those magnificent few moments, the guy from Alguidares de Baixo abided by the best definition I got for respect: to respect is to respect thy neighbour’s property. And so he did, even against my momentarily twisted will.

So, respect and property are deeply bounded. PROPERTY. Respect.

I guess I could go on and on, just trying to establish what property is and what is the nature of the relation between property and respect. But I’ll not dwell with it for much longer. First of all, you’re tired of reading this lame text of mine; second, I respect you. Third, I love the Blues. I love shades of grey mixing in the black and white of reality.

Now, the Blues, they ain’t got respect for nothing. The Blues are about deconstructing respect, while tuning it. It’s true. Don’t believe me?

Fine. Just have some, with or without respect:

Este blogue...









Não tem um pingo de decência...

Encontro marcado com a Laurentina


- Mas, sabes, a cerveja moçambicana é do melhor.

- Bem, Moçambique – 1, Portugal – 0.

- E estive numa praia paradisíaca mesmo. Vi centenas de caranguejos à beira mar e nunca tinha andado nem nadado tão debaixo do céu como neste fim-de-semana.

- Pois… hoje choveu. Felizmente, gosto de chuva.

- Nunca vi um céu como este.

- Aproveita-o bem, então, e escreve sobre ele, e sobre o mar e até sobre os caranguejos e sobre o sabor da cerveja. Quero saboreá-la ao lê-la, ver o céu nas linhas e sentir o mar nas palavras. Conto contigo para me mostrares Moçambique.

- Ok, comprometo-me com isso.

4.2.08

Searching for the heart of Monday




They tell me that in this world a remarkable citizen has gone of to India to buy himself a kidney. They tell me that somewhere in this world, a not so remarkable citizen who spent his life in camp in Palestine has gone off to blow himself in the company of a stranger. They tell me, and I don’t believe, that tonight a man, just a simple man, a man like you and me, got arrested, ‘cause he was buying drugs. They tell me, I don’t believe.

Do you dream in foreign languages? I sometimes do.

Are you into gambling? I like to gamble. I’ve been gambling all my life. Had some bad calls here and there, but so far so good. I smoke too, for medicinal purposes, that is. And I fuck, that’s another thing I like, not only for medicinal or gambling purposes, merely ‘cause I’m not that bad at it and as the song goes, I like it, I like it a lot.

Are you into foreign women? I am. Got this thing about redhead gals. No redhead gals in my country, though. That’s a bummer. Well, we got good Colombian weed, kind of makes up for that flop. And brunettes. We got tons of them bitches. Makes a man sick.

Now, you tell me: if I dream in foreign languages, i.e., I jerk off when I watch Madonna on the box, and I’m into gambling, i.e., I occasionally tell the old octogenarian sod living on the First Right Floor to go and fuck herself with a plumber’s fork, why is it I never got it off with a redhead gal? I mean, never, God forbid, never, God Almighty be my witness, never did I get it off with a redheaded woman!

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Fuck it, it’s Monday and I’m babbling in a language I don’t even know how to handle properly. God, I just wanted a redhead gal to start with. Is that too much to ask? Is it? Just a plain, slim, nice assed, firmly boobed redhead gal, to make me happy? Is it?

Damn. It’s not fair. The worse bit is I’m sure as hell I’m not gonna find her here. Then again, since I’m a gambler and I haven’t got much to lose, at least not here (but then this is not such a gamble, is it?) I say to all the redheaded gals who come here and happen to read these few honest words, I say to them, save me, from the deeps of my soul I say save me or else I’m able to write and guarantee that they can find their husbands somewhere else- but not here.

Isn’t it nice to play with words? It’s even nicer if you do it with words you’re not as familiar as those you play with every day, such as, for instance, your native language words. Shitless words such as boujour, aufwierdershen and boa tarde. Forgot about that, forgot all about those silly words that don’t mean shit, haven’t you? You forgot about all right, but guess who’s here to remind you?

You don’t really care about that, do you? Your identity is not made up of words, now, is it? Of course it isn’t, you’re like that sign some idiot had inscribed on the wall of a Faculty of Knowledge (bah, that’s a joke) a sign shouting to all those nice slick redheaded gals: “I’m not European; I’m a citizen of the world”.

Ah, words, lovely words, they came and go so easy. So easy. Words are like sluts. Words stand for nothing. Deeds, on the other hand, deeds are important. You can judge persons on their deeds – not on their words. There’s a thought of the night for you. There. Got something out of it myself. Who knows, might even get laid over them, those meaningless words I keep babbling.

Do you like to play with words? I sure do, if I didn’t, do you actually think I’d waist time writing this? Hell no, I’d be out in the city, preying on redheaded gals.

Ok, I got to hand it to you. If it wasn’t for you – I mean, you, the reader – Why should I write them in the first place? Ah, you got me there, maybe I just play with words ‘cause I like them and I don’t give a toss if you like it also.

Maybe that’s true. But let’s get back to the beginning, shall we? Gals… Sorry, wrong number. Starting from the beginning: Do you dream in foreign languages? Do you ever have the “feel” you belong somewhere else? Do you ever think of doing something about it while you avidly scroll down this text and hope you can find here – of all places!!! – Something that will bring joy, happiness, who knows, even meaning, to your washed up excuses for staying alive?

See, that’s just what I’m writing about. (Gals, beautiful slender redhead gals) You haven’t got a clue, have you? Let me enlighten you. As you scroll down the page pretending these words haven’t got an hold on you, yes, right now, you, and yes! People all over the world are being born (gals..) – some – and dying – (old farts) some others.

Now, isn’t that unfair? We’re all dead! They’re all dead! See? That’s what I’m writing about. In fact, I think I’m done writing. If you’re all dead, if all the gals are dead, why should I bother? Besides, I’m dead also.

It’s not me writing these words, my intellect has been taken over by Terminator 2. Son of a bicth, couldn’t be content with California, oh no, bastard had to come here, impersonate my beloved Vanessa and get his kicks out of telling you all words such as: “I love gals. Gals better watch out for me. I’m pussy eater. My next victim is already aligned.”

Pois.

And so, folks, have a nice death. I’ll try and do the same. See you in the afterlife, maybe. Nonetheless, since that’s such a big maybe, all redheaded gals who happen to read these words – hey babies, how are you? – the future is out here, and awaiting.


They tell me that in this world a remarkable citizen has gone of to India to buy himself a kidney. They tell me that somewhere in this world, a not so remarkable citizen who spent his life in camp in Palestine has gone off to blow himself in the company of a stranger. They tell me, and I don’t believe, that tonight a man, just a simple man, a man like you and me, got arrested, ‘cause he was buying drugs.

They tell me, he died in prison this night, he died in prison cause he got caught buying 50 dollars worth of cocaine this night. They tell me - I don’t believe.

Post-scriptum:

- E que tal um post no velho tasco?

- E que tens em mente?

- Sei lá, mexer com a cabeça das miúdas, baralhar-lhes as ideias, afinal, preciso de uma namorada no Norte do país.

- Sim, de facto!

- Boa! Anda preciso da tua imaginação, vá. Vá!

- Mas é uma mensagem para alguém em particular?

- Bom, se não for para a Matilde pode ser para a S.

- Oh? Quem é a Matilde?

- É o infinito, é a vida que se encontra para lá desta vida. É difícil definir o infinito.

- Hm... a Matilde bem que podia ser mais simples, como o fundo da garrafa de whisky. É que escrever para o infinito é meio complicado.

- Talvez. Simplesmente, a Matilde é bela – como nem as estrelas do sistema solar, ou o infinito do universo sideral alguma vez poderá ser. A Matilde É. Ponto.




Golpe de Estado abortado

Neste fim-de-semana, indivíduos mal-formados efectuaram um ciber-ataque a O Lado Negro Da Lua. Felizmente, foi possível contrariar os seus nefastos planos e devolver a normalidade a este blogue de referência. Isso dito,


Boa semana para todos!

3.2.08

Pensamento da noite


So, you are obviously the big dick. The men on the side of ya are your balls. There are two types of balls. There are big brave balls, and there are little mincey faggot balls. Now, dicks have drive and clarity of vision, but they are not clever. They smell pussy and they want a piece of the action. And you thought you smelled some good old pussy, and have brought your two small mincey faggot balls along for a good old time. But you've got your parties mangled up. There's no pussy here, just a dose that'll make you wish you were born a woman. Like a prick, you are having second thoughts. You are shrinking, and your two little balls are shrinking with you. And the fact that you've got "Replica" written down the side of your gun. And the fact that I've got "Desert Eagle .50" written down the side of mine... should precipitate your balls into shrinking, along with your presence. Now... Fuck off!
Blue Tooth Tony,
Snatch

2.2.08

The sting

I'm gonna get a clean cut shave and i'm gona get laid. It's saturday. I got the bucks i got the spirit and i got the moment. Plus, i got timing. Ciao.

O golpe do Francis

No dia em que Francis bateu a sua última cartada, no dia em que o fez com o fair play do jogador estampado no rosto e na casaca, na tarde em que se despediu dos vivos com um «até já» e se lançou de peito solto à sorte dos deuses da solicitadoria, à aventura da vida em slow motion, ao receio do «paga depois porque hoje não é dia», à conquista da sua última stand up fight, qual man alone against t’world, bafejando a atmosfera em redor com o sabor adquirido da convicção de um cão assustado cruzado com um gato horrivelmente encurralado, neste dia, por agora - sinto-me orgulhoso. Go.

30.1.08

Coisas que me fazem feliz

«The Betti numbers of an object describe its features, such as the number of its components or the number of its holes and cavities. An object has one more Betti number than it has dimensions. One-dimensional objects such as the circle have two Betti numbers, two-dimensional objects, such as the surfaces of balls, pretzels and bagels, have three Betti numbers. (Recall that solid spheres and bagels are three-dimensional objects. The surface of spheres and bagels, i.e., their skins, are two-dimensional.) Intuitively, the k-th Betti number counts the object's k-dimensional connectivity or holes.»


Faz-me feliz ser capaz de ensaiar a tradução de uma passagem como esta sem atirar com o computador contra a parede; sobretudo da última frase.

27.1.08

Os dias antes de Matilde

Acordei tarde, deveria passar das dez. Tomei um duche, fiz a barba e mentalizei-me de que tinha de lavar a louça de ontem antes de me pôr a beber. Mas, antes disso, ainda de pijama, fui à mercearia e comprei cinco garrafas de cerveja. Voltei para casa, lavei metade da louça e, como prémio, mandei duas abaixo. Então, desci ao quintal, fui ver como estavam os gatos, passei no senhor Augusto, tomei um café, e vim acabar o que faltava: uma série de copos que gamara algures e uma catrefada de talheres sujos da véspera. Quando terminei, bebi as cervejas que haviam sobrado.

Olhei para o sol e verifiquei que eram quase horas de almoçar e ainda não comera nada. Mas estava bem disposto. Tomei mais um duche, enxuguei-me, vesti uma camisa de Verão, perdi mais de uma hora à procura das chaves do carro – tenho sempre a mania de as esconder de mim próprio quando chego perdido de bêbado a casa, desta vez estavam no interior da caixa da sanita – e, então, de óculos escuros, arranquei em direcção ao bar do Ferro.

Chego ao bar quando batem as duas da tarde. Não está cá mais ninguém, só eu e o Ferro, o que é sempre bom porque assim tenho tempo para o “amaciar”. Vemos televisão e jogamos às damas. O Ferro não gosta de perder às damas e – como sabe que quanto mais bebo pior jogo – fia-me logo uns dois ou três vodkas. Depois é sempre a abrir. Bebo sem parar e o Ferro parece feliz cada vez que aponta no seu livrinho mais uma dívida minha.

Após meia dúzia de derrotas e de uma inédita vitória sinto-me contemplativo e pergunto-me do porquê de o Ferro, aparentemente, gostar de fiar álcool - às pessoas em geral - e a mim em particular. Será o Ferro judeu? Será que é porque sabe que eu pago sempre e assim tem-me sempre na mão? O Ferro é um tipo estranho, mas, ao quarto ou quinto vodka fiado, apenas me parece ser a pessoa mais generosa do universo.

Entretanto, chegou o Sr. João. É um cabo-verdiano que ganhou a lotaria o ano passado e que, desde então, como não sabe o que fazer ao dinheiro, esbanja-o no álcool e nas piores companhias possíveis. Aproveito que madruguei para lhe cravar cinco contos. Acabou de ir ao banco e ainda não se encontrou com ninguém. O pior é que exige sempre um preço pelos cinco contos. É um homem ligeiramente enfadonho, o Sr. João. Na sua companhia o tempo passa devagar, está sempre a queixar-se, ou disto ou daquilo e, como na verdade empresta-me sempre guita, sou forçado a escutá-lo pacientemente.

Nisto são cinco horas da tarde e perdi todo o interesse. Despeço-me com um até já, enfio-me no carro e regresso a casa. Deixo-me cair na cama e adormeço logo. Acordo com mau hálito, a boca seca e constato, para meu desgosto, que já é noite. Não sei que horas são nem tenho relógio, mas isso não me preocupa. Tomo o terceiro duche do dia, abro uma lata de sardinhas e uma garrafa de bagaço empoeirada, que ficara esquecida pelo anterior inquilino a um canto da dispensa.

Cozo as sardinhas enlatadas e também um esparguete que comprei há dias. Não sabe lá muito bem, esqueci-me de juntar sal, mas o bagaço não é mau de todo. Quando acabo, atiro os pratos para o lava-loiças, onde depois faço a barba e lavo os dentes. Calço os sapatos e arranco, desta vez a pé, outra vez até ao bar do Ferro.

Só agora me lembro de que não mudei de camisa desde que acordei e reparo com desgosto que ela está toda amarrotada. Já estou a meio caminho, mas resolvo voltar para casa. No regresso, pergunto as horas e fico a saber que passa das dez da noite. Não é mau de todo.

Chego a casa e dispo a camisa. Aproveito e dou mais uns goles de bagaço, só para ganhar forças. O bagaço descontrai-me e deixa-me sonolento. Ponho uma cassete do José Mário Branco e aqueço café numa chaleira velha e suja. O café sabe-me bem, quase como se fosse uma beberagem exótica e a música ainda me anima mais o espírito. Desligo tudo, visto uma camisa pasada a ferro e saio para a rua. Já é tarde e resolvo ir de carro para poupar tempo.

Chego à rua do bar do Ferro e não tenho sítio para estacionar. Não há problema, estaciono em segunda fila. Vem logo um tipo perguntar-me se não quero nada e eu, só para não parecer indelicado, compro-lhe um conto de haxixe. Entro no bar e o Ferro, que observou a transação de esguelha, não parece satisfeito. Cumprimento-o, saco de uma das notas que me sobrou do empréstimo do Sr. João e peço whisky.

Bebo a noite toda. Já não sei quantos whiskies bebi. Umas gajas meteram-se comigo e fumámos umas ganzas – haxe delas, que o meu é privado e só o comprei para não parecer antipático. O tempo passa lento até que há uma rixa. Dois mauzões que, ao que parece, têm maus vinhos. Mas a diversão termina com um abraço patrocinado pelo Olívio, um cigano de meia idade que por vezes me parece demasiado íntimo do Ferro, quase como se o Ferro tivesse medo dele.

A música volta a fluir e o álcool também. Estou quase a ir-me embora, quando aparece o Miguel Ângelo, um tipo engraçado que, ao contrário do Ferro, gosta de jogar xadrez. Jogamos duas partidas. A primeira vence ele, a segunda eu. Combinamos o desempate para outro dia, contamos a guita que nos sobra e acabamos a cravar mais dois vodkas ao Ferro.

É quase uma da manhã e malta está toda a bazar. O Miguel Ângelo pergunta-me se não quero ir com o pessoal ao Lux, mas, então, saída de um taxi, chega a Bibi. Vem sozinha. Digo aos gajos para se irem embora, «bazem, bazem», e fico só eu, o Ferro e a Bibi.

A Bibi é a mulher mais sexy que conheço. É alta e elegante. Tem cabelos ruivos, compridos e os olhos azuis, penetrantes e inteligentes. Usa mini-saia e fica-lhe bem. Aqui há dias estivemos a beber juntos e depois dei-lhe um linguado que me me valeu uma estalada, mas não me arrependi. Parece ausente, hoje. Que merda a Bibi estar a entrar num mundo de onde acabo de sair. Convido-a para beber um vodka, ela aceita e pergunta-me logo se não tenho droga. Respondo que não uso disso e ela sai porta fora. O Ferro tinha ido à arrecadação e, no regresso, estranha a ausência dela. Quando me olha, compreende.

São duas da manhã e estamos a jogar às damas. Perco o quinto jogo consecutivo. O Ferro está tão feliz que até me oferece um último whisky e se disponibiliza para me estacionar o carro em frente ao tasco e me levar a casa no dele.

Recuso, educadamente. O Ferro intima-me a fazer o quatro. Respondo-lhe que só os ébrios o fazem e, desejando-lhe boa noite, saio, entro no carro, ligo o motor, aceno-lhe e disparo para casa.

...

Acabo de estacionar à minha porta. A Antena 1 informa-me que são quatro da manhã. Está alegre, o locutor. Demasiado alegre. Demasiado superficial. Fecho o carro, abro a porta do prédio, subo as escadas e entro em casa. Senti-me tentado a fazer como de costume, senti-me tentado a fazer uma barulheira tremenda e com isso acordar a vaca da octagenária que mora no andar debaixo. Sei lá porquê, hoje não me apetece. Ligo a aparelhagem e levo com as últimas palavras da música do JMB. Sou diferente dele, penso. O meu nome não é artístico, nem eu tenho talento de artista. Sou apenas um gajo a quem os pais (ou melhor, o meu pai, visto que a minha mãe morreu ao dar-me a vida), puseram o nome de Jorge.

Tenho 32 anos e não sei o que vou fazer. Os meus dias são assim. De casa para o bar do Ferro, do bar do Ferro para casa. Será que vale a pena? «É claro que vale a pena», diz-me uma voz que não reconheço.

Sou o Jorge Braga Melo. Tenho 32 anos e não sei o que ando aqui a fazer. E é assim que eu vivo os meus dias. É assim que os dias passam por mim – É assim que eu vivia, era assim que eu era - antes de Matilde.

25.1.08

Só para «linguísticos», amadores de gramática ou mestrandos em assuntos afins

People, tou com um problemão. Tenho aqui a minha baby (ela diz que não o é), ao lado e ela teima comigo que se pode dizer "foi-mo". Assim mesmo: "foi-te entregue o livro? Foi-mo." Eu, digo que não, que não pode ser. Do meu ponto de vista, o livro "foi-me" entregue, ponto. Agora, estou na dúvida, coisa que detesto. Gostaria de vos perguntar - em particular a ti, meu discípulo, se "foi-mo" existe. E, se não existe, gostaria que me explicasses o porquê.

Abraço, o vosso sempre fiel,

LS.

24.1.08

Cinco tostões de cérebro após a meia-noite

"Mary gave birth to Christ without having known a man's touch, that's true. But she did have a husband. And do you really think he'd have stayed married to her all those years if he wasn't getting laid? The nature of God and the Virgin Mary, those are leaps of faith. But to believe a married couple never got down? Well, that's just plain gullibility."

Personagem de "Rufus", no filme "Dogma".


Que saudades de bater

Isto acontecia muitas vezes sempre que me drogava. Esquecia-me de que estava ao volante e adormecia e depois, depois - passe a rima e a cacofonia - batia, chocava, vá, ia de encontro a. Então, passei a ter outro tipo de vida e deixou de acontecer. É uma chatice. Era tão bom mandar pelo menos um carro por semana para a sucata... Tão bom ver as feições estupidamente alteradas do meu chefe, quando, com a pronúncia mais neutra, mais impecavelmente neutra que se possa descrever, tinha o prazer de lhe comunicar: «André, tenho más notícias: houve um tipo que me abalroou o carro da empresa...» Ah, que saudades da visão das veias que se lhe inchavam no pescoço, da voz que se lhe embargava na garganta, dos dedos que ele conseguia quase evitar que lhe tremessem, um segundo antes de, em virtude de não me poder despedir (que querem, o filhinho do papá não se despede assim sem mais nem menos), me responder, quase calmo, quase refeito de mais uma despesa de milhares, quase como se fosse um filósofo estoico na presença da erupção do Vesúvio, que «não faz mal Luís, não há problema», sabendo eu e o gajo que havia mais do que problemas envolvidos na minha acidental circunstância... Ah... Que saudades de ir aos cornos do ex-gerente da Smith & Nephew em terras lusas, sim, que saudades de te partir a tromba, meu caríssimo, meu saudoso André Santos.

PS- It's pay back time- bitch.


22.1.08

22-01-2008




LDT 22 – 01 –2008
Sumário

Aula extremamente interessante. Estamos há quase duas horas a vegetar e a apresentar textos que não vão servir de nada para o nosso futuro. De facto, a aula decorre no preciso momento em que escrevo isto e, embora neste (naquele?) momento este texto sirva apenas para horar, a verdade é que, agora (sim, neste momento, não naquele), penso já em dedicá-lo ao leitor. Como ia dizendo, a aula decorre no acto da escrita e apercebi-me de súbito que me estou a cagar, porque não dizê-lo?, para os adjectivos axiológicos, positivos e negativos, nenhum escapa, para a etopeia, para as prosopografias por esse mundo espalhadas ou para o sistema de relações dos tuaregues, dos vikings ou dos piratas, paz às suas almas!, e para a casa assombrada do Poe (atenção, notícia de última hora, parece que os tuaregues têm rebanhos e há quem afirme que tenham, inclusive, cavalos). (Bocejo) (2º bocejo) (Bocejo longo, breve lacrimejar de tédio e… bem, somente tédio). – Exacto! …não estou a perceber, - exclama a professora num súbito clarão de compreensão cósmica que, como já vem sendo habitual, depressa se esvaneceu no vazio do pó cósmico que é a sua mente, um planeta morto. – Ah, o pronome, sim. Tenho fome… neste momento, a única relação que quero ter com adjectivos, substantivos e afins é que estes se traduzam em bife tenro e suculoso (Mia Couto, rói-te de inveja!) com batatas fritas e, de preferência, com uma cerveja bem fresca a acompanhar. Não obstante, estimado leitor, nem tudo são rosas numa aula de LDT. Aprendi, também, uma coisa muito interessante, de entre as muitas que tenho vindo a aprender nesta aula, tais como err…. e hm…, mas bem, uma coisa muito interessante, colegas mestrandas que consideram que a expressão inglesa comic book se traduz como «obra cómica». Não é grave (pronto, é!), apenas estúpido, a sua carreira que se foda, em bom inglês, não podia dar menos do que uma foda para a carreira delas que, aliás, dará, com toda a certeza, uma poderosíssima obra cómica, assim como o primeiro número do Tio Patinhas. O que na verdade me aborrece é que, quando chamadas à atenção, insistam na idiotice e digam comentários geniais como «fica em aberto» ou «aqui julgámos que não se adequava traduzir comic book como banda desenhada». Como diria o meu bom amigo George Carlin: Fuck'em! E, mais interessante ainda, não fosse a intervenção magnânima e com um perfeito sentido de oportunidade deste vosso criado, passaria ileso pelo escrutínio rigoroso da profesora que, com todo o seu conhecimento sobre tradução, inglês e português já ia dizer: “entõn, vamos passarrr ao prrróximô grrrupô.” Não é ser picuinhas, também dou erros em tradução, muitos e até imbecis, mas, que fazer?, cáustico, sinto-me cáustico… Talvez não estivesse a rabiscar isto no caderno se a aula me ocupasse devidamente com algo interessante e desafiante. Agora, são os alemães. Escusado será dizer que não percebo ponta d'um corno; por outro lado, a professora também não, mas, como já tiveram várias oportunidades de perceber, isso já é cour du jour. São 14:00 e parece que o meu grupo hoje já não vai apresentar. Mas isso é somenos! É o melhor grupo e com as miúdas mais giras. Além disso, pode contar com o génio do B. e com o meu profundo conhecimento sobre… aahhh… E os alemães lá vão, lado a lado com o Goethe e com o Barrento, em Nápoles (ou será no Nepal?), a discursar sobre o processo de enchimento (de chouriços?), a blitzkriegar a malta como se não houvesse amanhã. E assim se vai mestrando em tradução, a gozar a vida, meio etopaico, meio prosopográfico. Ah, duas horas em ponto! Chow time! Não sei que fim dar a este texto. Dei-o a ler à S., ela riu e, no final, é o que interessa.
There is no hell. There is only France.
Frank Zappa

17.1.08

Do belo e do bem



O belo e o bem são por vezes intermutáveis. Mas nem sempre. Se assim fosse como explicar a excelência estética patenteada pelo movimento Nazi? Como explicar Triumph des Willens e Leni Riefenstahl? Como explicar Albert Speer, arquitecto da Reichskanzlei e, mais tarde, todo poderoso ministro dos armamentos do Reich? Não nos iludamos, a estética fascista, muito mais do que a comunista, revelou artistas de génio em diversas áreas, do filme à arquitectura, passando pela moda, com Hugo Boss a desenhar os belíssimos uniformes de gala das SS. Hoje, em virtude de, subjacente a esse movimento artístico, estarem valores que consideramos condenáveis, condenamos também a estética fascista, muitas vezes erradamente e de forma primária.

sítios: Nazi Architecture; Nazi Aesthetics; Arno Brecker.

16.1.08

Pensamento de fim de tarde

Júlio não chegou a Frankfurt. Teve um acidente. O piso gelado não ajudou. Foi transportado para o Hospital de Bona - demasiado tarde, ou assim pensam os primeiros automobilistas a acercarem-se do local do sinistro. Em Lisboa, Carlos, amaldoiçoando Marisa e a sua beleza opulenta, saiu da repartição e caminha para casa da mãe – frustrado. Mais a norte, Luís acaba de passar por Famalicão e sente ganas de comer umas papas de sarrrabulho: resolveu pernoitar em Ponte do Lima; Maria está cada vez mais perto dele e a fome do caçador, açoitando-lhe a condução, ainda lhe aguça mais o apetite. Na Almirante Reis, numa tasca conhecida por “Ferreira’s Bar”, João deu um snif de coca na casa de banho. Está alerta e acompanhado; recebeu um telefonema absurdo: um tipo que lhe ofereceu um pagamento extravagante por um serviço fácil embora aborrecido. Aceitou e resolveu pôr a garrafa de parte e investir no seu único capital – ele próprio: João é um homem de necesssidades caras quando não escreve e, quando não bebe, não escreve. É um fim de tarde normal, um fim de tarde de quarta-feira.


14.1.08

Do Belo



Dizia Schopenhauer que na contemplação estética ficava arrebatado, isto é, livre de si mesmo e da tirania dos seus desejos. Acrescentava que só o Belo permitia suspender a dor, na justa medida em que a sua contemplação fazia com que o sujeito se esquecesse de si mesmo, e se encantasse com a existência: "A beleza é uma carta de recomendação aberta que nos predispõe o coração para o bem, antecipadamente."

13.1.08

Pensamento da manhã

Júlio não acordou a tempo do pequeno-almoço, mas finalmente resolveu-se: vai regressar a casa. Só tem uma dúvida: aguentará o chasso até Lisboa? Pagou a conta no Hotel, passou pela Friederich Strasse, fez uma caralhada ao soldado de pacotilha de guarda ao posto de controlo obsoleto e rola agora a todo o gás em direcção ao sul: prometeu a si próprio não parar antes de Frankfurt. Em Lisboa Carlos está a ter um dia longo na repartição das finanças do Areeiro, 3º Bairro Fiscal: a sua chefe - Drª Marisa Gomes - parece ter tirado o dia para o chatear. Luís despediu-se da puta preta e gorda ainda no quarteco desta ao Cais do Sodré e também se meteu à estrada; ainda não desistiu de foder Maria, daí que, como reza o ditado, se Maomé não vai à montanha... João está deitado na cama - bêbado. A reunião não correu bem. Das 15 curtas que submetera à apreciação da editora apenas três receberam luz verde para publicação. Este semi-fracasso tem para João severas implicações económicas; o dinheiro chega-lhe à justa para pagar a renda do quarto e para 23 garrafas de vinho; o que irá comer nas próximas semanas? Não sabe. É uma tarde normal - uma tarde de segunda-feira.




Padrão



A Arte serve para muitas coisas e, ao mesmo tempo, não serve para nada. A Arte pode estar ao serviço dos mais funestos objectivos ideológicos, dos mais "puros" ou ainda ao serviço de si mesma (a Arte pela Arte) o que também pode ser visto como um serviço a uma agenda ideológica niilista. Afinal, estar "ao serviço de si própria" não será uma falácia? Para mim, que não sou crente, a Arte é Religião: a Arte reduz-me à minha insignificância, transcende-me e faz-me ter fé; não em Deus, mas no Homem, afinal, o criador da Arte.

12.1.08

Pensamento da tarde

São seis da manhã e Júlio fuma um cigarro encostado a uma das colunas da Porta de Brandemburgo. Passou as últimas horas num clube nocturno da Unter den Linden e, apesar do frio, sente-te bem, muito bem. Em Lisboa, Carlos ainda dorme. Está a ter um pesadelo: tem o rosto ancorado no meio dos seios de Marisa e estes não páram de crescer - sufocando-o. Luís, entretanto, fode com uma preta gorda que engatou no Caís do Sodré: o facto de a ter engatado e de não ter tido de pagar para a comer deixa-o cheio de tesão. No seu quarto da Almirante Reis, João acordou, mal disposto. Contudo, já se lavou e prepara-se agora para vestir o seu fato de "Mr. Nice Guy". João tem uma reunião importantíssima às oito e meia na editora e chegou à conclusão de que não se pode dar ao luxo de continuar deprimido. É uma madrugada normal - uma madrugada de terça-feira. Lá, como cá, os pássaros assobiam uma melodia melancólica - triste sem rival.




Deutscher Dom



Ao contrário do Design, onde a beleza é sempre condicionada pelas virtualidades funcionais do objecto, na Arquitectura, por vezes, a beleza, o critério estético, impõe-se como único factor de concepção e avaliação da obra. Daí que, por exemplo, em Lisboa, a Gare do Oriente desempenhe tão mal a função (é fria e chove em cima dos passageiros) e tão bem o critério estético: é uma obra arquitectónica que não deixa ninguém indiferente. Por mim, não vou tão longe e deixo-vos com um pormenor da Deutscher Dom, ao cair da noite.

10.1.08

A Tess está linda (emagreceu)...

E mesmo assim vai para Moçambique. Bom. Há-de voltar. E, quem sabe, há-de voltar para mim. Se não for para mim e se não for para o "Frigorífico" também não é importante. Estou-me nas tintas para o "Frigorífico" e ainda me estou mais nas tintas para mim mesmo.

O mais importante somos nós. A Tess; o Phil; o Tiago; a Ana e, porque não, eu também. Boa sorte Teresa - volta depressa.




Pensamento da noite

São dez e meia da noite e Júlio saiu do Hotel em direcção a Tiergarten; está a nevar e fazem 10 graus negativos. No aconchego do lar materno, Carlos toca uma punheta com o cérebro vidrado nos seios de Marisa. Em Lisboa, contrariado, Luís contempla o relógio: Maria está atrasada e ou muito se engana ou os seus planos de foda, ponderados, calculados e revistos, não se irão materializar. João engoliu três valiums e deitou-se cedo. Sente-se cada vez mais só e sem razões para viver. É uma noite normal - uma noite de quarta-feira.







Gemaldegalerie



A Gemaldegalerie é um sítio fantástico. É uma realidade fora da realidade. Não sei se é da perspectiva. Não sei se é da escala, ou das salas sem fim onde nos perdemos, apenas para irmos ao encontro de Rubens, Bosch, Caravaggio e seus discípulos. A Gemaldegalerie é um sítio fantástico.

Ich hab noch einen koffer in Berlin



9.1.08

Pensamento da madrugada

Às três da manhã Júlio arrumou a cozinha e pondera conduzir até Lisboa. Carlos sonha com os seios de Marisa e Luís prepara, calculista, a próxima foda com Maria. João sente-se só; acaba de acordar, suado. É um dia normal - uma quinta-feira.


8.1.08

Frágil, também me sinto frágil



Ao ver esta tipa no Gemaldemuseum senti-me, senti-me como se fosse o Lobo quando ele destila veneno, senti-me, dizia, senti-me frágil. Como ela, como esta doçura a dois tempos. Digam lá, é ou não uma beleza?

PS- Julgo falar por todos quando digo que o Lado Negro da Lua é um blogue Palmaníaco. Palmaníaco até ao fim dos dias. Frágil como a vida.

A Nefertiti de Berlim



Em Berlim há muitas mulheres bonitas. Há-as para todos os gostos. Caucasianas, nórdicas, eslavas, italianas, espanholas, brasileiras, ruivas, morenas e louras. Mas esta, esta foi sem dúvida a mais bonita que por lá encontrei. Ora digam lá (e não me venham com a história de que estão fartos de saber "o que é que é bonito") ; a Nefertiti de Berlim - é ou não é linda?..

7.1.08

Triumph des Willens



Por vezes gostava de não ser o que sou. Por vezes tenho saudade de ser apenas uma imagem perdida no Tempo, um instante solitário; capturado talvez por um fotógrafo anónimo - algures na Roma Antiga, embora na Roma Antiga não existissem fotógrafos. Por vezes gostava apenas de ser apenas uma imagem num espelho, para sempre contemplando todos os rostos que há muito não são deste mundo.


Back from B.



Back from B, I look myself in the mirror and don’t like what I see. I need booze, but I lack money, I need peace, but I lack will, I need love, but I don’t believe in it. Back from B, I look myself in the mirror and don’t like what I see.

Visto ao espelho no Museu de Pérgamo, Berlim.

5.1.08

26.12.07

Após chegar

Casara-se com ele. Logo após o acidente dele. A presença imanente da morte tocara-a a tal ponto que resolvera, nesse preciso dia, unir os seus destinos com os dele. Teriam sido os meses arrastados do internamento e reabilitação dele? Quando a amara e dependera dela? Porque motivo continuava a sentir-se enjaulada nele?

Não o sabia.

Pensamento 2007

Cocaine. Have you ever fucked on cocaine, Nick?.. It's nice.

Catherine, em «Basic Instinct».

25.12.07

O caroço

Dedicado a: Filipe
Agradecimentos: Manuel, por algumas boas ideias

Chegou, finalmente, o Natal! Uma vez mais, a casa torna-se quase irreconhecível no meio de tanta brilhante decoração e a árvore ofusca com a quantidade de luzes que a ornam. Daniel não o consegue evitar: uns dois meses antes, e já o seu espírito muda, decora a casa, sente-se, porquê exagerar?, mais feliz. Diana, sua mulher, apesar de apreciar a lufada de ar fresco que a disposição do marido traz à casa nesta época festiva, todos os anos se admira de como é possível ver um homem já quase nos seus cinquentas ganhar a vitalidade e, sobretudo, o brilho nos olhos que nos acostumamos a ver apenas nos anos de inocência das crianças, mas que a vergasta da idade acaba por escurecer. Todos os anos se admira e todos os anos bendiz essa característica do marido. Já os filhos, que dizer? Mesmo os filhos mais velhos, ainda adolescentes, parecem ficar esgotados com o excesso de energia e com o espírito natalício do pai. Apenas a bebé não tem problemas em acompanhar a pedalada de Daniel.
É mais uma ceia de Natal! Os pais de Daniel chegaram há umas horas e não tardaram a começar a resmungar um com o outro; como sempre, o velho Alfredo quer beber e a sua mulher lembra-o, incessante, de como a sua saúde já não o permite meter-se em tais empreitadas; a mesa está posta, a comida na mesa, o vinho já aberto, respirando, e libertando os seus convidativos vapores; a lareira crepita, mas o seu calor, embora agradável, não é necessário para que toda a família se sinta aquecida. Já com todos sentados à mesa, o diálogo e o riso não tardaram a desenrolar-se, Daniel lançou instintivamente mão à sua entrada predilecta: azeitonas; pegou numa, mas não a comeu, antes ficou a olhá-la com um ar desconfiado, ainda que tentado a lançá-la à boca e a esquecer o assunto. É que, nem todos os Natais de Daniel são sempre assim tão pacatos.

Fora no ano passado que toda esta cena se repetira: família reunida, mesa recheada, alegria. Daniel, ao comer uma azeitona, entre as gargalhadas próprias da boa disposição e as tentativas frustradas para a engolir, foi incapaz de cuspir o caroço e engasgou-se. Não deu por nada, apenas percebeu que, de súbito, ficara sem ar e incapaz de falar enquanto à sua volta o jantar decorria sempre animado.
Diana...

Daniel ouvia as suas próprias tentatias desesperadas para falar, mas ninguém parecia reparar na sua aflição. Foi só quando o seu rosto rosado começou a ficar pálido é que Diana saltou da cadeira em seu auxílio.

- Daniel? Daniel!? O que é que tens?

Caroço… Não consigo respirar!

A voz de Daniel era nítida na sua mente, mas a sua boca não produzia nem um som, apenas os seus olhos esbugalhados de terror pareciam suplicar por ajuda. O alegre bater de talheres e as risadas cessaram e um silêncio sufocante encheu a sala, só a voz de Diana, e, em apenas alguns segundos, sucederam-se as exclamações de pânico ao redor de Daniel.

- Ai, Meu Deus! Ele está engasgado! Engasgou-se, engasgou-se! – gritou Rosa, a mãe de Daniel, num súbito instante de compreensão. Toda a família acorreu: os pais aconselhavam Diana a bater nas costas de Daniel, os filhos tentavam ajudar a mãe e acalmar os avós, Diana, atingida pela súbita onda de pânico, batia aflita nas costas do marido e só a bebé observava com um ar curioso a correria da família.

- Com mais força, bate com mais força! – bradava Alfredo.
- Já estou a bater com toda a força!

- Vou chamar o Sr. Francisco, o vizinho, ele é enfermeiro! – anunciou de repente o filho mais velho.
Em escassos longos segundos, regressou com Francisco, um jovem enfermeiro que vivia na casa ao lado com a namorada. Entraram de repente na sala e todos os olhos se viraram suplicantes para o anunciado salvador, as suas preces a ele dirigidas. Francisco, os olhos raiados de sangue, as pálpebras inchadas e os modos lentos, contemplou por um breve instante a cena e, ao aperceber-se, com um choque, da situação de Daniel, apressou-se em seu auxílio.
- Afastem-se, afastem-se! Preciso de espaço! – sem demora e em movimentos de um profissional, ergueu Daniel da cadeira segurando-o por trás e, fazendo várias vezes pressão no seu peito, conseguiu, para os suspiros imediatos de alívio da família, obrigar Daniel a cuspir o caroço de azeitona.
- Ai, Jesus, que ainda me sinto mal! – exclamou Rosa, sentando-se no sofá.
Daniel tossiu, e foi recuperando a cor, a pouco e pouco, os olhos pareciam voltar voluntariamente às órbitas. Daí a alguns momentos, proferia as primeiras palavras perdidas entre arquejos de alívio. – Obrigado, Francisco… obrigado…
- Ai, Daniel, Daniel, o susto que nos pregou a todos!
A família acorreu a Daniel entre agradecimentos a Deus e a Francisco. Tudo voltara à normalidade…

Este ano, Daniel olha para a azeitona e contempla a mesa: os talheres batem numa festa só deles, os risos viajam pelo ar e multiplicam-se, a comida desaparece magicamente dos pratos, a satisfação e a felicidade estampada no rosto da família, criando uma melodia de tal sabor!
Mas… mas, Daniel gosta tanto de azeitonas: aquele fruto de um sabor único, tão perfeito a olhar para ele, a apelar à sua gula! Irresistível!

Heh… - pensou Daniel, ao lançar despreocupadamente a azeitona à boca e mastigando-a com gosto - que seria da vida sem algum risco!