23.12.07

Feliz 2008



Ora cá estamos, quase véspera de Natal, afirmando os valores decisivos. Sim, os valores, aquilo porque lutamos - e aquilo porque nos defendemos.

Em jeito de lamiré, se fossemos políticos, o PNR seria de Esquerda e Salazar um funcionário de gabinete.

Somos conservadores, tutelares, selectivos, truculentos e acreditamos na superioridade da raça - da que fazemos parte, isto é.

A moral serve o interesse do mais forte e os mais fortes somos nós. Contudo, também logramos permitir-nos a magnitude, a condescendência e o reconhecimento.

E é nesse estado de espírito que a equipa de O Lado Negro da Lua me elegeu para vos desejar, com o pedido de que sejam felizes, os votos de um feliz Natal e a tentação de um óptimo, de um excelente 2008.





Have fun. You only live once and even if it hurts when you shit, remember, it means you are alive.

17.12.07

Ruão, Cornualha



Hoje aprendi uma data de coisas novas. Entre outras que há uma terra chamada "Ruan" que fica na Cornualha. (Sim, eu sei que não sabem onde é, mas não se preocupem, é um sítio giro e quando tiverem oportunidade façam o favor de se informarem, se não desejarem ir muito longe há até uma aventura dos Famous Five que se passa lá).

Sempre pensei que "Ruan" fosse uma referência a Ruão, uma famosa cidade francesa. Aliás, em francês, "Ruan" é "Ruão" em português. Mas, no caso em apreço, não podia ser, pelo menos a acreditar numa escritora que conheci, traduzi e "aprendi sobre" hoje. Não podia ser porque "Ruan" fica a norte de "Altringham", uma outra cidade bonita no condado de Chester, Inglaterra.

O que é isto interessa? Muito. No meu caso particular pode ser a diferença entre ter euros no bolso e não ter. Para vós, e, para mim ainda, interessa porque me deu um banho de humildade. Aqui estava eu armado em esperto (Ah, tou a ver, Ruan é Ruão em França) quando não era coisa nenhuma. As aparências desiludem e quem julga que sabe tudo muitas vezes não sabe nada. Algo que todos nós, por vezes, esquecemos.


Foto via Promenade du Feu

Lets get this show on the road

Nove da manhã, dor de cabeça monumental, barba por fazer, dentes manchados de vinho tinto. Toca a acordar, é segunda-feira e ainda há pouco me disseram: If you look good, and you talk well, people will swallow anything.

Esta é para Braga

Sem inspiração e quase a cometer suicídio*, tu foste uma amiga. Esta música é para ti.



* literário, claro.

14.12.07

Pensamento da noite


São 10 e 10 da noite e o tabaco vai aumentar. É óbvio que nada tenho a ver com isso. Se o tabaco aumenta o problema não é meu, nem será, suponho, um problema que vos aflija por ai além. É chato, isso, não deixa de ser verdade, mas conjuga-se na perfeição com outras medidas contra a liberdade do fumo recentemente anunciadas.

Escrevo tudo isto porque ontem à noite sonhei com a Catalina Pestana. No sonho, armado com o meu mastro incomensurável, destruia-lhe o rabo. Mas, por incrível que possa parecer-vos, ela gozava, gozava que nem uma louca. Será que a Catalina é pedófila?

Pedir o quê?..

"A norma não passa de um dialecto armado com uma pistola."


C. Gouveia, prof. e linguísta.

Lúcido, sinto-me lúcido



Para além da saúde e do dinheiro, na vida poucas mais coisas me interessam: whisky de malte, amigos de carne e osso, imagens sem som.


PS - E talvez um cigarro para rir ajude.

13.12.07

Frágil, sinto-me frágil



Deixam-me perplexo mulheres a quem ouça falar de “construir” uma relação, na justa medida em que uma relação, não sendo um T2 com vista para o mar, não se constrói; inicia-se, desenvolve-se e termina. É só depois de vivida que a relação pode ser vista como “construção”, como “coisa”, nunca antes.

Esse detachement em relação ao processo amoroso, e consequente estratégia de poder pelo método da cenoura, que observo patente em mulheres dos 20 aos 40 anos, enquanto o mesmo processo (não) decorre, assusta-me e, confesso, por vezes arrrepia-me.

9.12.07

Pensamento da noite

"If you cannot convince them, confuse them."
Harry Truman

6.12.07

A faculdade e a bosta


Tenho-me deparado com um curioso incidente nestes últimos dias quando chego à faculdade. Parece haver um aumento exponencial da quantidade de bosta que invade a calçada em frente do edifício principal e isso preocupa-me. E, atenção, não se trata de uma simples e inocente bosta de caniche ou de outro sabujo qualquer; trata-se de grandes e extremamente fedorentos pedações de bosta de cavalo. Daqueles que colocam em sério perigo o calçado do português comum. Um professor poder-lhe-ia chamar aumento do ratio de dejectos por metro quadrado. Eu chamo-lhe merda, mas, por outro lado, eu não sou professor e nem ambiciono ascender a tal cargo. Não sei ensinar, nem tenho o dom da oratória. Porque puxo assuntos de merda como este? Bem, honestamente, não sei. Acho que não tenho realmente nenhum assunto interessante sobre o qual escrever. Ou daí talvez tenha. Talvez apenas não me apeteça, ou simplesmente não saiba como expressá-los. Sim, é mais ou menos por aí. Nos últimos tempos, tenho sido assolado por fortes ondas de não-criatividade escrita. Pronto, pronto, admito, mesmo criativo não sou um Saramago (ufa!), nem um Eça. Mas, pergunto-me porquê? Estarei a ficar mais burro à medida que avanço nos meus anos de ensino? E que raio de algaraviada é esta que estou para aqui a escrever? Será criativo? Ou não será melhor do que a bosta dos cavalos da GNR que patrulham a faculdade numa busca incessante e esperançosa por alunos possuidores de estupefacientes, quais cães de fila? E porque é que me sinto tão mal, hoje!? Porque é que me sinto mal!? Preciso urgentemente de alterar o estado de consciência… Fortunately, God took pity on Man and invented whisky (and He saw that it was good) ou, em português, uísque. Naturalizações da merda! Bem, acho que é isso por hoje e talvez por algum tempo. Se calhar da próxima trago-vos mesmo um assunto relevante. Não sei… Vai depender da quantidade de bosta que amanhã encontrar no passeio...


Where u going baby?



Escrever para ti. Pediste que escrevesse para ti e aqui estou, a fingir que te escrevo. Parto do princípio que saibas que porque não te posso escrever vou ter que ir às putas. Na verdade, não te queria escrever. Queria apenas estar contigo. Falar contigo. Nem sequer quero ir para a cama contigo, só quero falar contigo, brincar contigo, desejar felicidade aos nossos amigos contigo. Só isso e acabou-se. Não te digo nem mais uma palavra nem que essa comece por Alentejo.

Espírito destrutivo



Toda a gente anda à procura da salvação. Todos nós. É uma pena não a encontrarmos na areia nem nos nossos passos perdidos (bela metáfora) nem no whisky derramado. Tu, Teresa, sim, tu, minha amiga, minha melhor amiga, tu foste a minha última hipótese de salvação. Ora foda-se. Vou mas é assinar a petição contra o acordo ortográfico.

PS- Esta foto tem direitos de autor.

5.12.07

Uma punheta a quatro mãos e um cigarro lambido de vodka

Faz um frio do caraças e eu estou a deitar ácido pela boca. Deve ser do glicol do radiador. E daí não. Deve ter sido do raio do osso buco que me impingiram no talho à saída de Dresden, como se se tratasse de fillet mignon dos bifes guisados pelos aviões aliados, e que a vaca da Ana envenenou de propósito com especiarias de Alguidares de Baixo para me ver assim, meio verde, meio roxo, a deitar ácido pela boca e a rezar a todos os meus santinhos para que isto passe – depressa.

É uma chatice. É quase tão chato como esta falta de verdade nas coisas que escrevo. Por falar nisso, o panzer está finalmente devidamente aprovado e cheio de carburante, mas as condições atmosféricas não permitem que lance a ofensiva que o fuhrer me encomendou. O que também é uma chatice, mas, como diria o meu anjo, chatice por chatice, antes o 25 de Abril.

Porra, não paro de vomitar a bílis, o nevoeiro não se dissipa, nem a música me convence dos seus atributos, nem a fuga sabe a nada a não ser a isto mesmo que vos digo e que não percebem porque não podem perceber: a fuga não sabe a nada a não ser a vodka russo envenenado com especiarias de Alguidares de Baixo e uns pozinhos de 25 de Abril à mistura.

É. Foi a cabra da Ana, foi a cabra da Ana, a operadora de rádio russa que me persegue desde Birmingham, sempre a direccionar os panzers dos inimigos na minha direcção, de certeza que é ela.

Já cozinhou o osso buco só para mim, visto que todos os outros estão mortos, espalhados pelo caminho, algures lá atrás, parece que só resto eu, ando a fugir desde Birmingham, Alabama, e a contar com o carburante no depósito do panzer só vou parar nas ilhas Fiji, se é que isto parará alguma vez.

Nada funciona nesta puta deste panzer. Nem sequer o sacana do 88, que nos safou tantas vezes, pelo menos enquanto o Adérito, o major, ainda era vivo. Depois ele morreu, e a seguir dele morreu o Jesus, o radiotelegrafista, e depois o Buda, o cabo, o condutor, e não sobrou ninguém para carregar o 88 e eu, para além de comandante deste panzer tive de acumular com as funções de condutor e desde kharkov que não fazemos outra coisa que não seja fugir da artilharia pesada russa, porque nada funciona neste panzer, nada de nada, ou melhor, pelo menos as lagartas e o motor ainda trabalham.

A suspensão partiu-se depois de ter passado em Kharkov e o rádio só dá a Ana desde Varsóvia. Em breve não terei para onde fugir, mas isso não me incomoda, a fuga tem um dinâmica própria e, como uma droga, traz-me entorpecido. Não, espera, isso é um livro que estou a ler.

Ah, sim, agora é que este post começa. Leram bem, cambada de idiotas? Deitem fora as escopetas, bando de cretinos! É inútil, todos os vossos esforços são em vão, até os meus, quanto mais os vossos. Chega!

Pois, é só agora que este texto começa.

Tudo tem de começar nalgum sítio, e este texto não é excepção; começa aqui e não antes ou depois - é aqui que começa porque é aqui se dizem coisas importantes. Importantes como o cabelo ruivo da Bibi, ou importantes como o amarelo do bafo da Carla, ou como o cor-de-rosa da … da Júlia e não se fala mais nisso.

É aqui que começa e só eu sei onde acaba, ou melhor nem eu sei onde acabará, porque não me apetece deitar-me a adivinhar e faz frio fora do panzer e enquanto o motor trabalhar estarei vivo, embora tenha quase a certeza de que me enganei no caminho, mas isso não vem para o caso. Onde será que me perdi? Onde será que os sonhos ficaram pelo caminho. Onde será que a morte se instalou. O fuhrer também está morto – dizem.

A estrada está cheia de buracos e de lama, cai uma chuva miudinha e um nevoeiro espesso cobre tudo com o seu manto branco. Até parece que estamos em Murmansk. Como naquela história que li num romance de cordel e onde entrava uma tipa loura chamada Luísa.

Abro a escotilha e recebo na cara o vento frio do norte. Dá-lhe gás, Adérito! Carrega o 88, Jesus! Só paramos na Lua, Buda! Só paramos na Lua! A guerra é nossa! Nós somos a guerra!

E tu, Luísa, tu, dá-lhes os teus cabelos ruivos, e dá-lhes uma punheta a quatro mãos, dá-lhes isso mesmo, assim que pararmos, assim que o panzer ficar sem gasolina – antes de morrermos. Dá-me uma boa punheta a quatro mãos e um cigarro lambido de vodka, dá-me isso, pois haverá, para um soldado como eu, algo de mais belo no mundo do que aquilo que só tu me podes dar?...

30.11.07

Grevistas nocturnos ou o caso do aluno madrugador e ultrajado


Exma. Professora %&$#"?= C§&%"#$,

Sou um dos seus alunos da cadeira de que compareceram à aula extraordinária convocada para as 8:00 do dia 30 de Novembro.

Como não será do seu conhecimento, vivo longe das instalações da Faculdade de Coiso da Universidade da não-sei-quantinhas, pelo que tenho de me levantar às 6:00 para poder comparecer pontualmente às aulas extraordinárias por si convocadas para as 8:00.

No seguimento disto, certamente compreenderá que não li a sua SMS, enviada após as 23:00, uma vez que, se quero acordar tão cedo, tenho que me deitar igualmente cedo.

Não compreendo (mas eu também sou um bocado parvo [ao contrário de Vossa Excelência]) porque avisou os alunos de que iria aderir à greve da função pública a uma hora tão tardia, um dia antes de esta ter lugar, quando a mesma já está anunciada há já algum tempo.

Atento, venerador e obrigado,
Helel Ben Shahar

19.11.07

Doze andares sem luz e meia dúzia de anéis sempre a descer



Faltou a luz hoje. Não sabia que podia faltar a luz, mas a verdade é que de vez em quando a luz falta e quando falta a luz é um sarilho, uma chatice das grandes e todos sofremos por causa disso, sobretudo a minha mãe, que quando volta à noite vem sempre carregada das compras, e quando falta a luz é muito chato, porque temos os dois de subir as escadas e vivemos no décimo-segundo andar e a minha mãe fica muito cansada ainda antes do oitavo, muito cansada de ter de subir aquelas escadas todas, o elevador não funciona, tão cansada que quando chega nem sequer me dá um beijo, nem um miminho e vai logo a correr ter com a Esperança, que é a nossa criada preta, que me dá carolos na cabeça que magoam, saber se o meu irmão já está a dormir, como se o meu irmão fosse a coisa mais importante do mundo, que não é - porque ele não faz mais nada que não seja dormir.

Já eu, eu gosto quando falta a luz, embora não goste de subir as escadas, porque estou cansado de brincar e tenho frio nas escadas, mas gosto porque quando chegamos lá acima não há luz, e porque quando o pai chega jantamos à luz de velas e o pai brinca comigo e gosta que eu bata nos móveis com o meu triciclo, mesmo que a minha mãe lhe diga para estar quieto e não “desinquietar o rapaz”, porque o meu irmão está a dormir e não queremos que ele acorde.

Hoje faltou a luz outra vez, agora acontece quase todos os dias, não percebo isto, mas também não ligo, como não ligo a muita coisas estranhas que ultimamente acontecem, como os carolos da Esperança, porque sou apenas um miúdo e os miúdos não sabem nada de nada a não ser de índios, de cowboys e de alemães, como ainda há bocado, quando estava a brincar lá em baixo no pátio com o meu amigo Biré, o cowboy, com o Júlio, o vigésimo da cavalaria, e com o Carlos, o “alemão”.

Estava a brincar lá em baixo, com o Biré e os outros, quando faltou a luz, nós não demos por nada, se calhar nem a Esperança deu por nada porque não gritou por mim, porque ainda era dia, e tínhamos a luz do sol e às cinco horas da tarde chove sempre em Lourenço Marques, mas nós até que gostamos, porque quando chove ficamos lavados e já podemos ir para casa e a minha casa é tão grande que eu até posso andar às voltas de triciclo na sala, porque à noite não chateio ninguém, nem a Esperança nem o meu pai nem a minha mãe, e nem sequer o meu irmão.

O meu irmão gosta de dormir na cama da Esperança, e a minha mãe está sempre a dizer para eu não ir de encontro aos móveis, para não os acordar, não sabia que o móveis podem ser acordados, e eu tenho cuidado na curva do móvel grande da sala, que faço como se fosse o Mário Andretti, que é um grande campeão, é o melhor motobilista de todos, é um grande campeão, é o melhor motobilista do campeonato de fórmula 1 de sempre. De sempre!

Estávamos lá em baixo no pátio, a Esperança tinha deitado o meu irmão, e eu, como sempre, tinha-lhe fugido, não gosto dela, tinha-me ido encontrar com o Biré e logo a seguir apareceu o Júlio e depois o Carlos e então fomos brincar ao nosso jogo predilecto.

Tínhamos fugido todos para o pátio, a brincar aos cowboys e aos índios, eu era índio e o Biré cowboy, e o Júlio era um tenente do vigésimo da cavalaria, e o Carlos era um alemão, quando faltou a luz, e nós não demos por nada, só reparamos que o Carlos era o alemão, que tinha uma metralhadora, e por isso era sempre ele quem ganhava o jogo, já que nos matava a todos, mas de vez em quando eu, o índio, eu e o Biré, o cowboy, juntávamos forças e éramos nós quem o matava a ele, antes mesmo de o Júlio, o vigésimo da cavalaria, chegar para nos roubar os dentes de ouro, já que todos nós sabíamos que os índios, os cowboys e os alemães têm a boca cheia de dentes de ouro, mas de vez em quando eu e o Biré conversávamos com o Júlio antes, e dizíamos-lhe que os dentes de ouro do alemão, do Carlos, eram muito melhores do que os nossos, e que tínhamos de nos juntar para o matar a ele e assim fazíamos um jogo dentro do jogo, um jogo que consistia em matar o alemão e ficar com os dentes de ouro dele e nem com a metralhadora o Carlos, o alemão, conseguia ganhar-nos o jogo, e de repente começava a chover e ficávamos lavados e era a hora de irmos embora, eu a esperar a minha mãe à porta da garagem e os outros a correrem, a correrem para casa, e depois a chuva parava e sem mais a minha mãe chegava e dava-me um ralhete por eu estar sempre à espera dela em vez de estar em casa e de estar sempre encharcado, e eu ria e a minha mãe abraçava-me e... para o fim... chorava quando me abraçava, sem que eu percebesse porque é que a minha mãe chorava, se calhar era porque o meu pai ainda não tinha vindo para casa, ou se calhar era porque eu era um menino mau que gostava da chuva na cara e, para o mal ou para o bem - sou hoje um homem que ainda gosta muito da chuva a bater-lhe no focinho. Não é a mesma chuva, é uma chuva merdosa, que não lava e só mancha, mas é chuva e gosto.

Entrámos no prédio pela porta das traseiras, ela vinha carregada com os sacos e estava cansada, mas eu não lhe ofereci ajuda, afinal as mamãs do prédio estavam sempre cansadas e ninguém as ajudava. Subimos, doze andares a subir, subimos, doze andares.

O prédio cheirava a catinga e havia pretas feias nos vãos da escada e miúdos preto feios urinavam aos cantos das portas e todos pareciam rir da minha mãe e de mim e da minha mãe, à medida que subíamos.

Finalmente, chegámos. Ela parou à porta, pousou os sacos no chão frio e mesmo antes de tirar a chave da casa da carteira, virou-se para mim e disse, cansada, gasta, triste: “És um menino lindo, a mamã gosta muito de ti, és o meu lobinho, o teu mano precisa de ti, temos de ir embora.”

Retruquei que não gostava do meu irmão, que ele não falava e só dormia, quando não chorava, que era um chato, que era diferente do Biré e dos outros e que eu não me queria ir embora. A minha mãe sorriu, afagou-me rosto, deu-me um beijo e disse, quase como se não estivesse a falar comigo: “Tens de me ajudar a convencer o papá a irmos embora daqui”.

Tive medo. Não percebi a minha mamã. Ela abriu a porta e logo apareceu a Esperança, toda resplandecente com os seus colares, toda pressurosa com os seus anéis. Tive medo.

Mas fiz o que a minha mãe me disse.

16.11.07

Luanda, 1976 e um par de sapatos velhos


Estou em Luanda, tenho cinco anos e um par de sapatos novos. São sapatos pretos de couro e são muito bonitos, embora me magoem os pés. Tenho fome, mas a minha mãe não tem nada para comermos. Mentira, tem um pacote de bolachas, só que mesmo com fome não gosto de bolachas, nunca gostei e na verdade nunca virei a gostar. Estamos aqui há uma data de tempo e sinto falta do meu amigo Biré, o qual nunca mais voltarei a ver.

Não sei porque estamos aqui. Só sei que estamos em Luanda porque ouvi dizer num altifalante e sei que o que se diz num altifalante é sempre verdade. Luanda, Julho de 1976. 23 de Julho de 1976. O Vôo para Lisboa está atrasado. E nós estamos aqui cheios de fome e o meu pai mandou um berro à minha mãe e o meu irmão quase acordou e eu fiquei cheio de medo porque há aqui uns pretos vestidos de verde com espingardas e com cicatrizes na cara que metem medo e falam aos berros com toda a gente – até com os outros pretos.

Tudo tem sido muito estranho nos últimos dias. Estamos no aeroporto de Luanda e nunca aqui tínhamos estado. “Aeroporto”. É uma palavra nova que aprendi ontem, quando o meu pai acabou de fazer a barba e disse à minha mãe que tínhamos de ir para o “aeroporto”. Sei que é um aeroporto porque o meu pai disse. É um aeroporto azul, todo pintado de azul, mas não há água e há mais pretos do que no outro aeroporto, donde vimos, lá atrás, na minha terra, na nossa casa, em Lourenço Marques.

Estes pretos daqui são estranhos e feios e há alguns que devem de ser maus. Parece que nenhum deles gosta de mim, o que é muito estranho. Ainda agora mesmo uma preta falou mal para a minha mãe. E a minha mãe teve de se calar. O meu irmão até acordou e desde aí não pára de chorar. Estamos aqui há uma data de tempo e não há nada para comer a não ser bolachas e eu não gosto de bolachas.

Os meus sapatos são muito bonitos. São sapatos de homem, parecidos com os do meu pai. Ele está preocupado. Acho que nunca vi o meu pai tão preocupado. Nem naquele dia em que lhe tirei o isqueiro de ouro e o oferecei ao outro menino branco que morava no andar em frente ao nosso. O meu pai ficou muito chateado e disse que eu era um ladrão. Fiquei muito triste, não sei o que é um ladrão, mas sei que é mau ser um ladrão.

Os meus sapatos são realmente bonitos, têm uns furinhos que não são furos verdadeiros e brilham e reflectem a minha cara e quando bato com eles no chão fazem um barulho engraçado. Porque é que o meu irmão não se cala, isso é que não me sai da cabeça, estou a ficar farto do cheiro deste aeroporto e estou a ficar farto do choro dele.

O meu irmão nunca diz nada e só chora e a minha mãe não me liga nenhuma, só pensa nele e se calhar já não gosta de mim. O meu pai anda de um lado para o outro e também não me liga nada, também nunca ligou a não ser para dizer que eu era um ladrão, mas não gosto nada disto, não gosto daqueles pretos com espingardas, não gosto nada de nada e quero voltar para Moçambique, quero voltar para casa.

O que é que estamos a fazer aqui? Isto é Luanda, é África, mas já não é Portugal, mas isto é muito feio, não gosto deste azul, deste aeroporto pintado de azul e tenho sede e fome, mas não gosto de bolachas, nunca gostei. Há pouco uma preta que andava a varrer passou por mim e disse-lhe que tinha fome e ela riu-se de mim.


Não gostei e tive vontade de lhe dizer ”merda para si” mas havia um preto de espingarda ao lado e o meu pai disse que tinha de estar calado e eu calei-me e olhei para os meus sapatos e gostei do brilho deles e calei-me.

Os meus sapatos pretos são bonitos, mais bonitos do que a dentadura do preto da espingarda, são sapatos bonitos, pretos e brilhantes; sapatos de homem, mas tenho fome e tenho sede e estou farto de Luanda.

Quero ir embora, quero voltar para casa, andar no meu triciclo e brincar com os meus amigos, mas o pai diz que já não voltamos mais, o pai diz que Moçambique acabou, diz que vamos ter com os avós, lá em Portugal.

Gosto muito do meu avô e ainda mais da minha avó, dão-me montes de brinquedos e levam-me a montes de sítios muito giros e com pessoas ainda mais giras. Uma vez, fomos a um sítio, lá no norte, no Minho, em Vilar Formoso, e havia um senhor que era maestro eu não sabia bem o que isso é, chamava-se Vitorino de Almeida, e de repente a luz foi abaixo, e esse senhor sentou-se a um piano, só à luz de velas, e tocou uma música que encantou toda a gente e toda gente dançou e a minha avó deu-me beijos e eu gostei muito.

Voltámos para o Porto, e a minha avó comprou-me um tractor, da outra vez em que fui a Portugal, e eu e o meu primo brincámos lá na quinta, de tal maneira que um dia o tractor estava feito em pedaços, mas a minha avó não me bateu e até disse ao meu avô:

“Vê lá tu, os rapazes desmontaram o brinquedo todo!”

Tenho a certeza de que os meus avós vão gostar dos meus sapatos novos. Vão dizer que sou um homem quando lhes mostrar os meus sapatos novos! E do meu fato novo, então, ah, nem imagino o que o meu avô vai dizer quando vir o meu fato novo. Vai dizer que sou um belo cavalheiro, sim, o meu avô vai dizer isso mesmo: “Estás um belo cavalheiro, rapaz!”

Saímos ontem de casa. Foi esquisito. O meu pai estava na casa de banho a fazer a barba e, quando terminou, pegou no molhe de chaves, deitou-o na sanita e puxou o autoclismo. Não percebi o que o meu pai fazia, o meu pai nunca deitava nada fora e andava sempre preocupado com as chaves, sempre à procura delas e foi esquisito ele fazer aquilo, mas até que achei piada e ri bastante e acho que foi das poucas vezes em que o meu pai se riu comigo. O meu pai deitava a sua vida na sanita e eu ria e ele teve a oportunidade de se rir comigo e pensando bem se calhar essa é uma das razões porque gosto dele.

Depois, a minha mãe vestiu-me e calçou-me os sapatos novos. Pretos. Estes sapatos de homem que calcei pela primeira vez. A última vez em que senti na pele o cheiro de Lourenço Marques. O caminho até ao aeroporto. O senhor preto que se tinha vindo a chorar despedir do meu pai e o meu irmão que dormia.

Estava triste a minha mãe, triste como no dia em que eu quase morrera afogado na piscina, lá naquela piscina do Hotel de Nampula, naquela piscina comprida, quando me deixei escorregar para dentro dela, quando fiquei sem pé, mas não me desconcertei porque não tinha idade para isso e fui caminhando na borda da piscina, sempre debaixo de água, sempre sem pé e à procura do ar, e, por fim, quando acordei, vomitava água pela boca e nariz, um senhor que nunca vira magoava-me o peito com as mãos rijas e a minha mãe chorava como nunca a tinha visto chorar.

Sim, os meus sapatos são muito bonitos e não há nada para beber ou comer aqui, nem percebo o que aqui estamos a fazer. Foi uma confusão. Nunca esquecerei, ao acordar da minha morte prematura, o suspiro de alívio da minha mãe. Amo-a, sem dúvida, e julgo mesmo que essa terá sido uma das minhas primeiras recordações, mas hoje isso não interessa nada.

O que interessa é que tenho uns sapatos bonitos e que quero ir para casa, ou, então, pelo menos, ver outra vez os meus avós. O sorriso da minha avó e o abraço do meu avô.

Vamos embora. Até que enfim, até que enfim que vamos embora, até que enfim que vamos apanhar um pássaro de ferro – são bonitos estes pássaros de ferro. “É da TAP, é da ponte área”, diz um senhor no banco da frente, antes de cair exausto no seu assento. É branco e é um homem feio, deita ranho do nariz e tem aspecto de doente. Não gosto dele. Olho para os meus sapatos novos e tenho saudades dos meus amigos. Do Carlos, do Júlio e do Biré. Sobretudo do Biré. É o meu melhor amigo.

O homem vira-se para mim e ri-se, todo babado. Não compreendo a sua alegria, até porque eu, eu estou mesmo farto do choro do meu irmão. Mas o homem ri para mim e o meu irmão não pára de chorar e a minha mãe está cansada e eu estou cansado e o meu irmão não pára de chorar, quase como se fosse ele que tinha deitado a sua vida pela sanita, quase como e soubesse que o seu pai, a sua mãe e o seu irmão estivessem a morrer aos poucos naquele dia.

O homem do banco da frente, ou por pudor ou por cansaço, ensaiava calar-se. O meu irmão chorava e endoidecia toda a gente dentro do pássaro de ferro. Podia dormir e não fazer mais barulho, afinal ele não sabia nada de nada e eu nunca mais veria os meus amigos, mas nem por isso eu desatava a chorar como ele. Eu, eu era um homem.

Assim, a doer, à força, com o Biré a milhares de quilómetros de distância, lá longe, cada vez mais longe, só, longe de mim, de nós, num verão de 1976, perdido algures em África. E o homem branco do banco da frente, finalmente, saber-se-ia lá porquê, calara-se. O pássaro de ferro descolara e Luanda ficava para trás.

No dia seguinte, lembro-me como se fosse hoje, estava no aeroporto da Portela, os meus novos sapatos pretos brilhavam ao sol e os avós cobriam-nos a todos de beijos, até ao meu pai, que não era da família deles. Esse, sem dúvida, foi um dos dias mais felizes das nossas vidas.

Pensamento da tarde

Show me the money.
Show me the money!
SHOW ME THE FUCKIN' MONEY!!!

12.11.07

Nem mais



"I love the rain. I want the feeling of it on my face."



Katherine Mansfield, últimas palavras antes de morrer.

27.10.07

Um ano excelente




Finalmente chegara. Há mais de 10 anos que não via a Casa Grande. A quinta do avô no Douro, e a Casa Grande que dominava as encostas e as fragas por onde se estendia a quinta. Mas agora ali estava ele, 10 dez anos depois, em frente à enorme e pesada porta de carvalho pintada de vermelho. Rodou a chave, a porta ofereceu alguma resistência, empurrou-a com força, a porta rangeu nos gonzos e então abriu-se com estrondo. O vasto corredor da entrada cheirava a mofo e do tecto pendiam inúmeras teias de aranha. A Casa Grande estava a precisar de reparação urgente. O ambiente de desolação e de abandono aumentava à medida que Luís ia abrindo as portas e as janelas da enorme casa onde fora criado e passara a sua juventude, antes de a ter abandonado, dez anos antes, em guerra aberta com o proprietário, o seu próprio avó.

Luís era órfão de pai e mãe e tinham sido os avós que o tinham criado. Apesar de nunca ter conhecido os pais, que haviam morrido num desastre poucos meses depois do seu nascimento, a infância de Luís fora normal, feliz, pelo menos até o dia em que morrera a avó, tinha Luís 14 anos. Desde essa data o avô tornara-se a pouco e pouco cada vez mais agressivo, mais exigente e mais intolerante, até que se tornou completamente impossível de aturar. Lembrava-se bem do dia em tinham tido a sua última discussão. Fora no vigésimo aniversário de Luís.

O avô enumerara exaustivamente as falhas e pecadilhos do neto, desde o seu fraco aproveitamento na Faculdade de Letras do Porto, para onde tinha ido estudar, à sua incapacidade em arranjar uma namorada “decente”, de modo a dar continuidade à linhagem da família. Tinha dito que Luís era um fraco, um imprestável, que só sobrevivia graças à generosidade dele, seu avô. Nesse dia Luís insultara-o e saíra porta fora para nunca mais voltar. Tinham-se passado 10 anos.

O avô morrera dois meses antes e agora Luís ali estava para tomar posse da Casa Grande. Tinham-se passado dez anos e os espaços e recantos do enorme solar vazio eram-lhe paradoxalmente familiares e estranhos. Foi arejando as divisões até chegar ao escritório do avô. Na semi-penumbra a vasta secretária estava cheia de pó e de papéis velhos. Nas estantes, os livros apodreciam em virtude da humidade. Sentou-se no grande cadeirão, habituou-se ao silêncio e fechou os olhos.

Dez anos. Em dez anos muita coisa muda, mas provavelmente o avô sempre tivera razão. A vida de Luís não tinha sido propriamente um sucesso. Após ter cortado as amarras com o seu único familiar vira-se só e sem dinheiro para se sustentar, quanto mais terminar o curso. Então viera a revolução e as coisas, ao invés de melhorarem, ainda tinham piorado. Perdeu logo o agradável emprego de escriturário que um conhecimento do avô (à revelia deste) lhe arranjara. Nos anos que se seguiram tivera centenas de ofícios, fora trolha, empregado de mesa, vendedor, telefonista e até ladrão.

Por fim, emigrara. Lavara pratos em Paris e andara na apanha do tomate em Inglaterra. Tocara viola no metro de Londres. Na Escócia trabalhara um ano numa fábrica de cortar peixe. No fim de cada turno de 12 horas o cheiro a peixe entranhava-se de tal modo que ainda hoje, por vezes, tinha pesadelos com isso. Na Holanda entretivera-se a apanhar copos numa gigantesca discoteca. Todas as noites, apenas tinha de apanhar os copos e os copos que os clientes pousavam ao deus dará, recolhe-los e depositá-los no balcão de serviço, para que outros, por seu turno, os lavassem e os disponibilizassem o mais depressa possível. Fora nesta última paragem que lhe chegara a notícia da morte do avô. E agora ali estava Luís, para tomar posse da herança. Para mudar, enfim, de vida.

Até no que respeitava às mulheres o avô tivera razão. Luís nunca casara. Sim, tinha tido algumas aventuras, mas nunca se tinha dado por inteiro, tudo havia sido relações de passagem, como a sua vida aliás, uma vida de passagem. É certo que quando deixara a Casa Grande estava loucamente apaixonado pela filha de um vizinho, Catarina, mas ela não tinha correspondido ao seu amor e isso ainda o tinha ajudado mais quando tomara a resolução de virar costas ao avô.

Abriu os olhos. Dez anos. A secretária estava cheia de pó e de papéis amarelados. Na sua maioria contas e facturas relativas à principal actividade económica do avô: a exploração das vinhas da propriedade. Como tudo se degradara rapidamente! Primeiro a revolução e depois, depois nos últimos anos o avô deveria ter perdido a lucidez por completo. As vinhas, maltratadas, bravias, pouco ou nenhum vinho rendiam, a Casa Grande estava cheia de rachas e de humidades, os muros estavam tombados e as ervas daninhas tinham tomado de assalto o outrora delicado jardim que dava para a entrada.

Mas agora tudo ia mudar. Luís estava ali para isso mesmo. Ia tomar conta de tudo. Fosse como fosse, tudo ia mudar. Podia vender a quinta ou devolver-lhe o seu antigo esplendor, ainda não sabia. Se calhar venderia tudo e com o dinheiro montaria um negócio qualquer. Sim, nada o prendia aquelas encostas íngremes, à terra semeada de vinhedos e de calhaus de granito, a terra de socalcos, gelada no Inverno e abrasadora no Verão. Iria para o Porto, sim, iria para o Porto, estabelecer-se-ia por lá, arranjaria uma mulher e teria filhos.

Experimentou as gavetas da secretária. Estas foram revelando os seus tesouros ocultos, que o fizeram sorrir: pincéis de barba usados, cassetes antigas, esferográficas BIC, frascos vazios de Restaurador Olex (afinal sempre era verdade que o velho pintava o cabelo!), tubos gastos de pasta medicinal Couto e uma série de bugigangas que lhe traziam à memória outros tempos, tempos mais felizes.

A última gaveta estava fechada. Tentou forçá-la, mas não cedeu. Por fim, com um sorriso, reparou numa chave de fendas esquecida a um canto e com esta fez saltar a fechadura.

Reconheceu de imediato as primeiras coisas que viu na gaveta. Eram envelopes de correio. Tinham selos das mais diversas paragens. Eram as cartas (poucas, como agora verificava) que ao longo dos anos enviara ao avô. Estavam todas por abrir. Pegou no molhe das cartas e atirou-o furiosamente para o chão, fazendo levantar uma nuvem de pó.

Sem saber porquê, sentiu-se triste. Calejara-se para este momento, mas não esperara encontrar assim as suas cartas, ainda seladas, ainda por abrir. Um último insulto do velho, mesmo já depois de ter ido a enterrar, o pulha do avô nunca abrira as cartas que lhe enviara, muitas vezes em momentos de fraqueza, em situações desesperadas.

Espreitou para o interior da gaveta. Lá mesmo ao fundo, escondido, estava um embrulho. Puxou-o, sacou-o para fora e começou a examiná-lo. Sentiu um calafrio. O embrulho era-lhe dirigido: “Entregar ao Luís, da parte da Catarina”.

Rasgou o embrulho e tirou para fora o conteúdo. A primeira coisa que o embrulho revelou surpreendeu-o bastante: uma garrafa de vinho tinto. Atrás da garrafa, outro envelope, com uma carta manuscrita. Começou a ler:

“Peso da Régua, 26 de Novembro de 1973

Querido Luís,

Escrevo-te duas semanas após a tua partida, com imensa saudade de ti e mágoa pelas últimas palavras que te dirigi. Meu amor, estou tão arrependida de ter recusado as tuas propostas, mas tão arrependida que nem podes imaginar! As duas últimas semanas foram um inferno, só agora vejo a falta que realmente me fazes! Não consigo viver sem ti e a mamã e o papá também dizem que tu és um rapaz de valor e que fiz muito mal em achar que era cedo demais para unirmos os nossos destinos. Vê lá tu que o papá, quando soube que nos tínhamos separado até abanou a cabeça e disse “que rapariga, tonta, que rapariga tonta!”. Volta, meu querido, volta e casaremos como desejavas e, se o teu avô não te quiser receber, o meu pai diz que tem para ti trabalho a gerir as nossas quintas do Douro. Volta Luís, volta meu carinho, volta por favor…

Tua, Catarina

PS- A garrafa de vinho é um presente do meu pai, ele diz que bem sabe que o nosso vinho não se compara ao vosso, mas disse também que este ano a colheita foi muito boa e que queria dar a provar ao seu futuro genro o néctar que em breve será ele a produzir..

PS 2- Não sei a tua morada meu amor, mas envio-te estas palavras pelo teu avô, fi-lo jurar que tas faria chegar.”

Luís deixou cair a carta. O avô nunca lhe entregara nada. O crápula. Os olhos marejaram-se-lhe de lágrimas. Dez anos. Dez anos assim perdidos! Catarina. Os olhos verdes de Catarina, a pele macia de Catarina, o sorriso de Catarina, as imagens que lhe acudiam à mente num turbilhão, e o coração que lhe batia desordenadamente. De súbito, levantou-se, atravessou a Casa Grande à pressa e saiu porta fora em direcção à aldeia, à casa onde vivia o Ti Jacinto, o antigo caseiro do avô.

- Ti Jacinto, ti Jacinto!

O velho estava sentado numa cadeirinha de verga a apreciar os tímidos raios de sol da Primavera. Conhecia Luís há muito e, embora não lhe tivesse agradado o que se passara entre avô e neto, a verdade é que não apreciava Luís por aí além. Não apreciava os seus modos citadinos e uma certa arrogância que sempre pressentira no moço e que agora achava ainda mais vincada.

- Diga, menino Luís, algum problema na Casa Grande?
- Não Ti Jacinto, nada disso, tenho uma coisa para lhe perguntar…
- Pergunte menino, que com a graça de Deus e em eu sabendo, com resposta não lhe faltarei…

Luís tossicou e então disse:

-O Ti Jacinto lembra-se do Engenheiro Pais? Aquela da Quinta da Moia? Lembra-se, tinha uma filha, chamada Catarina, sabe o que é feito da família?
- Ah… Espera lá menino… Espere lá que já me estou recordando… Pois, é isso, uma história triste, mais ou menos depois de o menino ter abalado…
- Que história, Ti Jacinto, que história?
- Ah… Pois, em 1974 as coisas não correram lá muito bem ao Engenheiro Pais, sabe como é o Engenheiro Pais era lá dos do reviralho e muita gente não gostou… Perdeu tudo, tudo e morreu, salvo erro em 80, na miséria…
- E a filha, Ti Jacinto, e a filha?
- A filha… Ah… A filha, já sei, abalou lá para Lisboa, sim abalou lá para Lisboa, diz que casou bem e que tem uma porção de filhos. Mas… porque pergunta menino?..
- Por nada Ti Jacinto, por nada.

Luís acenou ao velho, virou costas e encaminhou-se de novo para a Casa Grande. Foi ao escritório, trouxe o embrulho com a carta e a garrafa de vinho. Sentou-se na mesa grande da cozinha, procurou um saca-rolhas e abriu a garrafa. Sentia-se só, muito só. Espreitou o rótulo da garrafa. Dizia: Quinta da Moia, Tinto, Reserva de 1973. Verteu um pouco do vinho para um copo a que entretanto limpara o pó. Beberricou um gole. O Vinho estava bom. Dez anos numa gaveta não o tinham estragado. Desta vez encheu o copo até cima e tragou-o em três longos goles, degustando o perfume, o sabor, a textura e o fim de boca do divino néctar. Por fim, pousou o copo, reconfortado, estalou os lábios e soltou um suspiro de prazer. Abriu de par em par as grandes portadas da cozinha deixando entrar os raios de sol. Voltou a encher o copo e sorriu. Realmente, 1973 tinha sido um ano muito bom. Um ano excelente. Mas, estava certo, de ora em diante ainda seriam melhores. Luís tinha 30 anos e uma fortuna em vinhas do Douro.

25.10.07

Eye Wide Shut


Pois é, pá! Nesta vida, é preciso andar com os olhos bem abertos… os olhos bem abertos e o cu bem fechado!

21.10.07

11 vezes 9000

Fazes rir os abstémios, que, como sabes, são os mais sizudos do mundo, ahahah!

Rasputine em, "A casa dourada de Samarcanda", por Hugo Pratt.


E assim começa...

13.10.07

São cilindros, com camisas... removíveis... e (h)úmidas...



Ele há coisas do caraças. Ó a que eu descobri hoje "mientras trabajava en una tradución" de umas máquinas industriais que usam cilindros... Já viram isto? Isto é muito, muito sério, não é gozo.

Agora, ponham-se no meu lugar e vejam bem como se adensa o meu problema. A frase a traduzir começa assim:

Horizontally aligned cylinders with ... as referidas camisas (h)úmidas e removíveis...

E esta, hã?

O Outono em Pequim

Doris quê? Quem é a gaja? Alguém se lembra de quem ganhou o nobel do ano passado? E do ano anterior? E do ano anterior ao anterior? Eu só me lembro do Albert Camus, que apenas aceitou o prémio porque precisava desesperadamente da guita, e do Sartre, que mandou o prémio às malvas porque, ao contrário do Camus, não precisava do bago para nada. Não, por muitas voltas que dê ao crânio, na lista do nobel da literatura não encontro um único escritor que me tenha marcado por aí além. Salvo raras excepções, todos escritores medianos, para não dizer medíocres. E pronto, vou mas é reler o Outono em Pequim, do Boris Vian, (que nunca ganhou o nobel) até porque entre perder tempo a falar duma Doris não sei das quantas e acompanhar a construção de uma linha férrea que atravessa o deserto do Exopotâmia em direcção a lado nenhum, tenho de confessar que me sinto muito mais seduzido pela segunda hipótese. Bom fim-de-semana.

12.10.07

Retalhos da vida dum tradutor



Faz uns diazitos já que eu mudei. Já não sou mais tuga não, eu agora sou mesmo é do brasileiro, meus chapas, meus irmãos portugueses. Mas não, não vão já se assustando em vão. Essa da mudança, esse meu jeito enrolado de escrever pra vós, bem, tem uma razão de ser, como tudo, que nem nossa senhora do Caravagio ou sua irmã de Fátima (uma merda por comparação com a do Caravagio), de quem vocês tanto gostam. Tou assim, me sentido meio nordestino, meio carioca, por causa de meu trabalho, claro, só podia, né mesmo? Essa daqui é então apenas mais uma etapa de meu processo de despersonalização, já que o mercado brasileiro, para um tradutor da língua do Camões, é muito mais do legal do que a puta do mercado micha português, cês num tão ligados? E foi assim que este vosso criado, cultivador das máximas de D Pedro I, resolveu dar seu grito do Ipiranga e se mudou intelectualmente para a língua do grande, (diacho, qual era o nome do cara mesmo?) do grande… do tal… do, ai, daquele filha da puta que escreveu não sei lá o que do cravo e da canela e que metia uma mula boa pra cacete. Lembrou agora? Mesmo assim, meus meninos, a vida num tá fácil não. Oras, se é fácil que “picolim” é matraquilho, que "xerocar" é fotocopiar e outras merda de que não vou nem falar, com que puta de bunda cê traduz uma porra como a que lhes trago aqui, do Inglês para Português-Brasil, já nem falando para o português que cês grunhem lá na Europa:


For many decades, power industries, both fossil fuel and nuclear based, have depended on equipment for critical applications such as waste gas recovery, gas feeds, process air supply, electrolyser packages and high pressure storage of hydrogen for alternator cooling and hydrogen fuel cells.(...)


Hum?.. Tou esperando sugestões... Difícil, né? Pronto, olha, traduz só esse título pra mim que já vou ficando feliz:

ENGINEERED FOR HEAVY DUTY
CONTINUOUS OPERATION



E tou indo, beijos pra todos, do vosso amigo, temporariamente residindo aqui em Cu de Judas de Baixo, RN 147.

11.10.07

Pensamento da noite



A beleza está nos olhos de quem vê, quem ama feio bonito lhe parece e não sei mais o quê, tudo isso são tretas pequeno burguesas destinadas a promover um patético ideal pseudo-democrático em que somos todos iguais e todos porreiros e todos muito bonitos, muito lindos. Tudo tretas. Falácias inventadas por um grupo de pategos para justificarem a si próprios o facto de terem unido os seus destinos com os de gajas que são autênticos abortos ambulantes. Não, meus amigos, não há cá isso de a beleza estar nos olhos de quem vê, garanto. Mais depressa a beleza está no calendário da FHM ou nas páginas centrais da Plaboy do que nos olhos de quem vê. Filhos, é assim: Gaja boa é gaja boa, gaja feia é gaja feia e depois há aquele monte de gajas que não são feias nem bonitas: comem-se.

Daniel Ferro, barman e intelectual de bairro.

10.10.07

Um dia na vida de Xis




Xis está sentado à secretária, tem um livro aberto à sua frente, com muitos números, setas, gráficos e algumas imagens. Vê-se que Xis está enfadado com a leitura e pelo seu semblante pode deduzir-se que não está a conseguir absorver a informação patente no livro. Toca o telefone.

- Tou, filho?
- Sim?
- Olha, o teu pai e eu, blablablabla, e assim estivemos a pensar e blablablabla, e então chegámos a conclusão de que, blablabla. O que é que, blablabla, achas disto?
- Não acho nada. Ou melhor, acho que sim, como quiseres.
- Então pronto, blablablabla, fica, blabla, combinado. Beijinho Xis.
- Beijinho mãe.


Xis pousa o telefone e regressa à leitura. Está na página 47 e ainda não logrou perceber o objectivo do texto que tem à sua frente. Na verdade, as quarenta e sete páginas anteriores não passam de uma névoa sem sentido que o traz apreensivo. Suspira e faz mais um esforço para se concentrar na leitura. Página 48. Toca o telefone.

- Tou, fofinho?
- Sim?
- Querido, blablabla, e então, blablablabla, e depois, blablablabla, e assim, blablablabla, estás a ouvir?
- Sim. Continua.
- Está bem, meu doce, blabla, e eu sinto blablablabla, e tu ainda, blablablabla, por, blablabla, por mim?
- Sim, claro. Óbvio.
- Então está bem, blablablabla, gosto de ti, blablablabla, beijinho.
- Beijinho. Também gosto de ti.


Xis pousa o telefone e regressa de novo à leitura. Os minutos passam silenciosos. Acende um cigarro. Fará sentido a dedução que acaba de lhe ocorrer? Pondera-a sob vários prismas. Se Y é prefixo de Z e em H o radical não permite sufixo… Então, então… Mas, está quase lá, espera, já está quase a fazer senti… Toca o telefone.

- Tou, é o Xis?
- Sim, doutor, como está? Sou eu mesmo.
- Olhe, Xis, estive a pensar que, blablablabla, pode aumentar o ritmo do trabalho, blablabla, sei que o Xis, blablabla e como confio em si, blablabla, considero que, blablabla, o Xis está em condições de, blablablabla, ter isso pronto, blablablabla, uma semana antes do que tínhamos combinado?
- Sim, claro, doutor.
- Então pronto, blablabla, não se esqueça de, blablabla, sou quem sabe, até segunda Xis.
- Até segunda doutor


Xis pousa o telefone e regressa à leitura. O que é que tinha deduzido mesmo? Y, prefixo de Z, casos de radicais que não permitem sufixos… Exemplos? Exemplos?!? Xis não consegue retomar o fio do seu raciocínio. Fecha o livro e liga o computador. Vai para os seus documentos e abre um ficheiro PDF intitulado “Doutortrabalhodeinvestigação”. Corre a página até o ponto onde o trabalho ficara na última vez em que abrira o ficheiro. Tenta concentrar-se:

“O modelo dinâmico da produção e do ritmo da fala apresentado é passível de dar conta de dados de duração natural, predizendo com alto valor de correlação o padrão global de acentuação ligado à implementação da duração encontrada em frases naturais sujeitas a variação da taxa de elocução.”

Xis relê o que acaba de escrever. Uma e duas vezes. Não faz sentido algum. A variação da taxa de elocução não está interrelacionada com o padrão global da acentuação, mas mais com factores climatéricos, psicossomáticos e geográficos, pese o facto de as técnicas de investigação de tipologia rítmica negarem essa realidade…

Não, não faz sentido. Ou fará? Xis busca na memória tudo o que lhe foi transmitido acerca de dados de duração natural, mas desta vez procura corroborar a hipótese pela negativa: será possível predizer o padrão global da acentuação em frases anti-naturais sujeitas a não variações da taxa da deselocução? Por muito que tente, com o auxílio de gráficos, fluxogramas e imagens, Xis não consegue verificar a segunda hipótese o que o deixa frustrado e a olhar para o vazio.

É preciso dizer contudo que Xis não está a ter um dia fácil. Nada fácil. Mas a percepção dessa realidade força-o a não pensar e então arruma o assunto de uma vez. Xis não é parvo de todo e descobriu há muito que as únicas coisas importantes são aquelas que não fazem qualquer sentido. Porque, claro, só em relação a essas podem aparecer tipos como Xis ou como o doutor que, não fazendo patavina desses assuntos, os revestem de uma tal maquilhagem que leva todos os outros a supor que Xis e o doutor e outros como eles são tipos entendidos e sabedores que merecem o aplauso dos seus pares, presença assídua em congressos universitários e licenças sabáticas com ordenados acima da média. Pois. Xis não é parvo de todo.

Entretanto, e talvez por isso, Xis descobriu a solução para o problema que o apoquentava e escreve com um ar de total enfadamento:

“O modelo proposto gera a duração segmental para línguas que manipulam a duração como parâmetro de controle prosódico para assinalar o acento frasal ao longo do enunciado.”

Xix sorri com um ar de triunfo, grava e fecha o documento. Afasta o teclado e deixa cair pesadamente a cabeça em cima do tampo da mesa. Fecha os olhos. Escuta os carros que passam na rua. Quanto tempo Xis ficou assim nem ele se recordaria. Finalmente, o telefone tocou de novo.

- Xis? Sou eu pá!
- Olá, diz coisas.
- Olha, que tal irmos beber umas cervejinhas e ir ver umas gajas boas?..


A pergunta fica suspensa no éter. Xis reflecte durante alguns segundos. Olha em torno de si e fixa a janela no canto oposto do quarto. O sol brilha na janela.

- Xis? Então, pá, o que é que dizes?
- Digo que sim, digo que estas tuas palavrinhas são as mais sensatas e inteligentes que hoje me foi dado ouvir, ler ou escrever. Daqui a meia hora, no sítio do costume? Até já.



Foto: Picasso.

2.10.07

Pensamento da noite



"Cara d'Anjo Mau: Tinha que fazer alguma coisa, depois de encontrar a Jane do Toulouse-Lautrec e de abusar da Diane Di Prima, com mais ou menos poemas de amor. Tinha que fazer alguma coisa."



Jorge Palma (no livrete do álbum "Palma's Gang - Ao Vivo no Johnny Guitar)

30.9.07

Pensamento do dia



"Hoje em dia, há simplesmente demasiados escritores por leitor. Há um par de décadas atrás, um adulto que pensasse sobre livros ou autores ainda por ler, lembrava-se de trinta ou quarenta nomes; actualmente, esse número chega aos milhares. Hoje, entra-se numa livraria como se entra numa loja de música cheia de álbuns de grupos e solistas, em que se levaria mais do que uma vida a ouvi-los. E muito poucos entre esses milhares são exilados ou particularmente bons. Contudo, o público vai lê-los, e não a ti, apesar da aura que te rodeia, não porque o público seja perverso ou insensato, mas porque, estatisticamente, pertence ao âmbito do que é mediano e medíocre. Por outras palavras, o público quer ler sobre si próprio. Em qualquer cidade do mundo, a qualquer hora da noite ou do dia, são mais as pessoas que nunca ouviram falar de ti do que as que já ouviram."


Joseph Brodsky, in "A Condição a que chamamos exílio". Tradução via O Lado Negro da Lua.

28.9.07

O estranho caso do Luso Tagus



Sempre gostei muito de barcos. Sobretudo de barcos grandes. Gosto de os ver passar ao longe e de imaginar as paragens que já visitaram, os dramas que testemunharam, as histórias que calam para sempre no silêncios das suas esteiras, os destinos que se misturam nos portos onde atracaram.
Quando descobri o Luso Tagus apaixonei-me logo por ele. O navio estava (e continua) ancorado (encalhado é a melhor expressão) num molhe do Cais Comercial de Faro, no Algarve. Está cheio de ferrugem e votado ao abandono.
Mal o vi, fui logo buscar a câmara e à medida que o fotografava pus-me a imaginar o que teria levado o Luso Tagus àquele triste destino. Para ali encalhado, ligeiramente inclinado no seu eixo, a ganhar ferrugem e a perder o brilho da sua outrora intensa cor azul.
Que mistério se esconderia por trás do Luso Tagus? Afoito, logo me lembrei de pirataria… Depois, mais realista, ocorreu-me a hipótese de naufrágio… Só que o Luso Tagus não tinha nenhum rombo no casco, a pirataria é coisa de outros mares que não o nosso, e o barco parecia ter-se encalhado ali, sem mais, não por força da Natureza, (nenhum barco encalha num cais), mas sim por intervenção do Demo, ou seja, tinha de certeza havido mão humana no estranho caso do Luso Tagus.
Quando cheguei a casa fui logo a correr investigar a história do navio com bandeira panamiana que se chamava Luso Tagus.
As minhas expectativas não saíram frustradas. O Luso Tagus transportava tabaco de contrabando, há uns bons 15 anos, quando as autoridades detectaram a marosca e o apreenderam. Após um inquérito, o armador foi condenado a pagar uma multa para reaver o navio, só que nunca o fez e o barco por lá ficou, a ganhar ferrugem. Li tudo isso na internet, num antigo recorte de jornal scanarizado, mas a minha curiosidade não ficou saciada.
Passados uns dias voltei ao cais e, desta feita, estavam vários pescadores mesmo junto ao molhe do Luso Tagus. Fui-os abordando o melhor que um estrangeiro sabe e pode e, ao fim de algum tempo, um deles, mais expansivo, contou-me então o resto da história: após o armador se ter esquivado a pagar a choruda multa que a justiça estipulara, vários anos se foram passando no ramerame judicial, enquanto o barco perdia todo e qualquer valor comercial, à medida que as engrenagens ferrugentas da burocracia se ocupavam disso mesmo, quando, finalmente, há três ou quatro anos, a propriedade do barco reverteu, na sua totalidade, para o Estado português, o qual tratou de o vender em hasta pública.
Só que, ó miséria, apenas um sucateiro se interessou e o Luso Tagus foi arrebatado por uma ninharia de dois ou três mil contos, tendo como futuro ser esventrado, desmanchado e transformado em sucata pura e dura. No entanto, isso não sucedeu, porque o Estado foi ter com o sucateiro e lhe exigiu, não os poucos milhares de contos pelos quais este arrematara o navio, mas e ainda umas largas dezenas de milhares de contos pelo “aluguer” do espaço onde o barco estava encalhado.
E o tipo, ao dar conta da armadilha, deu os dois ou três mil contos que gastara pelo Luso Tagus por perdidos e mandou o navio dar uma larga volta ao Estado português grande.
O tempo passou, passou, e o Luso Tagos foi novamente apreendido pelas ferrugentas malhas da burocracia estatal. O pescador que me contou isto estava revoltado: “O senhor já viu, um barco novinho em folha e agora nem para sucata serve?”
Mas eu também tinha lido algures que o problema era ainda mais complexo: o problema da poluição. Dizem os activistas da protecção ambiental que o Luso Tagus, mais as suas ferrugens e as suas tintas desbotadas, aos poucos e poucos, vai poluindo as águas onde se encontra encalhado…
Sobre isso, o pescador nada sabia, a não ser que já tinha sacado daquele sítio “quilos e quilos de peixe, amigo, quilos e quilos!”… Eu por mim, não tenho muito a acrescentar, a não ser o seguinte: gosto muito do Luso Tagus. Está no Cais Comercial de Faro e tão cedo não se irá embora; por isso, amigos, quando forem ao Algarve, não se esqueçam de o visitar. O Luso Tagus, como podem verificar, não é bonito: é belo.

Questão socrática...


Lavas as mãos antes, ou depois de urinares?

26.9.07

Pensamento da noite


Adversity has the effect of eliciting talents, which in prosperous circumstances would have lain dormant.

Horácio


25.9.07

Até sempre rapaz


Lembras-te, devias ter um oito anos e eu cinco, fomos ao circo pela mão do nosso avô, tu explicaste-me o mundo dos palhaços, o que era um tigre, como eram parvos os macacos, e que um urso me comia, mas a ti não, porque eras grande e forte e o matavas antes dele conseguir dizer viva o Porto?


Lembras-te do que nos divertimos nesse dia?


Lembras-te, as primeiras férias que passámos em Caminha, ainda antes de abrir o parque de campismo da Gelfa, ali em Vila de Âncora, e todos os Verões que por lá vivemos, a praia de parte da manhã, o almoço na Madalena e as tardes a jogar xadrez? A avó fazia iscas de bacalhau e farinha de pau e papas de sarrabulho e avô falava sobre um alemão que se chamava Brecht, ou qualquer coisa assim, lembras-te?


Lembras-te, já tu tinhas tido o teu primeiro amor, daquela célebre corrida contra o primo Emílio, quando o avô nos contrabandeou até à linha da meta, na bagageira do carro, e ganhaste gelados para ti e para mim?


Lembras-te, das férias em Peniche, do Forte, da música «it's rainning again» no jukebox, do bilhar e do primeiro cigarro que fumámos juntos, o avô que quase nos apanhava?


Lembras-te, dos tempos em tu já eras jornalista e eu andava a caminho de o ser, das nossas longas noites a discutir filosofia política, o jornalismo, a metafísica e os outros assuntos mundanos, a altas horas da noite, quando chegavas da rádio, no quarto que ambos partilhávamos no Porto?


Lembras-te, muito mais tarde, eu estava a passar a 25 de Abril, tu telefonaste e disseste, com a voz metálica que a rádio te dera: «A avó morreu» e eu quase me matei nesse dia, porque não compreendia e não podia compreender?


Lembras-te, quando foi a vez do avô, o primo Emílio deu-me dez contos para a mão, peguei em ti e no Goncas e a seguir ao funeral levei-vos a beber um copo em memória do velhote e tu acusavas-me, já não sei bem do quê, e o Goncas fez a paz entre nós e demos aquele abraço e quase chorámos?


Lembras-te, quando continuámos o negócio do velho Fernando, fizemos sociedade e depois a vida negra um ao outro e a famíla se pôs a envenenar e nos detestámos como nunca o tínhamos feito?


Não, é verdade que não te lembras. Não te podes lembrar, não é?

No outro dia, vinha eu de viagem e falava sobre ti, sobre essas dias da nossa juventude, quando a tua tia, minha mãe, me telefonou a confirmar que não te podias lembrar, a confirmar que nunca mais te lembrarias.


A puta da morte tinha-te saqueado a memória, assim, sem mais, nem quarenta anos tu tinhas ainda. É estúpido. Tão estúpido que ainda hoje, três semanas ou mais depois o estúpido da coisa não me abandonou. Estás morto. É tão simples quanto isso, mas, ao mesmo tempo, não é nada simples.


Eu lembro-me, dois dias após esse telefonema, lá estava eu, à tua campa, com os outros, os que por cá ficaram, bem mais pobres, tristes, infelizes, a dizer-te adeus, a pensar que se calhar não é bem assim, que se calhar até é verdade que ainda nos voltamos a ver e a pensar que nada disto faz sentido nenhum, a pensar que tenho tanta pena de ter andado chateado contigo nos últimos anos, a pensar que há mais de três anos que não queria saber de ti e a recordar que até ficara intimamante satisfeito quando me disseram que ultimamente tinhas tido uns problemas profissionais.


Pois.


A pensar no cabrão que fui e que sou. E sobre isso, nada a fazer. Até sempre Nuno Miguel. Eu sei que nunca gostaste que te chamasse assim. Gostavas mais do teu nome de guerra, não é? NCF, o primeiro jornalista português a entrar em T após a invasão. Foste triturado pelos gajos do Parlamento quando regressaste, mas enfim, tinhas tido os tomates para lá ires, enquanto eles, refastelados no conforto da Pátria, debitavam umas lérias sobre o sofrimento dos nativos. Os filhos da puta. Aliás, essa história continua muito mal contada e se eu fosse outro gajo era tipo para por tudo em pratos limpos por ti, mas não o sou e isso a ti, se calhar, já nada adianta.


Histórias antigas, é o que isto é, meu primo, meu irmão.


Faz-se tarde. Desde que te foste, passei a beber menos. Ando triste. Por um lado, digo às pessoas, «antes ele do que eu», por outro, estou triste porque só agora percebo a falta que me fazes. E assim é a vida. We win some, we lose some, in the end we all die. Até sempre, rapaz, dorme bem, dorme um sono leve e solto e descansado. Se possível, sonha. Sonhos bonitos. Se possível ainda, sonha comigo, sonha com aquele miúdo a quem ensinaste a dizer «merda prós cabrões que nos lixam!». Sonha com aquela criança que era o teu compincha, o teu cúmplice e o teu companheiro. Eu, por mim, não preciso de sonhar, pois nunca te esquecerei.


PS - Esta foto é para ti. Suponho que o Goncas não se oporá a isto. É a foto da mão dele com a sua filha, a tua prima. Quando a Martha for grande, se eu ainda for vivo, vou contar-lhe sobre ti, vou dizer-lhe que o primo Nuno era um homem com H grande.

24.9.07

Obsessão nocturna

Passa pouco da uma da manhã e a escuridão acaba de se abater sobre o quarto. Nenhuma luz é visível e sou incapaz de sentir algo mais que não seja o corpo dele, jovem e vigoroso, bem pertinho, à distância de um breve e rápido voo, solitário naquela cama tão grande e vazia. Esta é a terceira noite em que o visito e, durante o dia, é o calor da sua pele que habita a minha mente e alimenta o meu desejo. Não me consigo fartar dele, estou viciada! Viciada no seu corpo quente e no seu sabor. Viciada no sangue que pulsa por todo o seu corpo. Quero mordê-lo e chupá-lo até matar esta fome que me consome. Quero ficar saciada! Espreito do meu canto: o seu corpo está imóvel e a respiração repete-se lenta e pausada. Tão tranquilo! Mal sonha que em breve estarei a tocá-lo, a mordiscar aqui e ali, e que partirei, tão silenciosa como cheguei, apenas para voltar na noite seguinte e saciar a minha sede uma vez mais. Começo a percorrer o quarto e a chegar cada vez mais perto. A cada centímetro que percorro, consigo sentir o calor da sua carne cada vez mais próximo (cada vez mais inebriante!) e o êxtase percorre o meu corpo. Uma mão! Uma mão levantou-se em direcção a mim na escuridão! Todos os meus sentidos entraram em alerta máximo! Ter-me-ia detectado? Estaria ciente da minha presença? Mas, fui sempre tão carinhosa ao longo de todas estas noites, tão cuidadosa na minha aproximação silente, tão suave no toque... Sempre me esforcei para o não despertar da tranquilidade dos seus sonhos. Outra mão! Este jogo começa a ficar perigoso, mas ele é meu e nunca se conseguirá livrar de mim! Duas mãos!

PAF!

«Pronto! Está feito! Há três noites que me andas a pôr os nervos em franja! Vai zumbir e chupar sangue para o diabo que te carregue! Puta da melga!»

Pensamento do dia


Wer fremde Sprachen nicht kennt, weiss nichts von seiner eigenen.


Johann Wolfgang von Goethe

21.9.07

Les grands esprits toujours se rencontrent

Então, pá, sempre cumpriste aquilo a que te propuseste hoje? O que era mesmo? Tinhas que acordar bem cedinho para ir à faculdade ver das listas e das inscrições, não era? Pois era, pá, pois era! Depois, estavas numa de ir à EDP resolver aquela questão do pagamento, se bem me recordo. Sim, falas bem! Ah! Sempre foste à Segurança Social resolver a tal dúvida e pôr tudo em pratos limpos? Pois, isso... E na farmácia, sempre te trataram da tal declaração? Epá, sabes… Conta, conta que eu quero saber como foi essa tomada de consciência que te disse «Olha lá, tu põe-te a toques, meu docinho. Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje. Olha que o mundo não perdoa, passam-te a perna e és deixado para trás.» Pois, então, lá acordei cedinho para tratar de tudo, devia ser umas dez da manhã… Ena! Dez da manhã! Que madrugador! Lá fui para a faculdade ver das listas e das inscrições. Devia ser cerca da uma e picos da tarde quando lá cheguei e o departamento estava fechado para almoço. Mas lá encontrei a prof e ela disse-me que aquilo ainda estava em processo e tal… e a conversa lá avançou pr’ós vários verbos perceptivos, computadores, congressos universitários… Bem, suponho que aproveitaste a deixa para ir tratar das outras coisas. Pois, então! Foi exactamente o que pensei... E lá foste! …mas encontrei o meu melhor amigo, sabes como são estas coisas, les grands esprits toujours se rencontrent e tal, fomos almoçar lá na cantina, beber umas cervejitas, pôr a conversa em dia, dar uma olhadela pelos corredores e mancar o sangue novo que se passeia pela facultatis. O gajo até é importante, convém manter o contacto e tal. Mas, fui tratar do resto, fui! Ah, pois! Aqui o menino quando decide uma coisa, não se fica pelos ajustes! Aqui não há pão p’ra malucos! Gosto de te ouvir falar assim, pá! É isso mesmo! Motivação! Determinado e expedito! Conta lá como correu na EDP, então! Então, cheguei lá… e estava fechado. Eia, que azar, que azar! Lá terá que ficar para outro dia. E na Segurança Social? Pois, sabes como é, eles fecham cedo, de modo que… Vejo, vejo… os preguiçosos, né? Mas, suponho que na farmácia até te safaste. Afinal, nem a dois minutos fica da tua casa! Pois, isso… A directora vai ficar uma semana no estrangeiro e coiso, pelo que também não foi hoje. No estrangeiro? Essa malta não quer é mexer uma palha, é o que é! Pois! Mas, suponho que te divertiste, pelo menos… Ó, sim! E, agora, que te propões a fazer? Agora? Agora, vem aí o fim-de-semana e tu bem sabes que para mim fim-de-semana é sagrado. Nem prá frente nem pra trás! Não faço pevide. As tarefas ficam para os dias de semana! Tenho dito! É isso mesmo! Nem sabes como invejo os gajos como tu: disciplinados e cumpridores! É assim mesmo! Sabes que isto, na vida, um gajo tem que ter pulso! Pulso e garra!

18.9.07

Negócio de família


O carro cinza atravessa a estrada degradada, rasgando a tempestade e resistindo com dificuldade à força da chuva. Os limpa pára-brisas trabalham freneticamente para cá e para lá numa tentativa de manter nítido o caminho tortuoso e esburacado. Em baixo, o rio galopa veloz, alimentado pela força do vento e pela chuva que fustiga a ribanceira. É um caminho perigoso, mas não se pode dar ao luxo de ter um encontro imediato com a polícia. O coração de Ricardo explode no peito a cada metro percorrido pelo automóvel e a cada pulsação parece querer saltar para fora. O choque e a surpresa estão espelhados nos olhos e o corpo apenas conduz o carro por instinto. Toda a sua atenção está centrada na enrascada em que está metido e no seu melhor amigo, sentado a seu lado. Tem de fazer este último favor pelo amigo... pelo irmão. Se Gabriel quer desaparecer, assim seja, e Ricardo não porá em causa o motivo... nem mesmo o método. É tarde demais para isso. Só lhe resta cumprir o pedido. Mas, como?

Ricardo fora despertado nessa madrugada pelo toque do telemóvel. Do outro lado da linha, a voz de Gabriel soara seca e arrastada, como se fosse a voz de outro homem que partisse do amigo. Um único pedido fora feito: Ricardo devia ir, sem perder mais um segundo, a casa de Gabriel, dirigir-se à cave e lá encontraria o resto das instruções. A chave estava debaixo do tapete da entrada. «Se és meu amigo, vem. Em breve, compreenderás.» Depois, a chamada terminara e Ricardo ficara sentado na cama sem saber o que pensar de tudo aquilo. Gabriel era mais do que um amigo, era como um irmão. Se precisava de ajuda, se estava metido nalgum sarilho, Ricardo iria em seu auxílio imediatamente.

Arrancou a toda a velocidade para casa do amigo.

Ele conhecia bem a vida de Gabriel. O pai era um tipo importante no mundo do crime: tráfico, lavagem de dinheiro, extorsão. Tudo com um negócio de fachada impecável e à prova de bala. Um tipo polivalente com jeito para a coisa. Gabriel acabara por se envolver naquele mundo, mas nunca escondera ao amigo o desejo de sair e de ter uma vida normal com a família. Infelizmente, não fora para isso que o pai o criara. Gabriel conseguira até à altura manter a mulher na ignorância, mas não sabia até quando. Era uma questão de tempo até descobrir… não era parva nenhuma. Queria sair antes que fosse tarde.

As luzes da casa estavam apagadas e tudo parecia estar calmo. A mulher e os filhos tinham ido passar uns dias a casa da sogra de Gabriel. A casa estava lugubremente deserta. O céu coberto de nuvens negras e ameaçadoras engolia a rua mal iluminada e o silêncio apertava o peito de Ricardo. Que se passaria? Não perdeu tempo em divagações inúteis. Saiu do carro, pegou na chave de casa e entrou em passo apressado, avançando de imediato para a cave. Lá fora, algumas gotas começavam a cair e o primeiro trovão não tardou a anunciar a sua fúria. Desceu as escadas que davam para a cave e acendeu a luz. Gabriel esperava por ele. A trave do tecto mal suportava o peso do corpo suspenso por uma corda. O rosto azulado estava quase irreconhecível: os olhos vermelhos saltavam das órbitas e a boca frouxa revelava a língua pendente. Enforcado. Ricardo contemplou esta cena macabra, incrédulo, até reparar no bilhete sob os pés do cadáver do melhor amigo. A mensagem era breve. Gabriel falara abertamente com o pai. Expusera o seu desejo de deixar aquela vida e seguir o seu caminho. O pai mostrara o seu desagrado e chegara mesmo a ameaçar-lhe a família se o filho abandonasse o «negócio». O irmão mais novo avisara-o de que o pai tentaria algo contra si. Ele sabia do que o pai era capaz. Gabriel só encontrara uma maneira de salvar a família. Morrer. Esperava enganar o pai com este golpe desesperado e conservar alguma da sua honra encobrindo o suicídio. A tarefa de Ricardo era simples, mas estava longe de ser fácil: ninguém podia saber do suicídio, a sua morte devia parecer um acidente. Pelo bem da sua família. «Desculpa, não quero deixar este fardo ao meu irmão. Não sei como reagiria. Só tu podes fazê-lo.»

E, agora, o carro fura pelo temporal, estremecendo com a força do vento. A estrada revela-se a cada clarão dos relâmpagos, seguidos pelo rugido ensurdecedor do trovão. Que raio de noite para morrer! «Merda, Gabriel, de todos os dias… logo com este temporal! E agora!? O que é que queres que eu faça? Como é que vou fazer o que me pediste?» Ricardo desviou o olhar para Gabriel por um instante e o despiste foi imediato. A estrada em más condições e a fúria do temporal derrubaram o carro para a ribanceira, que caiu fora de controlo no breu da noite e em direcção à impetuosidade do rio, começando a afundar-se rapidamente.

Ricardo recuperou os sentidos apenas para constatar que o automóvel estava a ficar inundado e para antever, lívido, o pára-brisas começar a ceder com estalos lentos, rachando em vários pontos com o peso da água, até rebentar no seu rosto desesperado.

Poucos dias depois, os jornais anunciavam a recuperação de dois cadáveres presos dentro de um automóvel, no rio. Um deles era o filho de um poderoso empresário. A autópsia revelara que este já estava morto antes do acidente. Suspeitava-se do outro ocupante.

Vítima de homicídio ou de um simples acaso, Gabriel obteve a morte desejada.

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- Leu o jornal de hoje, pai?
- Li, sim. … Já sabia que aconteceria algo do género. Sempre foi um desesperado.
- Era isto o que pretendia!?
- O teu irmão estava a ficar demasiado instável. Era imperativo tomar uma medida quanto a essa situação. Esperava apenas que fugisse como o cobarde que é… era… poupou-me a maçada.
- Maçada!? Quando liguei ao Gabriel, como me pediu, esperava apenas afastá-lo de tudo isto! Pensava que era para o bem dele!
- E foi. Foi o melhor para ele… e para todos nós.
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- Lembra-te, meu filho, nada nem ninguém é mais importante do que o negócio da família.

Computando, computando...



Ora bolas, onde é que eu, aqui há uns anitos, estava com a cabeça, para agora andar às voltas com synonym rings, chunkers, namespace prefixs, metadata registries, POS-taggers (part-of-speech taggers), algoritmos e o carago? Sim, afinal, onde estão as gajas nuas, a cerveja e as drogas, hã?.. Bom, olhem, com uma gripalhada dos diabos, hoje, amanhã e depois fico-me por isto, computando e computando. Até sempre.

PS- Quando der em louco de vez logo vos apresentarei o modelo de dados referenciais, bem como a sequência de combinatórias preferenciais mais adequada para um correcto diagnóstico das mazelas que estão a colocar em risco o respectivo motor de busca.

8.9.07

Pensamento da noite


- Look, just because I don't be givin' no man a foot massage don't make it right for Marsellus to throw Antwan into a glass motherfuckin' house fuckin' up the way the nigger talks. Motherfucker do that shit to me, he better paralyze my ass cuz I'll kill the motherfucker, know what I'm sayin'?

- I ain't saying it's right. But you're saying a foot massage don't mean nothing, and I'm saying it does. Now look, I've given a million ladies a million foot massages, and they all meant something. We act like they don't, but they do, and that's what's so fucking cool about them. There's a sensuous thing going on where you don't talk about it, but you know it, she knows it, fucking Marsellus knew it, and Antwan should have fucking better known better. I mean, that's his fucking wife, man. He can't be expected to have a sense of humor about that shit. You know what I'm saying?

Pulp Fiction

6.9.07

From the devil's mouth...



“The suffering of the poor is something very beautiful and the world is being very much helped by the nobility of this example of misery and suffering.”

"Madre" Teresa de Calcutá. Ler mais da e sobre a "santa" aqui.

2.9.07

Nota interna

Pois é, pá. Já falei com a (...) e ela diz que acha bem, que a coisa tem pernas para andar. E pronto, people, tá visto: não tarda muito vão passar a tratar-me por vossa doutorada excelência, eheheh...